Dorli Kamkhagi: ‘A série Adolescência mostra como dramas terríveis podem atingir famílias como as nossas’

Dorli Kamkhagi: ‘A série Adolescência mostra como dramas terríveis podem atingir famílias como as nossas’

Complexa e cheia de variáveis, a adolescência é um desafio para os pais e a sociedade como um todo

A série Adolescência nos mostra, de forma impactante e chocante, o quanto essa fase da vida pode ter nuances terríveis e como esses dramas podem surgir em famílias como as nossas.

Este drama expõe dores profundas, que nos remetem às nossas falhas como pais, cuidadores, sociedade e adultos. Será que erramos tanto?

A série nos faz revisitar uma família que leva uma vida simples e amorosa, na qual cada filho vive suas próprias experiências adolescentes. Sabemos que esse universo, por onde o adolescente transita, é repleto de mudanças e oscilações. Às vezes, eles buscam o isolamento, que pode ser interpretado como uma necessidade de privacidade, mas também pode ser um sinal de comportamentos perigosos.

É preciso cuidado na relação com os filhos adolescentes. Até que ponto os pais devem estar presentes, acompanhando e entendendo os códigos que eles utilizam?

Muitas vezes, isso nem sequer é possível. Embora seja essencial manter um vínculo afetivo baseado no diálogo e em uma relação verdadeira, sabemos que nem tudo é compartilhado. Nem todos os segredos são revelados. Sempre foi assim, em todas as gerações.

Antes das mídias sociais, com seus jogos perversos e cruéis que induzem jovens e adultos a vidas doentias, os adolescentes já tinham seus próprios códigos e desafiavam os mais velhos. Lembro-me da música “Não confie em ninguém com mais de trinta anos”.

Nesta série, é marcante perceber a dor e a angústia do jovem, que parece não dimensionar a gravidade de seus atos. O mesmo ocorre com os outros alunos da escola, em um misto de sofrimento e negação.

Há um contraste chocante entre a crueldade do assassinato da jovem e a aparência do rapaz que comete o crime. Seria em nome de uma ideologia misógina ou um traço de psicopatia que se ativou e se manifestou?

Ao mesmo tempo, vemos a dor e a culpa dos pais, que se questionam por não terem sido presentes o suficiente. No entanto, com a outra filha, percebem que fizeram tudo certo, e as coisas deram certo. Como explicar o inexplicável?

Nossos filhos são constituídos de maneiras diferentes, com nuances psíquicas e emocionais únicas. Um conteúdo que, para um jovem, pode ser o gatilho de comportamentos psicopáticos, para outro será interpretado de forma completamente diferente.

Sabemos que o adolescente está num momento de transição, de mudanças profundas. Nesses momentos, a presença dos pais é muito resseguradora. Porém, nem sempre conseguimos manter todo o equilíbrio, é preciso que os pais deixem de se sentir culpados, e entendam que são corresponsáveis e devem estar alertas para um pedido de ajuda que seu filho pode estar pedindo. Dessa forma, talvez juntos podemos fazer esta passagem que o processo de crescimento e aprendizagem nos impõe.

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Dorli Kamkhagi
Psicóloga e Psicoterapeuta de adultos, casais e famílias, mestre em Gerontologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP, é colaboradora e supervisora de Grupos de Maturidade e Projetos sobre o Envelhecimento do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

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Dorli Kamkhagi
Psicóloga e Psicoterapeuta de adultos, casais e famílias, mestre em Gerontologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP, é colaboradora e supervisora de Grupos de Maturidade e Projetos sobre o Envelhecimento do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).
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