Com juros elevados e baixa expansão produtiva, crescimento da dívida pressiona inflação, renda e capacidade de consumo, ampliando distorções no sistema ...

Said Santana: ”Dívida de R$ 10 trilhões expõe desequilíbrio estrutural da economia brasileira”
Com juros elevados e baixa expansão produtiva, crescimento da dívida pressiona inflação, renda e capacidade de consumo, ampliando distorções no sistema econômico do país
O Brasil deve 10 trilhões de reais. Isso não é uma brincadeira qualquer. O Governo não tem dinheiro para manter as ruas limpas e a saúde em dia. E o povo não tem condições de encher o tanque de gasolina.
Com uma taxa de juros na casa de 14,75% ao ano, a dinâmica da dívida pública brasileira se torna particularmente sensível. Em termos simplificados, isso significa que o custo de carregar um estoque de aproximadamente 10 trilhões de reais cresce de forma acelerada, pressionando ainda mais o resultado fiscal.
A pergunta relevante, no entanto, não é apenas financeira, mas econômica: haverá, no próximo ano, um aumento equivalente na capacidade produtiva do país? Haverá mais bens, mais serviços, mais renda real sendo gerada?
Ou, em termos mais diretos: será que haverá 1,5 trilhão de reais a mais em produtos nas prateleiras dos supermercados somente para acompanhar os juros da dívida?
A resposta, evidentemente, é não.
E é exatamente nesse descompasso que reside o problema central. Quando o crescimento da dívida supera de forma consistente a expansão da economia real, o resultado inevitável é a elevação do prêmio de risco, pressão inflacionária e perda de poder de compra da moeda.
Neste contexto, quando utilizamos a abordagem pós-keynesiana, que sustenta que a dívida pública e o gasto público, por si só, não constituem o problema central, o foco da análise se desloca para a capacidade produtiva da economia. O desequilíbrio passa a emergir justamente quando essa capacidade é limitada ou insuficiente. Em outras palavras, o problema não está apenas no aumento do gasto, mas na incapacidade da economia real de responder a esse estímulo. Quando os produtores não conseguem expandir a oferta de bens e serviços, isto é, quando não conseguem abastecer as prateleiras dos supermercados, o resultado inevitável é pressão inflacionária e deterioração do poder de compra.
E, ainda dentro da abordagem pós-keynesiana, em se tratando de um cenário de predominância fiscal, a situação se torna ainda mais delicada. Nesse contexto, a política monetária perde parte de sua autonomia, passando a operar condicionada à necessidade de financiamento do setor público. A elevação dos juros, que em tese deveria conter a inflação, passa a ter efeito ambíguo: ao mesmo tempo em que tenta restringir a demanda, aumenta o custo da dívida e amplia o desequilíbrio fiscal. O resultado é um círculo vicioso, no qual o esforço de estabilização monetária acaba, paradoxalmente, agravando a própria instabilidade macroeconômica.
Por isso, a inflação se configura como uma verdadeira maldição econômica. Ela não apenas corrói o poder de compra da população, mas desorganiza o sistema de preços, distorce decisões de investimento e penaliza, de forma desproporcional, aqueles que possuem menor capacidade de proteção financeira. Em um ambiente de fragilidade fiscal e restrição produtiva, a inflação deixa de ser um fenômeno pontual e passa a refletir um desequilíbrio estrutural da economia, sinalizando que o crescimento nominal não está sendo acompanhado por uma expansão equivalente da capacidade real de produção.
Não há consistência econômica em um ambiente no qual o salário formal de um trabalhador é de 2 mil reais na carteira, enquanto o custo total para a empresa se aproxima de 4 mil reais, e o trabalhador efetivamente recebe pouco mais de 1.500 reais líquidos. E, ainda assim, sobre essa renda já comprimida do trabalhador, incide uma nova camada de tributação indireta na gasolina, na energia elétrica, e direta no IPTU, no IPVA e praticamente em tudo o que consome. O resultado é uma compressão generalizada da renda disponível, que ajuda a explicar por que o Brasil ocupa posições inferiores no ranking global de renda, com dezenas de países à frente em termos de poder de compra. O Brasil é rico, porém o brasileiro é pobre. Essa distorção evidencia um sistema que onera excessivamente a produção e, ao mesmo tempo, entrega baixa renda líquida ao trabalhador. O efeito é um desincentivo simultâneo ao emprego formal, ao investimento produtivo e à geração de valor. No limite, o próprio arranjo institucional passa a expulsar agentes geradores de crescimento da economia formal, convertendo-os, progressivamente, em dependentes de mecanismos de transferência de renda.
Como a empresa arca com um custo elevado e o trabalhador recebe uma renda líquida reduzida, cria-se uma distorção estrutural que retroalimenta a necessidade de intervenção estatal. Diante de uma população com baixa capacidade de consumo, o Estado é pressionado a expandir programas de transferência de renda e mecanismos de assistência social. No entanto, sem espaço fiscal, essa expansão tende a ser financiada por meio do aumento da carga tributária ou do endividamento. Forma-se, assim, um ciclo disfuncional: tributa-se mais para compensar os efeitos de um sistema que já tributa excessivamente a produção e o trabalho, comprimindo ainda mais a atividade econômica e dificultando a geração de renda de forma sustentável.
A conclusão é direta: o problema brasileiro não é apenas fiscal, monetário ou social de forma isolada, ele é sistêmico. A economia opera em um arranjo no qual o Estado gasta sem expandir a capacidade produtiva na mesma proporção, financia esse desequilíbrio com dívida cara e, ao fazê-lo, pressiona juros, inflação e carga tributária. O setor produtivo, por sua vez, é comprimido por custos elevados e insegurança econômica, enquanto o trabalhador recebe menos do que poderia em um ambiente mais eficiente. Romper esse ciclo exige mais do que ajustes pontuais; exige reorientar a economia para a expansão da produtividade, redução de distorções e alinhamento entre crescimento financeiro e crescimento real. Sem isso, o país continuará preso a uma dinâmica de baixo crescimento, inflação recorrente e perda contínua de bem-estar econômico.
