Leonardo Luz: ”A guerra no Irã pode sair cara para Trump”

Leonardo Luz: ”A guerra no Irã pode sair cara para Trump”

A escalada dos ataques EUA-Israel ao Irã ameaça o regime, mas pode gerar um conflito prolongado que eleva o preço do petróleo e pressiona a economia e a popularidade de Trump

Os ataques conjuntos lançados pelos Estados Unidos e por Israel contra a República Islâmica do Irã representaram uma escalada significativa das tensões entre os três países, com potencial para se converter em uma guerra aberta. O atual conflito distingue-se de forma substantiva da chamada Guerra dos Doze Dias, travada em 2025, uma vez que as ações militares recentes têm sido muito mais extensas e atingem diretamente o núcleo do regime iraniano. Entre os alvos figuram líderes centrais dos aparatos militar e político do país, incluindo o líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei.

            Ataques direcionados a figuras-chave da Guarda Revolucionária e do comando estratégico do regime comprometeram seriamente a cadeia de comando e alimentaram especulações acerca de um possível colapso interno do sistema político iraniano, historicamente sustentado por um delicado equilíbrio entre autoridade religiosa, poder militar e repressão institucional. A combinação entre perdas no alto escalão, tensões sociais internas em níveis inéditos ao longo dos quase cinquenta anos de existência da República Islâmica e a intensificação da pressão externa elevou substancialmente o risco de um debaclé do regime. O conflito, assim, assume contornos de evento com elevado potencial sistêmico, cujas consequências extrapolam a política do Oriente Médio e alcançam diretamente as ordens política e econômica globais.

            Embora os confrontos se deem primordialmente no plano militar, os efeitos nos mercados de energia já são visíveis, produzindo impactos nas expectativas inflacionárias e, de forma menos imediata, na disputa estratégica entre Estados Unidos e China. No centro dessa dinâmica encontra-se, mais uma vez, o petróleo — insumo fundamental para as cadeias globais de suprimento. Como a produção industrial, o transporte, a agricultura e a própria economia digital dependem direta ou indiretamente de energia barata e previsível, qualquer perturbação relevante na oferta de petróleo repercute muito além do setor energético. Poucas regiões do mundo, nesse sentido, concentram tamanho poder de disrupção quanto o Golfo Pérsico.

            O Estreito de Ormuz constitui o ponto mais sensível dessa engrenagem. Por essa estreita passagem marítima transita cerca de 20% de todo o petróleo consumido globalmente, além de volumes expressivos de gás natural liquefeito. Não se trata apenas de um corredor logístico, mas de um gargalo sistêmico: inexistem, no curto prazo, rotas alternativas capazes de absorver o fluxo proveniente de produtores como Emirados Árabes Unidos, Catar, Kuwait, Iraque e o próprio Irã. A mera ameaça de interrupção — ainda que parcial — eleva prêmios de risco, encarece seguros de transporte marítimo, desloca expectativas e impulsiona os preços futuros do barril. Do ponto de vista econômico, o petróleo mais caro implica custos mais elevados, reacendendo pressões inflacionárias em um momento no qual diversas economias ainda lidam com os efeitos persistentes da expansão monetária adotada durante a pandemia.

            Tal cenário não parece muito atraente para Donald Trump. A elevação dos preços do petróleo tende a pressionar os preços domésticos nos Estados Unidos justamente em um ano de eleições de meio de mandato (midterms), em um contexto de avaliação negativa do governo. Embora a perda da maioria republicana nas duas casas do Congresso não seja o cenário mais provável — na Câmara dos Deputados, a derrota é considerada quase certa —, tal possibilidade não pode ser descartada diante de um choque inflacionário relevante. Ademais, parcela significativa da sua base eleitoral trumpista, associada ao movimento Make America Great Again (MAGA), mantém uma posição historicamente crítica em relação a intervenções militares externas. O próprio Trump construiu sua imagem política como a de um líder avesso a guerras longas e onerosas, frequentemente se apresentando como peacemaker.

