
Leonardo Luz: ''A nova economia da guerra''
Como drones, inteligência artificial e sistemas autônomos estão redefinindo o poder global, a indústria e os investimentos do século XXI
A ordem geopolítica global atravessa uma mutação silenciosa, porém estrutural. Diferentemente dos rearranjos do século XX — marcados por tratados, blocos militares formais e pela dissuasão nuclear —, o redesenho contemporâneo está associado a uma descentralização e multipolarização do poder, que parece ser catalisado pela transformação do próprio método de combate predominante na guerra moderna. Desde o início da guerra na Ucrânia, há quatro anos, tornou-se evidente que a superioridade militar deixou de ser função direta de efetivos humanos, artilharia pesada e controle aéreo convencional, passando a depender, de forma crescente, de dados, algoritmos, sensores e sistemas autônomos. O campo de batalha contemporâneo converteu-se em um ambiente computacional. E, como toda revolução tecnológica, essa mudança não se limita à esfera militar, reorganizando cadeias produtivas, redefinindo estruturas econômicas e criando oportunidades de investimento em escala global.
Ao longo da história, toda grande inflexão tecnológica no combate humano produziu não apenas novas táticas militares, mas também profundas transformações nos modos de produção e na organização econômica. Na Antiguidade, a difusão do bronze e, posteriormente, do ferro revolucionou a guerra ao permitir a padronização de armas, impulsionando a mineração, a metalurgia e cadeias artesanais permanentes, favorecendo a formação de Estados centralizados capazes de explorar ganhos de escala produtiva. No Ocidente medieval, a incorporação da cavalaria pesada — viabilizada por inovações como o estribo, a sela alta e a ferradura — exigiu grande disponibilidade de terras, cavalos, ferreiros e armadores, consolidando o que vulgarmente se denomina feudalismo: um sistema econômico fortemente lastreado na sustentação de uma classe combatente profissional, treinada para operar segundo as exigências impostas pelas novas técnicas de guerra.
Em contraste, no Oriente e nas estepes da Eurásia, os arqueiros montados, em especial entre povos nômades como os mongóis, combinaram mobilidade extrema, logística leve e produção descentralizada de armas compostas. Esse modelo de combate altamente eficiente favoreceu rotas comerciais, acelerou a circulação de conhecimento e viabilizou a integração política de vastos territórios. Já a introdução das armas de fogo, na transição para a modernidade, deslocou o centro do poder militar para aqueles que dominavam a pólvora, a fundição e a manufatura em escala, enfraquecendo a nobreza cavaleiresca e abrindo caminho para os Estados nacionais, dotados de exércitos permanentes, burocracias fiscais e formas embrionárias de produção industrial.
Esse processo atingiu seu ápice nas Primeira e Segunda Guerras Mundiais, quando a guerra industrial — baseada em aço, petróleo, eletricidade, motores, química pesada e produção em massa — reorganizou economias inteiras, consolidou o complexo industrial-militar e afirmou o Estado como planejador central da produção. A posterior introdução de armas de destruição em massa, especialmente as nucleares, deslocou o foco estratégico para a dissuasão, reduzindo o confronto direto entre grandes potências. No período pós-Guerra Fria, conflitos como a Guerra do Golfo e as intervenções americanas no Afeganistão e no Iraque marcaram a transição para a guerra de precisão, sustentada por satélites, sensores, redes digitais e cadeias globais de suprimentos tecnológicos — um estágio intermediário que antecipou o cenário atual.
O grande marco da reconfiguração contemporânea é a guerra na Ucrânia, iniciada em 2022. O conflito revelou de forma inequívoca que drones de baixo custo, quando integrados a softwares de inteligência artificial, podem neutralizar ativos militares avaliados em centenas de milhões de dólares. Tanques, sistemas de artilharia, centros logísticos e até defesas antiaéreas passaram a ser alvos recorrentes de plataformas não tripuladas guiadas por visão computacional, aprendizado de máquina e comunicação em tempo real. A guerra deixou de ser apenas industrial; tornou-se, fundamentalmente, algorítmica.
