
Rei Charles, da Grã-Bretanha (Foto: Mina Kim/Pool/File Photo)
O rei Charles III inicia na próxima segunda-feira (27) uma visita oficial de quatro dias aos Estados Unidos, em um momento delicado para as relações diplomáticas entre o Reino Unido e os EUA. A viagem, organizada a pedido do governo britânico, oficialmente celebra os vínculos históricos entre as duas nações por ocasião do 250º aniversário da independência americana, mas ocorre em meio a tensões políticas e o caso Epstein, que afeta diretamente a família real britânica.
A visita real acontece em um contexto de crescentes atritos entre o ex-presidente americano Donald Trump e o primeiro-ministro britânico Keir Starmer. Desde o final de fevereiro, Trump tem multiplicado críticas aos aliados britânicos, especialmente após Londres expressar reservas sobre os bombardeios de Israel e dos Estados Unidos contra o Irã. Em março, o ex-presidente americano chegou a afirmar duramente que Starmer "não é Winston Churchill", minimizando a liderança do premiê britânico.
As tensões diplomáticas se intensificaram quando Trump criticou o projeto britânico de devolver às Ilhas Maurício o arquipélago de Chagos, onde está localizada a base militar de Diego Garcia, utilizada por ambas as potências no Oceano Índico. Sob forte pressão americana, o Reino Unido acabou suspendendo essa devolução neste mês.
O republicano também zombou do Exército britânico e minimizou sua contribuição na coalizão internacional que combateu os talibãs no Afeganistão, provocando irritação no governo de Londres. Essa série de ataques levou alguns parlamentares britânicos a solicitarem o adiamento da viagem real, posição compartilhada por 48% dos britânicos, segundo pesquisas recentes.
Apesar das controvérsias, Trump declarou à BBC que a visita poderia "perfeitamente" reparar a "relação especial" entre os dois países. O monarca britânico terá a oportunidade de usar o contexto do 250º aniversário da independência americana para tentar amenizar as tensões atuais.
Um dos momentos mais importantes da visita será o discurso de Charles III na próxima terça-feira diante das duas Casas do Congresso americano — o primeiro de um monarca britânico desde o pronunciamento da Rainha Elizabeth II em 1991. Segundo Craig Prescott, especialista em monarquia da universidade londrina Royal Holloway, o rei provavelmente mencionará as tensões atuais, ainda que de forma "bastante codificada".
Prescott também destaca que, apesar de ter subido ao trono apenas em 2022, Charles III, de 77 anos, que continua em tratamento contra um câncer, possui grande experiência em exercícios diplomáticos e demonstrou ser "melhor orador" que sua mãe.
Outra questão delicada que paira sobre a visita é o caso do falecido criminoso sexual americano Jeffrey Epstein e sua amizade com Andrew, irmão do rei. Esse escândalo, que afeta a família real há mais de 15 anos, ganhou novos desdobramentos nos últimos meses com a publicação de fotos e e-mails comprometedores para Andrew.
Recentemente, Charles III tomou medidas drásticas, retirando do irmão todos os títulos reais, incluindo o de príncipe. O monarca também se comprometeu a permitir que "a Justiça siga seu curso" após a detenção de Andrew em fevereiro, suspeito de ter transmitido documentos confidenciais a Epstein.
Embora o ex-príncipe não tenha sido formalmente denunciado até o momento e sempre tenha negado qualquer comportamento impróprio, ele continua sob investigação judicial. Vários parlamentares americanos solicitaram, sem sucesso, que Andrew prestasse depoimento no Congresso.
O congressista democrata Ro Khanna, muito ativo nesse tema, escreveu diretamente a Charles III pedindo que o rei se reúna "em privado" com vítimas de Epstein. A família de Virginia Giuffre, principal acusadora do financista, que faleceu em abril de 2025, fez pedido semelhante.
O Palácio de Buckingham rejeitou essa possibilidade, argumentando que tal encontro poderia "prejudicar as investigações em curso ou o bom funcionamento da Justiça". Khanna considerou esse argumento "ridículo" em entrevista ao The Times, afirmando que o rei "deveria ao menos mencionar as vítimas de Epstein em seu discurso" no Congresso e "reconhecer o trauma sofrido por essas jovens".