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O filme brasileiro "O Agente Secreto" estreou nos cinemas da China este mês, marcando um importante passo nas relações culturais entre Brasil e China. Esta exibição faz parte de um acordo de promoção cultural assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o líder chinês Xi Jinping durante a visita oficial à Brasília em novembro de 2024. A chegada do longa-metragem às salas chinesas representa uma das primeiras iniciativas do Ano Cultural Brasil-China, programado para ocorrer ao longo de 2026. Segundo a declaração conjunta assinada pelos líderes, o objetivo é "fortalecer os laços culturais e aprofundar o entendimento mútuo entre os dois povos".
"O Agente Secreto", estrelado por Wagner Moura e dirigido por Kleber Mendonça Filho, conquistou significativa projeção internacional. O filme recebeu importantes reconhecimentos, incluindo os prêmios de Melhor Diretor e Melhor Ator no Festival de Cannes. Além disso, a obra foi premiada como melhor ator e melhor filme de língua não inglesa no Globo de Ouro, e recebeu indicações ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Ator e Melhor Elenco.
Vale ressaltar que esta não é a primeira vez que uma produção brasileira chega ao mercado chinês. No ano passado, "Ainda Estou Aqui", vencedor do Oscar de melhor filme internacional, também foi exibido nos cinemas da China.
O acordo cultural entre Brasil e China prevê um amplo intercâmbio artístico em diversas áreas. Estão incluídas as artes cênicas, música clássica e popular, artes visuais e produções audiovisuais. Também fazem parte do programa ações de promoção ao turismo e formação profissional.
Entre os artistas brasileiros confirmados para participar das atividades estão o pianista Cristian Budu e a cantora Luedji Luna. Outro destaque será o lançamento da tradução de "O Povo Brasileiro", obra clássica do antropólogo Darcy Ribeiro.
A exibição de "O Agente Secreto" na China representa um feito significativo, considerando o rigoroso sistema de distribuição de filmes estrangeiros no país. Em 2026, o longa brasileiro será um dos poucos títulos internacionais a alcançar as mais de 80 mil salas de cinema disponíveis no território chinês.
Para contextualizar a dimensão dessa conquista, dados da think tank chinesa Top Century Cultural Consultation revelam que em 2024 foram exibidos apenas 92 filmes estrangeiros no país, sendo 36 americanos, 22 japoneses e 34 de outras nacionalidades. Em contraste, as produções nacionais chinesas somaram 405 lançamentos no mesmo período.
O processo de aprovação para exibição de filmes na China é extremamente rigoroso. As produções passam por uma análise detalhada que verifica se não abordam temas proibidos pela legislação local, como conteúdos que possam prejudicar a segurança nacional, distorcer a história chinesa ou promover comportamentos considerados imorais pelas autoridades. Também são avaliados aspectos relacionados à discriminação étnica, extremismo religioso, violência e uso de substâncias ilícitas.
Este mecanismo funciona como uma forma de censura prévia, onde todo o conteúdo precisa ser aprovado antes de ser distribuído e exibido no país. Em alguns casos, trechos específicos dos filmes são alterados para se adequarem às determinações chinesas. Um exemplo dessa prática ocorreu no ano passado, quando um filme australiano que continha uma cena de casamento entre dois homens foi modificado digitalmente, transformando um dos personagens em mulher e, assim, convertendo a união em um relacionamento heterossexual.
A estreia de "O Agente Secreto" nos cinemas chineses representa não apenas um reconhecimento da qualidade do cinema brasileiro, mas também um importante avanço nas relações culturais entre Brasil e China, abrindo caminho para futuras colaborações artísticas entre os dois países.