Entre a infância e a vida adulta, o caminho da escuta se transforma — e precisa ser reencontrado
Desde que nascemos, estamos conectados aos sons. Ainda no útero, o bebê já escuta as batidas do coração da mãe e o pulsar da vida. O processo da gestação e a conexão mãe-bebê oferecem possibilidades de transformação e crescimento que se formam dentro de cada um de nós.
Podemos, assim, supor que os sons precedem nossa existência. Algumas crianças, segundo pesquisas, têm essa audição mais desenvolvida e apurada, sendo capazes de perceber e compreender nuances sutis. Podem até captar os humores que atravessam a gestação da mãe e, mais tarde, durante todo o desenvolvimento infantil.
É fundamental reconhecer o quanto esse processo entre mãe e bebê é determinante para o desenvolvimento da criança. Segundo Donald Winnicott, pediatra e psicanalista infantil: “A mãe suficientemente boa é aquela que decodifica e atende as necessidades básicas da criança”.
À medida que crescemos, a escuta da voz dos nossos pais e das pessoas que cuidam de nós torna-se essencial para desenvolvermos a confiança básica e o sentimento de pertencimento. Afinal, são essas figuras que nos chamam com diferentes tonalidades e expressam se estão bravas, carinhosas ou apenas presentes.
Com isso, aprendemos a decodificar os sons que nos agradam — e a evitar os que não nos fazem bem. Aprendemos a fingir muito cedo. Esse mecanismo de defesa nos ajuda a nos proteger do que nos fere e, às vezes, é tóxico e doloroso.
Durante a vida, acabamos por desaprender aquilo que é mais precioso: escutar o outro.
Deixamos de ouvir os sons dos animais, da natureza — os sons que nos humanizam. Tornamo-nos, muitas vezes, adultos que não escutam. E, à medida que vivemos nossos vínculos afetivos, desaprendemos o importante ato de ouvir.
Será que realmente escutamos o outro?
Quantas vezes falamos sozinhos em uma relação? Quantas vezes não damos espaço para que o outro se expresse?
Passamos a ter conversas com as nossas próprias verdades, que muitas vezes nos afastam de tudo e de todos — e nos conduzem a lugares adoecidos.
Na clínica, escuto com frequência pessoas que se queixam de que o marido, a mãe ou o filho não ouvem. Mas como será que isso se constrói?
Na tentativa de nos proteger da dor e do sofrimento, criamos mecanismos de afastamento. Acreditamos que estamos sempre certos, passamos a falar — e deixamos de ouvir.
Com isso, perdemos a riqueza das trocas, que mesmo podendo gerar conflitos e desconfortos, também promovem fala e escuta.
Romper esse circuito adoecedor nos permite perceber que nem sempre temos a verdade. Aliás, será que ela existe?
As relações afetivas são construídas por falas e escutas — muitas vezes dolorosas, mas sempre vivas, como o pulsar do coração. Do meu lugar de analista, que passa horas escutando vivências, dores, amores e lutos, percebo o quanto é difícil escutar de verdade.
A escuta verdadeira nos mostra que, à medida que ouvimos, nossas certezas e crenças deixam de ser absolutas. Essa percepção nos fragiliza — e também nos aproxima mais dos outros.
É assim que nos conectamos com quem nos é importante e com a nossa própria escuta interna. Nesse movimento de escutar, falar e silenciar, reencontramos o humano que existe em nós.