
Profissionais da saúde ajustam equipamentos antes de entrar em local com suspeita de ebola na República Democrática do Congo
A República Democrática do Congo (RDC) enfrenta uma nova epidemia de ebola causada pela variante Bundibugyo, contra a qual nenhuma das vacinas disponíveis oferece proteção. A situação preocupa autoridades sanitárias de todo o mundo, especialmente após a confirmação de uma morte na vizinha Uganda, indicando que o vírus já ultrapassou as fronteiras congolesas.
Segundo balanço divulgado no sábado (16) pela agência sanitária da União Africana, o Africa CDC, foram registradas 88 mortes provavelmente causadas pelo vírus, entre 336 casos suspeitos. Como o foco da epidemia está localizado em uma zona de difícil acesso, poucos testes laboratoriais puderam ser realizados, e os números se baseiam majoritariamente em casos suspeitos.
A RDC já havia enfrentado uma epidemia de ebola entre agosto e dezembro de 2025, com ao menos 34 mortos. A epidemia mais letal no país deixou cerca de 2.300 mortos entre 3.500 infectados, no período de 2018 a 2020. O vírus, que provoca uma febre hemorrágica extremamente contagiosa, causou mais de 15 mil mortes na África ao longo dos últimos 50 anos. Em surtos anteriores, a taxa de mortalidade variou entre 25% e 90%, segundo a OMS.
A variante sem vacina
A variante Bundibugyo só provocou duas epidemias no mundo até hoje: em Uganda, em 2007, com 42 mortes em 131 casos confirmados, e na RDC, em 2012, com 13 mortes em 38 casos confirmados. O ministro da Saúde congolês, Samuel-Roger Kamba, destacou no sábado que "a variante Bundibugyo não tem vacina e não tem tratamento específico", acrescentando que "com essa variante, a taxa de letalidade é muito alta, podendo chegar a 50%".
O ebola continua sendo temido apesar de vacinas e tratamentos recentes, que são eficazes apenas contra a variante Zaïre, responsável pelas maiores epidemias já registradas. Jean Kaseya, diretor do Africa CDC, resumiu a situação ao afirmar que "não dispomos de vacina, o que significa que dependemos essencialmente de medidas de saúde pública", como o respeito às medidas de prevenção e a limitação de deslocamentos.
O foco da epidemia está localizado em Ituri, província do nordeste congolês, na fronteira com Uganda e Sudão do Sul. Essa região aurífera registra intensos movimentos populacionais ligados à mineração. Além disso, o acesso a certas áreas da província é dificultado pela violência de grupos armados.
Na sexta-feira de manhã, o Africa CDC declarou que uma nova epidemia estava em curso na RDC, alertando para um "alto risco de propagação" do vírus. À noite, o Ministério da Saúde de Uganda informou a morte de um cidadão congolês na quinta-feira em Kampala, embora nenhum "caso local" tenha sido registrado até o momento.
Isaac Nyakulinda, representante da sociedade civil de Rwampara, relatou em entrevista por telefone à AFP: "Estamos vendo pessoas morrerem há duas semanas". Ele acrescentou que "não há lugar para isolar os doentes. Eles morrem em casa e seus corpos são manipulados pelos familiares", dizendo temer o pior.
O primeiro caso suspeito é um enfermeiro que procurou atendimento em 24 de abril em uma unidade de saúde de Bunia, capital de Ituri, com sintomas compatíveis com infecção por ebola, como febre, hemorragias e vômitos. Vários casos suspeitos foram registrados desde então em Bunia, cuja população é estimada em 300 mil habitantes. As zonas de saúde de Mongbwalu e Rwampara, cada uma com cerca de 150 mil habitantes, são, por enquanto, as mais afetadas.
A agência da União Africana estima que o risco de propagação para os países da África Oriental vizinhos da RDC é "elevado" e que "a real dimensão desta epidemia" ainda não é conhecida. Se os casos suspeitos forem confirmados, esta epidemia "ficaria em 7º lugar entre as maiores epidemias" de todas as variantes combinadas, e em 2º lugar entre as maiores epidemias de ebola não-Zaïre, segundo declarações da Dra. Anne Cori, especialista em modelagem de doenças infecciosas do Imperial College London, ao Science Media Center britânico.
Trish Newport, da ONG Médicos Sem Fronteiras, presente em Ituri, alertou: "O número de casos e de mortes que observamos em tão pouco tempo, combinado com a propagação em várias zonas de saúde e agora além da fronteira, é extremamente preocupante".
A OMS informou que prepara o envio aéreo, a partir de Kinshasa, de cinco toneladas de material. Na RDC, o transporte de medicamentos e equipamentos é frequentemente um desafio, em um território quatro vezes maior que a França, com vias de comunicação limitadas e em mau estado.
Esta é a 17ª epidemia registrada na RDC desde que a doença foi identificada em 1976 no então Zaire. A transmissão humana do vírus ocorre por fluidos corporais ou exposição ao sangue de uma pessoa infectada, viva ou morta, sendo que as pessoas infectadas só se tornam contagiosas após o aparecimento dos sintomas, com período de incubação de até 21 dias.