Said Santana: ‘Por que o dinheiro (e os ricos) estão deixando o Brasil?’

Said Santana: ‘Por que o dinheiro (e os ricos) estão deixando o Brasil?’

A fuga de milionários e investidores reflete um ambiente hostil ao capital — e o custo disso será pago por todos

Dinheiro não tem pátria.” Essa máxima, repetida no meio macroeconômico, nunca foi tão verdadeira quanto nos últimos anos. É uma lição incômoda para os que acreditam que o capital se prende a bandeiras, discursos inflamados ou patriotismo forçado. A realidade é simples: dinheiro busca abrigo onde é bem tratado. Onde há previsibilidade, segurança jurídica, liberdade econômica e respeito ao investidor. Onde não há, ele simplesmente vai embora — silencioso, sem alarde, sem deixar bilhete.

Nos últimos dois anos, cerca de 2.000 milionários deixaram o Brasil. Estamos falando de pessoas com pelo menos 1 milhão de dólares em patrimônio líquido, muitas vezes investidores relevantes, empresários ou profissionais com negócios sólidos. E para onde foram? Em sua maioria, para os Estados Unidos, Portugal, Itália, Espanha e outros países da União Europeia — regiões onde o ambiente de negócios é mais estável e as regras do jogo são mais claras.

Enquanto isso, por aqui, a resposta institucional segue um velho roteiro. O governo observa a evasão de capital, esbraveja, promete “disciplinar os fluxos financeiros” e, no fim, aumenta o IOF, complica o câmbio, aperta a burocracia e acena com mais tributos. A consequência? Em vez de estancar a sangria, apenas acelera o processo. A mensagem é clara: “não queremos você aqui”. E o dinheiro entende rapidamente.

É aí que começam as narrativas — as justificativas que tentam negar o óbvio. Fala-se em “justiça fiscal”, em “combate a paraísos fiscais”, em “responsabilidade social”, mas ignora-se que confiança, previsibilidade e liberdade econômica não são luxos — são pré-requisitos básicos para manter o capital produtivo no país.

Essa fuga de capital humano e financeiro tem efeitos reais: menos investimentos, menos geração de empregos, menor arrecadação sustentável e maior dependência de medidas artificiais e de curto prazo. É um ciclo vicioso que corrói a base produtiva e destrói valor.

Enquanto isso, a economia informal cresce, a produtividade estagna e os talentos vão embora — com seus dólares, suas empresas, suas ideias e seus sonhos.

Dinheiro não permanece onde é maltratado. Ele busca segurança, previsibilidade e respeito às regras. Quando esses elementos desaparecem, o capital também desaparece — e com ele vão os investimentos, os empregos e a capacidade de crescimento sustentável. A permanência do capital é, antes de tudo, uma consequência da qualidade institucional de um país.

E, nesse ponto, o Brasil vive um verdadeiro caos institucional. Ao adotar uma postura conflituosa com países como os Estados Unidos — uma nação cujo estado mais pobre ainda apresenta nível de renda muito superior ao da maioria dos países europeus — revela-se uma completa desconexão com o mundo real.

Por exemplo, em 2024, o Mississippi, o estado americano mais pobre, registrou renda per capita (renda média por pessoa no ano) de cerca de US$ 53.000, valor superior ao da França (~US$ 44.400) e do Reino Unido (~US$ 45.800). Ou seja: o estado mais pobre dos EUA tem uma renda nominal per capita maior do que economias consolidadas que servem de modelo para muitos. Para se ter uma ideia, a renda per capita brasileira é de US$ 10.616 — ou seja, o Mississippi é cinco vezes mais rico que o Brasil.

Se até o Mississippi apresenta resultados econômicos superiores aos de países centrais da Europa, por que um investidor manteria capital no Brasil, quando o ambiente local se mostra instável, hostil e desconectado da realidade?

Essa desconexão não é apenas econômica — é institucional. E revela um país que insiste em olhar para dentro, em punir o capital produtivo, em ignorar as bases do crescimento e da prosperidade. O resultado é previsível: fuga de talentos, de ideias e de recursos. E um Brasil cada vez mais isolado e empobrecido.

O capital não pede licença para sair. Ele apenas vai embora.

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Said Santana
Said Aad Aziz Alexandre Santana é economista Ph.D. Com 22 anos de experiência no mercado financeiro, é fundador e CEO do Grupo Rentabilidade Pérola Holding.

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Said Aad Aziz Alexandre Santana é economista Ph.D. Com 22 anos de experiência no mercado financeiro, é fundador e CEO do Grupo Rentabilidade Pérola Holding.
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