
Foto: José Cruz/Agência Brasil
O FMI (Fundo Monetário Internacional) revisou suas projeções econômicas globais para baixo, alertando sobre os riscos da guerra no Oriente Médio, enquanto elevou sua previsão para o Brasil. No relatório Panorama Econômico Mundial, o Fundo reduziu a estimativa de crescimento global para 2026 de 3,3% para 3,1%, mas aumentou a projeção brasileira, prevendo uma expansão de 1,9% neste ano - acima da estimativa anterior.
O conflito no Oriente Médio representa um choque geopolítico com impacto direto sobre energia e cadeias de suprimento, diferentemente do cenário do ano passado, quando o principal risco vinha da escalada de tensões comerciais, especialmente relacionadas às tarifas dos Estados Unidos. O ponto central da análise do FMI é o impacto direto do conflito sobre os preços internacionais. A guerra no Oriente Médio, região crucial para a produção e transporte de petróleo, tende a provocar interrupções na oferta e aumentar a incerteza nos mercados.
No cenário-base do Fundo, os preços de energia devem subir significativamente. O petróleo é projetado para registrar alta expressiva em 2026, refletindo as dificuldades de produção e transporte na região afetada pelo conflito.
Este choque de preços se espalha pela economia global. Energia mais cara encarece transporte, produção industrial e alimentos, especialmente em países dependentes de importações. Por isso, o FMI destaca que economias importadoras de commodities tendem a ser as mais prejudicadas. É nesse contexto que o Brasil aparece em posição diferenciada.
O FMI considera o país um exportador líquido de energia, o que significa que, quando os preços internacionais sobem, o Brasil tende a receber mais receitas com exportações. Esse efeito melhora os "termos de troca" (relação entre preços de exportação e importação), podendo impulsionar o crescimento econômico. O próprio relatório resume esse mecanismo ao afirmar que a guerra deve ter "um pequeno efeito líquido positivo" sobre o Brasil em 2026, elevando o crescimento em cerca de 0,2 ponto percentual.
Esse tipo de impacto não é exclusivo do Brasil - o FMI indica que, de forma geral, economias exportadoras de energia ou commodities podem ter revisões positivas ou neutras de crescimento. Apesar desse efeito positivo inicial, o FMI enfatiza que o benefício é modesto e tende a se dissipar rapidamente. Isso ocorre porque os impactos negativos da guerra sobre a economia global acabam se espalhando. Com o tempo, a desaceleração do crescimento mundial reduz a demanda por exportações brasileiras, enquanto o aumento de custos de insumos pressiona a produção doméstica. O relatório aponta ainda que condições financeiras mais restritivas, com juros mais altos no mundo, podem limitar investimentos e consumo.
Por isso, o efeito positivo observado em 2026 tende a ser revertido. Segundo o FMI, em 2027 esses fatores devem prevalecer, levando a uma redução do crescimento brasileiro em relação às projeções anteriores. O pano de fundo dessa dinâmica é um cenário global mais incerto e frágil. Em cenários mais adversos, com conflito prolongado e preços de petróleo acima de US$ 100 por barril, o impacto pode ser significativamente mais severo.
O Fundo projeta que o crescimento global poderia cair para até 2,5% - ou mesmo próximo de 2% em um cenário extremo, o que historicamente se aproxima de uma recessão global. A análise do FMI deixa claro que o impacto da guerra não é uniforme. Ele depende principalmente de três fatores: se o país é exportador ou importador de energia, qual o grau de exposição a choques externos e a capacidade de resposta econômica.
No caso brasileiro, a combinação de exportações de commodities, reservas internacionais robustas e menor dependência de dívida externa em moeda estrangeira ajuda a amortecer o impacto inicial do choque. Contudo, o próprio Fundo ressalta que essas condições não eliminam os riscos - apenas os tornam mais administráveis no curto prazo, enquanto os efeitos negativos globais podem prevalecer no médio prazo.