            É nesse contexto que emerge uma hipótese que incorpora a China como elemento central, ainda que não declarado, nas motivações estratégicas norte-americanas. Convencido pelo primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, Trump parece ter enquadrado o conflito como parte de uma estratégia mais ampla de contenção da China. Ao desestabilizar o Irã — peça-chave no fornecimento energético para Pequim —, os Estados Unidos atingem um dos pilares silenciosos da competitividade chinesa: o acesso à energia relativamente barata, previsível e flexível. Na prática, o Irã consolidou-se como um dos principais fornecedores marginais de petróleo para a economia chinesa, funcionando como um amortecedor de preços. As sanções impostas pelos Estados Unidos e por seus aliados obrigam Teerã a vender sua produção com descontos significativos, sendo a China responsável por cerca de 80% das exportações iranianas de petróleo bruto.

            Sob essa ótica, o conflito iraniano e a operação de captura de Nicolás Maduro, na Venezuela, podem ser interpretados como partes de uma mesma estratégia. Em ambos os casos, o objetivo central parece ser a interrupção de fluxos energéticos com desconto destinados à China. Assim como a queda de Maduro poderia reduzir a influência chinesa sobre reservas petrolíferas estratégicas na América Latina, a ofensiva contra o Irã pode culminar na interrupção do fornecimento de petróleo persa ao gigante asiático, que responde por até 15% da matriz de importações de óleo chinesa. Ao pressionar esses dois elos energéticos, Washington parece tentar dificultar a alimentação do canal energético que contribui para a competitividade industrial e tecnológica chinesa.

            O resultado, contudo, pode divergir substancialmente do planejado. Entre os cenários mais prováveis para o desfecho do conflito, poucos se mostram favoráveis aos Estados Unidos. Uma mudança de regime seguida de uma transição democrática implicaria julgamentos — muito provavelmente acompanhados de sentenças de execução — dos principais líderes da Guarda Revolucionária, detentora do poder de fato no Irã. Tal perspectiva sugere que o regime tenderá a lutar até as últimas consequências, o que pode levar a um endurecimento autoritário ou a uma fragmentação política da sociedade iraniana. Em ambos os casos, as relações energéticas entre Irã e China tenderiam a se manter, ao passo que a instabilidade no Estreito de Ormuz sustentaria preços elevados do petróleo por um período prolongado, elevando o custo de vida nos Estados Unidos e corroendo a popularidade de Trump — um claro tiro pela culatra.

            Mesmo um eventual redirecionamento do regime em direção a uma liderança mais moderada e aberta ao diálogo com o Ocidente não garantiria um distanciamento em relação à China. A interrupção do fluxo energético para Pequim exigiria o fim das sanções ocidentais, o que pressupõe uma improvável reaproximação estratégica entre Teerã e Washington. Ainda que se possa argumentar que algo semelhante esteja ocorrendo na Venezuela, o caso iraniano é consideravelmente mais complexo, envolvendo uma guerra de larga escala e a resistência ideológica e identitária dos atores religiosos que controlam a Guarda Revolucionária.

            Independentemente do desfecho, a natureza do conflito indica que ele tende a ser prolongado e potencialmente oneroso para os Estados Unidos. Os efeitos sobre os preços do petróleo podem persistir, e o país corre o risco de ser arrastado para uma nova intervenção no oriente, à semelhança do ocorrido no Iraque, porém em um contexto ainda mais complexo, dadas as maiores dimensões territoriais e demográficas do Irã, bem como sua importância geopolítica, que envolve a atuação de um importante rede de grupos paramilitares e políticos com atuação no oriente médio. Tudo isso ocorre em um cenário de crescente pressão fiscal nos Estados Unidos, que seria ainda mais deteriorado em uma guerra cara e prolongada. Caso Trump tenha apostado que o regime dos aiatolás não resistiria à investida norte-americana e que um eventual sucessor teria Washington como aliado prioritário, há uma probabilidade elevada de que os resultados colhidos sejam muito menos auspiciosos do que o esperado.

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Leonardo Luz
Doutor em Economia e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora.

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Doutor em Economia e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora.
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