
Daniel Vorcaro - Foto: Ruben Cavalieri/Folhapress
Relatórios, documentos vazados e movimentações atípicas revelam um rastro de dinheiro que envolve mídia, futebol e uma investigação bilionária ainda em andamento
Um relatório que circula nos bastidores de Brasília acendeu o alerta: quase R$ 10 milhões pagos, movimentações consideradas atípicas e uma rede de transferências que levanta mais perguntas do que respostas.
No centro desse cenário está o jornalista Leo Dias. Segundo dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), o Banco Master realizou seis pagamentos à empresa dele, somando R$ 9,9 milhões entre fevereiro de 2024 e maio de 2025.
A explicação existe — e, em tese, é legal. Leo Dias afirma que os valores fazem parte de um contrato publicitário com o Will Bank, marca ligada ao grupo Master. O problema é o que vem depois: o Coaf identificou movimentações consideradas incompatíveis com a capacidade financeira declarada da empresa, além de saques ou transferências quase imediatas após o recebimento dos valores.
Mas esse não é o único ponto que chama atenção.
Outro fluxo financeiro entrou no radar: R$ 2 milhões pagos ao jornalista por uma empresa chamada LD Produções. O detalhe é que o dono dessa empresa tem ligação direta com pessoas próximas ao núcleo do banco investigado. E mais: dos R$ 3,7 milhões movimentados pela LD, cerca de 90% vieram do próprio Banco Master.
Na sequência, parte desse dinheiro ainda foi repassada para outra empresa ligada ao mesmo grupo de empresários, ampliando o circuito financeiro que agora está sob análise.
Registros de 2023 mostram ainda Leo Dias em uma reunião dentro de uma gestora ligada a familiares de envolvidos no caso. À época, ele afirmou que se tratava de uma negociação comercial envolvendo patrocínio. Agora, o contexto mudou.
Apesar de não haver, até o momento, confirmação de ilegalidade por parte do jornalista, o que se desenha é um padrão mais amplo: o Banco Master distribuiu dezenas de milhões de reais para veículos de mídia e contratos de publicidade justamente no período em que enfrentava investigações por fraudes bilionárias — e tentava manter sua reputação no mercado.
E o alcance desse dinheiro não parou por aí.
Documentos obtidos pela CPI do Crime Organizado revelam que o banco também fez repasses a grandes instituições, incluindo o futebol mineiro. A Sociedade Anônima do Futebol (SAF) do Cruzeiro aparece na lista com um valor de R$ 587 mil.
O clube nega qualquer tipo de investimento direto. Em nota, afirma que o montante é resultado de rendimentos financeiros previstos em contrato, sem relação com aporte ou parceria com o banco.
Já no caso do Atlético, a ligação é mais profunda. O empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, chegou a investir centenas de milhões na estrutura da SAF do clube, tornando-se um dos principais nomes por trás do projeto até sua prisão.
A queda foi rápida.
Vorcaro, que construiu a imagem de empresário ousado e bem-sucedido, passou a ser investigado após a Polícia Federal revelar um esquema de fraudes bilionárias envolvendo papéis sem lastro e promessas de rendimentos acima do mercado. O Banco Central acabou liquidando a instituição.
O escândalo ganhou ainda mais força quando veio à tona a tentativa de venda do banco ao BRB, barrada por riscos financeiros. Investigações indicam que bilhões de reais podem ter sido movimentados de forma irregular.
Agora, com o Coaf analisando cada transferência, cada contrato e cada ligação, o caso se expande — e atinge nomes, empresas e instituições que, até então, pareciam distantes do centro da crise.
O que ainda não está claro é até onde esse rastro de dinheiro vai chegar.