
Foto: Marcello Casal Júnior/Agência Brasil
O Horário de verão voltou a ser recomendado pelo ONS (Operador Nacional do Setor Elétrico) ao Ministério de Minas e Energia (MME), conforme confirmou Alexandre Zucarato, diretor de Planejamento do órgão, à Agência iNFRA. Contudo, ele ressalta que "essa é uma decisão do governo porque impacta transversalmente outros setores". A possível retomada da medida é uma das ações estudadas para garantir o atendimento à demanda de energia em horários de pico neste ano. Nos últimos dois anos, a necessidade de adoção do Horário de verão já foi analisada, mas não foi implementada. Segundo fontes do setor, o que era uma questão técnica transformou-se em decisão política.
Para 2026, especialistas avaliam que o fator eleitoral terá peso significativo na decisão final. Luiz Carlos Ciocchi, ex-diretor-geral do ONS e atual consultor, explica que apesar dos benefícios para o setor elétrico, a medida possui impactos diversos na economia: "O Horário de verão tem prós e contras, não só no sistema elétrico, mas para negócios e toda a economia do país.
Ajuda alguns setores, como turismo, por exemplo, mas para outros setores como transportes e aviação complica". O tema também aparece em um parecer técnico do Tribunal de Contas da União (TCU), publicado em 9 de maio, que sugere diligências junto ao MME sobre alternativas ao Leilão de Reserva de Capacidade na forma de Potência (LRCAP) de 2026. Entre as opções consideradas está justamente a implementação do Horário de verão naquele ano.
Nova função para o Horário de verão
O objetivo do Horário de verão mudou significativamente com a transformação da matriz elétrica brasileira. Quando começou a ser adotado anualmente a partir de 1985, a finalidade principal era economizar energia ao aproveitar melhor a luz natural. A medida foi descontinuada em 2019.
Atualmente, a possível retomada teria função diferente: deslocar o pico de consumo para horários em que ainda há geração solar disponível. Em estudo publicado em 2024, o ONS afirmou que o Horário de verão poderia aumentar o aproveitamento das fontes solar e eólica, além de reduzir a carga máxima em até 2,9%.
Desafios para 2026
Alexandre Zucarato alerta que a transição do período úmido para o seco em 2026 poderá representar um desafio técnico significativo para o ONS, dependendo do volume de chuvas. Durante o Fórum de Líderes de Energia realizado no Rio de Janeiro em 10 de maio, o diretor explicou: "De outubro a dezembro a carga começa a subir naturalmente, principalmente a carga de ponta. Se o período chuvoso atrasa, você tem onda de calor e essa ponta fica mais alta ainda. Só que sem chuva você tem menos potência hidráulica disponível".
Segundo ele, há similaridade no abastecimento dos reservatórios ao comparar 2025 e 2026, mas a carga no horário de pico cresceu cerca de 3 GW (gigawatts) neste ano, tornando o atendimento "um pouco mais complexo".
Conjunto de medidas em estudo
Além da avaliação sobre o Horário de verão, há outras ações sendo estudadas pelos órgãos do setor elétrico sob coordenação do MME. A Agenda Eletroenergética de 2026 contempla 27 medidas possíveis para atendimento da demanda, com foco no período seco. Entre as alternativas consideradas estão a antecipação dos contratos do LRCAP, cujas diretrizes foram colocadas em consulta pública pelo MME em janeiro; a ampliação da contribuição de potência da UHE Belo Monte no período seco, utilizando o reservatório intermediário; reduções de vazão mínima na bacia do rio Paraná; prorrogação da regra que permite oferta flexível de termelétricas; e o incentivo à adesão à resposta da demanda por grandes consumidores, incluindo o desenvolvimento de novo produto.
Todas essas medidas mapeadas estão sendo estudadas e poderão ser implementadas pelo Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) e pelo MME ao longo do ano, conforme evoluam os cenários de atendimento ao Sistema Interligado Nacional.