
Foto: Redes Sociais
Silas Malafaia, que fez campanha aberta para Lula em 2002 e em 2006 e foi nomeado pelo próprio presidente ao "Conselhão" em 2003, afirmou recentemente que a Igreja Católica criou o PT. A declaração do pastor, que chegou à direita após anos de alinhamento com a esquerda, gerou controvérsia ao ignorar o histórico de sua própria trajetória política e o papel de lideranças evangélicas no movimento petista. Antes de analisar a acusação, vale registrar que Malafaia atravessa um momento de pressão.
O pastor foi às redes sociais pedir um avião novo, já que seu Cessna Citation III não serviria mais — um problema de difícil compreensão para quem não foi contemplado pelos dons da teologia da prosperidade. O PT nasceu em 1980 de um casamento entre o sindicalismo do ABC paulista, intelectuais radicalizados de esquerda e setores minoritários e dissidentes do catolicismo, ligados à Teologia da Libertação e às Comunidades Eclesiais de Base. A hierarquia católica, no entanto, reagiu formalmente a esse movimento. São João Paulo II e o cardeal Joseph Ratzinger, então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, disciplinaram formalmente os chamados comunistas de batina. A "Libertatis Nuntius", de 1984, condenou o uso do marxismo na teologia, e a "Libertatis Conscientia", de 1986, reafirmou a reprimenda.
Em 1983, na Nicarágua, João Paulo II repreendeu publicamente o padre Ernesto Cardenal e exigiu que sacerdotes deixassem cargos no governo sandinista. Leonardo Boff foi enquadrado pela Santa Sé em 1985. A CNBB não apoia políticos ou partidos — algo que não se pode dizer de Malafaia. Toda a Igreja Católica pagou um preço alto pela ação dessa pequena e barulhenta ala ideológica, os "padres de passeata", como dizia Nelson Rodrigues. O crescimento neopentecostal das últimas quatro décadas se deu, em parte, exatamente pela fuga de fiéis que entenderam que Jesus Cristo e Karl Marx não dividem o mesmo altar.
Malafaia apoiou Leonel Brizola para presidente em 1989, Anthony Garotinho nos anos 1990 e Lula em duas eleições consecutivas — assim como outras lideranças evangélicas muito mais relevantes para o movimento do que qualquer padre comunista. Benedita da Silva, o pastor e deputado Henrique Vieira no PSOL, o pastor Ariovaldo Ramos, Marco Feliciano, Ed René Kivitz e até Jorge Messias são exemplos de lideranças que defendem e apoiam candidatos, políticos e pautas de esquerda nas últimas décadas.
Colar o catolicismo no PT é tão injusto quanto associar o antissemitismo de Martim Lutero ao nazismo ou o escândalo do Banco Master exclusivamente à igreja da Lagoinha. O pastor Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, é investigado pela movimentação suspeita de cerca de R$ 485 milhões. Em apenas quatro meses, R$ 40,9 milhões foram parar em uma unidade da Lagoinha. A fintech Clava Forte Bank, fundada pelo pastor André Valadão, é alvo de investigações de fraude.
Há ainda investigações sobre descontos ilegais em benefícios do INSS que teriam usado a capilaridade religiosa para canalizar prejuízos estimados em R$ 1 bilhão a fundos de pensão.
Católicos representam 56% da população brasileira, segundo o Censo de 2022 do IBGE, e cerca de 57% do eleitorado. Os evangélicos respondem por 26,9% da população no mesmo levantamento, podendo representar algo como 36% do eleitorado nas eleições presidenciais de 2026. Pesquisa Datafolha mostra que 26% dos evangélicos consideram a opinião do pastor na hora de votar — resultado único entre as religiões brasileiras. Nada menos que 16% dos protestantes já votaram em candidato indicado pelo pastor, e 31% votaram em alguém por ter a mesma fé.
O eleitor católico é mais heterogêneo: 17% consideram a opinião de seu líder religioso na decisão de voto, mas somente 6% votaram em quem a Igreja indicou. Atacar católicos numa campanha eleitoral é um erro de manual. Flávio Bolsonaro já tem o voto evangélico, e ofender o grupo majoritário no país não rende um único voto para ele. Malafaia queria Tarcísio de Freitas nas urnas disputando contra Lula este ano e nunca escondeu sua preferência. Aceitou Flávio pragmaticamente, mas ainda sem o mesmo entusiasmo. Mal pousou seu Cessna Citation III na candidatura de Flávio e já chutou a canela de mais da metade dos brasileiros — o que atende sua pregação messiânica radical, mas não ajuda em nada seu alegado candidato. Com tantas notícias ruins nos últimos dias, Lula ao menos teve uma ajuda involuntária de seu ex-aliado.