Said Santana: ‘A soberania da incompetência’

Said Santana: ‘A soberania da incompetência’

Enquanto o discurso prega grandeza, a prática da irresponsabilidade fiscal e do atraso educacional nos condena à dependência eterna

De defensores da democracia, agora multiplicam-se os defensores da soberania. Mas a diferença entre discurso e prática é abissal. Ser soberano não é proclamar independência ou repetir slogans de grandeza nacional; é assumir responsabilidades, garantir autossustento, proteger instituições e agir com coerência política e econômica. A verdadeira soberania não se conquista na retórica, mas com preparo, estabilidade interna e respeito às bases que sustentam o Estado.

Parece piada ouvir um governante falar em soberania quando não consegue sequer manter o caixa do Estado no positivo. Falta competência até para equilibrar as contas mais básicas, enquanto a prática recorrente é gastar cada vez mais e empurrar a fatura para o futuro, aumentando sem limites a dívida pública. Essa incapacidade administrativa mina a confiança, fragiliza a economia e transforma o país em refém de credores e de remendos improvisados. Não há como sustentar um discurso de soberania quando não se consegue gerir as próprias finanças com responsabilidade. É tipo aquele parente que vive te pedindo emprestado querer escolher o cardápio do almoço de domingo em família.

Enquanto crianças de países realmente soberanos, já aos 7 ou 8 anos, aprendem noções de inflação, câmbio, responsabilidade financeira e fiscal, além do valor dos estudos para a vida comunitária, em nações que apenas se autoproclamam soberanas o cenário é outro. Nessas, em vez de preparar as novas gerações para enfrentar os desafios do mundo real, a educação se perde em superficialidades: ensina-se a rebolar ao som de letras vulgares e a idolatrar ideologias atrasadas que nada acrescentam ao progresso coletivo. É a diferença entre formar cidadãos conscientes e moldar massas manipuláveis.

Estudar exige disciplina, e é desse esforço que brotam os frutos para a sociedade e para o país. Novas tecnologias, medicamentos, equipamentos eficazes e soluções que melhoram a vida coletiva são resultado direto da educação sólida. Cada descoberta fortalece a capacidade de uma nação de se impor no cenário internacional. É assim que se constrói soberania de verdade: não em frases de efeito, mas na formação de cidadãos capazes de transformar conhecimento em progresso.

No Brasil, porém, o cenário político revela outra contradição. De um lado, uma direita que gosta de falar em inflação, câmbio, déficit fiscal e até em leis internacionais. Mas a maior parte da população não faz ideia do que esses conceitos significam. É como tentar discutir futebol com quem não sabe o que é impedimento: o debate se restringe a uma elite, enquanto o povo segue alheio, alimentado por slogans fáceis. Nesse abismo entre discurso e compreensão, perde-se a chance de construir uma soberania verdadeira, baseada em conhecimento e participação consciente.

Não existe glória na miséria, nem soberania sem estudo, sem tecnologia e sem investimentos em defesa. Uma nação que não prepara seu povo torna-se refém de potências mais preparadas e de políticos que preferem agradar o povo com palavras doces em vez de oferecer soluções duras, porém necessárias. A verdadeira soberania não se sustenta em frases prontas, mas em conhecimento, inovação e capacidade de proteção diante das pressões externas.

Casos como o da Venezuela provam de forma trágica que sentar sobre a maior reserva de petróleo do mundo não significa prosperidade. Pelo contrário: a má gestão, a corrupção e o populismo transformaram uma riqueza natural em miséria coletiva, levando a população a passar fome e a enfrentar condições degradantes. Um país que poderia ser potência mundial acabou reduzido a ver seu povo revirando latas de lixo em busca de comida, enquanto a elite do poder se mantinha intacta. Ainda mais alarmante é perceber que, mesmo diante desse fracasso evidente, há brasileiros que desejam importar e reproduzir esse modelo, como se quisessem também uma fatia desse banquete de ruína. O mais engraçado é ver essas mesmas pessoas falando de soberania.

A economia é justa, porém cruel: não perdoa a ignorância nem a falta de preparo. O preço de negligenciar o estudo já chegou, e se traduz em desigualdade, estagnação e dependência de nações mais preparadas. Não há atalhos. Países que investem em formação colhem prosperidade e soberania; os que substituem educação por superficialidades, por aulas de música vulgar ou modelos pedagógicos fracassados, acabam pagando caro — a conta da ignorância coletiva.

Mais textos do colunista

Foto de perfil Said Santana
Said Santana
Said Aad Aziz Alexandre Santana é economista Ph.D. Com 22 anos de experiência no mercado financeiro, é fundador e CEO do Grupo Rentabilidade Pérola Holding.

RELACIONADAS

Foto de perfil Said Santana
Said Santana
Said Aad Aziz Alexandre Santana é economista Ph.D. Com 22 anos de experiência no mercado financeiro, é fundador e CEO do Grupo Rentabilidade Pérola Holding.
Economia e Negócios