
Foto: José Cruz/Agência Brasil
Os motoristas que abastecem com etanol estão encontrando preços mais baixos nos postos de Belo Horizonte e região. Em apenas um mês, o biocombustível registrou uma queda de 11,7%, passando de R$ 4,70 para R$ 4,15 o litro, de acordo com o site de pesquisa Mercado Mineiro, que consultou 198 estabelecimentos. Com uma safra recorde de cana-de-açúcar projetada para Minas Gerais, produtores acreditam que a redução pode ser ainda mais expressiva nos próximos meses, embora a instabilidade no setor de combustíveis represente um desafio para a sustentação dessa queda.
A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que a safra de cana-de-açúcar do ciclo 2026/2027 será 7,1% maior do que a anterior, atingindo 82,6 milhões de toneladas. O aumento da oferta tem pressionado para baixo o preço do etanol no mercado. A Associação das Indústrias Sucroenergéticas de Minas Gerais (Siamig Bioenergia) calcula uma redução de R$ 0,66 por litro para o produtor desde o início da safra, em 1º de abril, representando uma queda de 23% no valor do combustível. Ainda que o preço do etanol também tenha recuado nos postos, a diminuição ainda não alcançou esse patamar. "Estamos observando o repasse da queda de preço do produto nos postos. O fato é que ela demorou muito a chegar e falta bastante coisa para o mercado repassar", pondera o presidente da Siamig Bioenergia, Mário Campos.
Em Belo Horizonte, o preço médio do etanol corresponde a 68,5% do valor da gasolina, o que confere ao biocombustível vantagem competitiva, segundo o administrador do Mercado Mineiro, Feliciano Abreu. "Pelo cálculo do quilômetro rodado, hoje com a gasolina você gasta em torno de 11,5 km por litro, com o preço médio de R$ 6,06. O preço por quilômetro rodado é R$ 0,53. Agora, com o etanol, gastando em torno de 8,5 km por litro, com o preço médio de R$ 4,15, você gasta R$ 0,49 por quilômetro rodado. Portanto, é mais um cálculo que mostra que o etanol está sendo viável para o bolso do consumidor", afirma ele.
O próprio etanol contribui para explicar a redução observada no preço da gasolina no último mês, já que a concentração de etanol anidro na mistura vendida nos postos aumentou para 30% desde 2025. O preço da gasolina caiu de R$ 6,38 para R$ 6,06 no período, uma redução de 4,9% na capital e região. A gasolina pode ser beneficiada por uma nova medida provisória (MP) assinada pelo governo federal neste mês. Publicada no dia 13, a MP 1.358/2026 prevê a devolução de parte do valor dos impostos às refinarias e importadores do combustível, em meio à pressão global sobre o preço do petróleo causada pela guerra no Oriente Médio.
Na coletiva de imprensa em que anunciou a medida, o ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, avaliou que ela deve representar de R$ 0,40 a R$ 0,45 de tributo a menos por litro de combustível. Isso não significa necessariamente uma redução de preço para o consumidor, pois na última semana a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, afirmou que "vai acontecer já, já um aumento de preço da gasolina", referindo-se à instabilidade gerada no mercado de energia pela guerra no Oriente Médio.
Para o presidente da Siamig Bioenergia, a MP beneficia a gasolina em detrimento do etanol, o que, na visão dele, fere a Constituição, que garante tributação menor para os biocombustíveis em relação aos combustíveis fósseis. "Na nossa visão jurídica, isso seria inconstitucional, porque para reduzir a tributação da gasolina teria que reduzir a do etanol", argumenta Mário Campos.
O diretor comercial da Valencio Pricing, Murilo Barco, reforça a posição: "Pela nossa Constituição, o biocombustível precisa ter condições de impostos mais competitivas do que o combustível fóssil. Isso [a MP] possivelmente precisará ser revisto ou incluir algo para o etanol". Já o sócio da Raion Consultoria, Eduardo Melo, avalia que a MP não representa uma ameaça à competitividade do etanol. "Se fosse uma medida para artificialmente reduzir os preços da gasolina A, aí poderia ser. O que estamos vendo no mercado é um cenário amplamente voltado para a valorização do petróleo e seus derivados. Não existe uma mudança que poderia mudar o patamar de preços da gasolina e dos outros combustíveis de maneira permanente. O que estamos vendo é um evento geopolítico que está fazendo pressão no combustível fóssil. O que o governo está tentando fazer é evitar repassar essa volatilidade ao mercado".