Esse deslocamento metodológico não se restringe ao campo militar. Ele altera profundamente a geopolítica ao reduzir barreiras de entrada ao poder bélico, ampliar a assimetria entre custo e dano e acelerar a corrida tecnológica entre Estados. Países capazes de dominar a aplicação de inteligência artificial à guerra passam a exercer influência estratégica desproporcional à sua magnitude econômica, enquanto empresas fornecedoras dessas tecnologias convertem-se em atores centrais da política internacional.
Estudos recentes indicam que, em determinadas fases do conflito ucraniano, mais de 70% das perdas materiais russas decorreram de ataques com drones, muitos deles operando com apoio de algoritmos de reconhecimento de padrões. Paralelamente, a Ucrânia construiu uma base industrial doméstica capaz de produzir milhões de drones por ano, integrando startups, universidades e o próprio Estado em um ecossistema de inovação orientado para a guerra. Trata-se de um modelo novo, no qual o país assumiu o papel de laboratório de transição: produção descentralizada, ciclos rápidos de iteração e integração direta entre software e combate real.
Esse modelo foi rapidamente assimilado pelas grandes potências. Os Estados Unidos aceleraram programas de autonomia letal, sistemas de comando baseados em inteligência artificial e plataformas de guerra em enxame. A China seguiu trajetória semelhante, integrando drones, satélites e IA à sua doutrina de “guerra informatizada”. A Europa, pressionada por um conflito em seu entorno imediato, reverteu décadas de subinvestimento militar e corre para reduzir sua dependência estratégica em relação aos Estados Unidos.
Mas não apenas grandes economias se adaptaram a esses novos parâmetros. A experiência recente do Irã ilustra uma dimensão central da transformação em curso: o uso massivo de drones relativamente baratos permitiu ao país exercer controle eficaz sobre áreas sensíveis, como o Estreito de Ormuz, impondo custos elevados a sistemas de defesa muito mais caros e sofisticados. Esse aparente paradoxo — tecnologias simples desafiando sistemas avançados — não invalida o movimento em direção à alta tecnologia; ao contrário, explica-o. Quanto mais eficazes se mostram soluções assimétricas de baixo custo, maior se torna o incentivo para o desenvolvimento de camadas superiores de tecnologia, capazes de integrar autonomia, coordenação em rede, contramedidas e tomada de decisão algorítmica em larga escala.
O resultado é um cenário paradoxal apenas à primeira vista: os gastos globais em defesa já ultrapassam US$ 2,6 trilhões por ano para responder, muitas vezes, às ameaças baseadas em drones que custam algumas centenas de dólares por unidade. A resposta estratégica não é simplesmente multiplicar meios tradicionais, mas investir em software militar, inteligência artificial e sistemas não tripulados de alta autonomia — segmentos cujos investimentos crescem a taxas de dois dígitos. Não se trata de um ciclo conjuntural, e sim de uma mudança estrutural na forma como os Estados projetam poder.
Essa transformação abriu espaço para um novo tipo de protagonismo corporativo. Ao lado dos conglomerados militares tradicionais, emergiram empresas de defesa fortemente baseadas em incorporação tecnológica, muitas delas oriundas do ecossistema civil de inovação. Fornecedores de drones, plataformas autônomas e sistemas de decisão baseados em IA passaram a ocupar posição central nos orçamentos militares. Startups especializadas em autonomia, análise de dados e integração de sensores transformaram-se em ativos estratégicos, frequentemente mais valorizados por sua capacidade de escalar software do que por sua capacidade industrial tradicional.
