França cobra plataformas após produtos saqueados serem anunciados na internet

Multidão invade boutique Chanel durante protestos em Paris - Crédito: JJxFile / Wikimedia Commons / CC BY-SA 4.0
Governo francês convoca Vinted, Amazon, eBay e TikTok para exigir retirada de anúncios de produtos saqueados nos protestos do fim de semana
Após os saques que ocorreram durante os protestos do fim de semana na França, produtos roubados começaram a aparecer à venda em diversas plataformas online. Diante da situação, o governo francês convocou, na segunda-feira (19), uma reunião com representantes de empresas como Vinted, Amazon, eBay, Leboncoin, Meta e TikTok para exigir a retirada imediata dos anúncios suspeitos.
Os primeiros anúncios chamaram atenção desde o domingo (18), com ofertas de bolsas da Sephora repletas de produtos novos vendidos a granel e itens de maquiagem da Chanel por preços muito abaixo do mercado. Roubados ou não, anúncios semelhantes se multiplicaram nos sites de revenda entre particulares após os saques a estabelecimentos comerciais ocorridos no sábado e domingo, durante os protestos contra a alta do custo de vida.
Durante o fim de semana, mais de 3.000 estabelecimentos comerciais foram invadidos ou depredados em toda a França, com muitos deles tendo seus estoques completamente roubados. Os anúncios suspeitos, que ofereciam produtos novos ainda embalados e de categorias variadas, foram denunciados em diversas publicações nas redes sociais, acionando o alerta no governo.
"Artigos saqueados neste fim de semana" em várias regiões da França "estão sendo colocados à venda em algumas plataformas", afirmou a ministra delegada para o Digital, Anne Le Hénanff, na rede social X. Ela acrescentou esperar a retirada "sem demora" dos anúncios em questão.
As plataformas foram convocadas para uma reunião nesta segunda-feira às 19h (horário local, 14h em Brasília) com o ministro do Comércio, Serge Papin. Representantes dos ministérios do Interior e da Justiça também participaram da discussão, que contou com a presença de dirigentes da Vinted, Amazon, eBay, Leboncoin, Meta e TikTok.
Procurada pela AFP, a Vinted garantiu adotar uma política de "tolerância zero" para esse tipo de situação. "Desde este fim de semana, nossas equipes agiram imediatamente para identificar e remover anúncios de bens roubados. Também reforçamos o monitoramento de anúncios suspeitos", informou a empresa lituana, sem detalhar a dimensão do fenômeno.
A plataforma acrescentou que, em caso de violação de suas regras, toma medidas contra as contas envolvidas, podendo chegar ao banimento definitivo. A Vinted afirmou ainda colaborar "ativamente com as forças de segurança e as autoridades francesas".
Já o eBay declarou que, "neste momento", não está em condições de confirmar um aumento de anúncios possivelmente relacionados aos saques do fim de semana. O site de leilões informou contar com uma equipe especializada que utiliza ferramentas tecnológicas e análise manual para detectar possíveis fraudes, além de considerar denúncias feitas por usuários. A empresa acrescentou que disponibiliza às autoridades um portal específico para facilitar solicitações de investigação.
O Leboncoin afirmou que "100% dos anúncios publicados" na plataforma passam por controles automatizados antes de serem postados e que a empresa mantém uma equipe dedicada à moderação. "Até o momento, não dispomos de dados consolidados que permitam estabelecer um aumento no número de anúncios irregulares ou uma variação de preços diretamente ligada aos acontecimentos de 17 e 18 de outubro", informou a plataforma, ressaltando, contudo, estar "particularmente vigilante".
O presidente do partido de extrema direita Reunião Nacional (RN), Jordan Bardella, criticou duramente a situação. "Os franceses não tolerarão que delinquentes enriqueçam às custas da comunidade nacional com os frutos de seus saques", declarou. Bardella defendeu uma cooperação mais estreita entre o Estado e as plataformas para "identificar os perfis que tentam revender mercadorias roubadas".
O candidato do partido governista Renaissance à Presidência da República, Gabriel Attal, fez um apelo semelhante. "Quando vemos jovens que se exibem nas redes sociais ou em plataformas de venda online com bens roubados para revendê-los, devemos ser capazes de identificar parte dessas pessoas", afirmou à rádio RTL. "Há itens furtados, incluindo equipamentos de informática, que, na minha opinião, podem ser geolocalizados. Além disso, existem anúncios publicados online e um grande número de vídeos postados nas redes sociais", acrescentou.
A situação evidencia o desafio das plataformas digitais em coibir a venda de produtos roubados em tempo real, especialmente em contextos de agitação social. O governo francês segue pressionando as empresas por respostas rápidas e efetivas diante da repercussão dos saques ocorridos durante os protestos.