STJ exonera servidor suspeito de vazar decisões para advogado ligado a Flávio

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Humberto Pradera, ex-secretário de TI do STJ, é suspeito de repassar minutas ao advogado Willer Tomaz, ligado a Flávio Bolsonaro
O Superior Tribunal de Justiça (STJ) abriu uma investigação e exonerou, nesta sexta-feira (16), um servidor da área de tecnologia suspeito de vazar minutas de decisões do tribunal ao advogado Willer Tomaz, amigo do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL). As trocas de mensagens que embasam as suspeitas constam em um relatório da Polícia Federal encaminhado à Procuradoria-Geral da República (PGR). O servidor exonerado, Humberto Fontoura Pradera, ocupava o cargo de secretário de Tecnologia da Informação e Comunicação (STI) do STJ.
Antes disso, havia sido assessor-chefe da Assessoria de Inteligência Artificial do tribunal, participando de projetos ligados à transformação digital, à inteligência artificial e aos sistemas internos da corte.
Segundo o documento da Polícia Federal, em uma das trocas de mensagens, Pradera repassou ao advogado Willer Tomaz informações relacionadas a demandas internas do STJ. Ele indicou que duas pessoas haviam sido designadas para tratar de determinado assunto e afirmou que manteria o advogado informado. Em outro episódio registrado no relatório, Pradera encaminhou uma fotografia de um documento exibido na tela de um computador, com um carimbo visível sobre a mesa. Em outra conversa descrita no relatório, ao ser questionado por Willer sobre "qual o número deles?", Pradera respondeu que "essa tá no REsp 2122969" e afirmou que a tutela teria perdido efeito em razão do julgamento.
Segundo os investigadores, a troca evidencia o compartilhamento de informações sobre o processo, acompanhado de explicações sobre seus possíveis efeitos. "O presidente do STJ, ministro Luis Felipe Salomão, tomou conhecimento dos fatos, e um procedimento interno para apuração já havia sido instaurado desde a semana passada. Como não se trata de concursado, o servidor em cargo de confiança foi exonerado nesta sexta-feira (16)", afirmou o STJ, em nota. O caso foi revelado pelo portal UOL e confirmado pela TV Globo. "As medidas criminais estão em andamento e são sigilosas, e sobre elas o Tribunal não vai se manifestar", informou o tribunal.
Além de Pradera, o relatório da PF aponta que o advogado Willer Tomaz mantinha conversas com o subprocurador-Geral da República Antônio Carlos Simões Martins Soares, que se aposentou voluntariamente em março de 2026. O documento traz uma planilha em que a PF compara o teor dos pareceres elaborados pelo subprocurador com o que era recomendado por Willer. Em alguns casos, os trechos são idênticos; em outros, a redação é semelhante à sugerida pelo advogado. Mais de uma vez, segundo a PF, o posicionamento de Antônio Carlos seguiu as recomendações do advogado na elaboração de seus pareceres. O relatório ilustra o caso de um agravo em recurso especial no qual parte da mensagem encaminhada por Willer aparece posteriormente reproduzida de forma literal ou praticamente literal em um parecer, com referências ao desconto de quase 90%, ao valor do FII Eldorado, à exclusão de créditos considerados ruins, aos laudos sigilosos e à atuação do administrador judicial. O documento traz ainda outro caso de uma discussão prévia sobre tese relacionada à gestão de conta do espólio, após a qual Antônio Carlos Martins Soares opinou pelo provimento.
O advogado Willer Tomaz é um dos donos do jato em que o senador Flávio Bolsonaro (PL) viajou em janeiro do ano passado. Ele é investigado pela PF na Operação Sem Desconto, que apura um esquema bilionário de fraudes em benefícios do INSS. Em outra apuração, a PF investiga o advogado por supostas operações de apostas para lavar dinheiro. Ao todo, em 18 meses — de janeiro de 2025 a julho de 2026 —, ele apostou R$ 6,6 bilhões e teve um prejuízo de R$ 188,5 milhões. Os dados foram informados pela própria defesa do advogado em um processo aberto contra a casa de apostas Blaze, que patrocina o atacante do Santos, Neymar Jr., e que tinha contrato com a influenciadora Virgínia Fonseca. Nesta sexta-feira (16), a Justiça de São Paulo negou um pedido de Tomaz de devolução de R$ 163 milhões perdidos em bets. O advogado havia acionado a 44ª Vara Cível de São Paulo para tentar reaver a quantia, alegando vício em jogos e falhas da plataforma. O relatório da PF também revela que Flávio Bolsonaro foi cadastrado como "usuário master" de uma conta bancária pertencente a uma empresa do advogado. Para a PF, o cadastro dava a Flávio "acesso operacional relevante" à conta bancária e "sustenta a hipótese de sua eventual participação econômica ou societária de fato na empresa". O caso segue sob investigação, com medidas criminais em andamento sob sigilo, conforme informou o próprio STJ.