Não faltam exemplos de empresas que reconfiguraram suas operações na direção da incorporação de modelos de IA a sistemas de defesa, em especial aeromodelos, e vêm operando em velocidade de cruzeiro. A AeroVironment, fornecedora histórica de drones táticos para o Exército americano, assinou contratos de quase US$ 900 milhões apenas nos últimos ciclos orçamentários, expandindo sua atuação para sistemas com maior autonomia e integração de IA embarcada. Seu portfólio passou de plataformas de reconhecimento para soluções completas de ataque, vigilância e guerra eletrônica. A Shield AI, especializada em aeronaves autônomas capazes de operar sem GPS ou comunicação constante, já produz sistemas utilizados por forças especiais dos Estados Unidos e aliados da OTAN, além de exportar modelos de IA treinados em ambientes reais de combate, algo que se tornou um ativo estratégico por si só. Analogamente, a AEVEX Aerospace tem se destacado ao fornecer drones e plataformas de inteligência para operações sensíveis, muitas delas ligadas diretamente ao apoio à Ucrânia. Seu recente IPO refletiu uma mudança clara no apetite do mercado, que passou a precificar empresas de defesa tecnológica mais como empresas de software em escala do que como indústrias tradicionais. Até mesmo na tecnologicamente decadente Europa já se observa o mesmo movimento em curso, no qual a startup Helsing tornou-se símbolo do esforço continental para reduzir a dependência tecnológica externa, com seu software de fusão de sensores e apoio à decisão já sendo integrado a sistemas terrestres e aéreos dos países-membros da União Europeia.
O movimento mais revelador desse novo modelo, contudo, é a entrada direta das big techs no núcleo da indústria de defesa. Plataformas capazes de transformar volumes massivos de dados de campo em decisões operacionais quase instantâneas se tornaram decisivas. A Palantir, por exemplo, fornece plataformas de análise de dados e tomada de decisão usadas ativamente em conflitos, incluindo a Ucrânia. Seu valor estratégico reside na capacidade de converter volumes massivos de dados de campo em decisões operacionais de forma quase instantânea. Já a Anduril representa a síntese da nova indústria bélica: torres autônomas, drones, sensores e sistemas de vigilância integrados por inteligência artificial, com contratos crescentes com o governo dos Estados Unidos e aliados. Seu crescimento acelerado demonstra que a defesa do século XXI se parece cada vez mais com o Vale do Silício. Em resposta, gigantes tradicionais da indústria militar, como Lockheed Martin, RTX e Northrop Grumman, estão reposicionando seus portfólios para incorporar IA, autonomia e guerra em rede, sob risco de obsolescência estratégica.
Do ponto de vista econômico, a implicação é clara: a indústria de defesa converteu-se em um dos principais vetores de inovação tecnológica global. Investimentos em semicondutores, computação acelerada, data centers, sensores e telecomunicações avançadas são impulsionados diretamente pela demanda militar. Países que conseguirem internalizar essas cadeias produtivas ampliarão não apenas sua segurança, mas também sua competitividade econômica. Para investidores, abre-se um ciclo estrutural distinto dos tradicionais ciclos de commodities ou infraestrutura, baseado em um mercado sustentado por orçamentos públicos, altas barreiras à entrada, contratos de longo prazo e crescente integração com tecnologias civis — combinação rara, geradora de assimetrias significativas e potenciais retornos extraordinários do capital.
A guerra na Ucrânia, assim, não foi apenas mais um conflito regional, mas o evento fundador de uma nova gramática do poder internacional. Drones, inteligência artificial e sistemas autônomos deixaram de ser complementos e passaram a constituir o núcleo da guerra moderna. A geopolítica, em resposta, vem sendo redesenhada em linhas de código, modelos de aprendizado de máquina e capacidade industrial de alta tecnologia. Nesse novo contexto, soberania já não se define primordialmente por território ou população, mas pela capacidade de produzir, treinar e escalar inteligência artificial aplicada à defesa. E a prosperidade econômica, gostemos ou não, passa pela inserção estratégica nessa nova economia da guerra.