Movimento estudantil francês se prepara para o "terceiro ato" de protestos

Manifestação de estudantes, professores e sindicatos em Paris, na França - Foto: Reprodução/X
Estudantes franceses do ensino médio e universidades se preparam para novo dia de protestos com apoio de sindicatos e líderes da esquerda
Após duas jornadas nacionais de mobilização, realizadas em 29 de setembro e 1º de outubro, o movimento estudantil do ensino médio e das universidades da França se prepara para seu "terceiro ato" nesta terça-feira (6).
Na véspera dos protestos, convocados pela União Sindical dos Estudantes Secundaristas e pela União Estudantil, as aulas foram suspensas, total ou parcialmente, em até 500 dos 3.700 estabelecimentos de ensino do país.
Nas redes sociais, circula uma convocação para uma grande manifestação em Paris, na Praça da República, a partir das 14h (horário local), com previsão de participação de até 40 mil pessoas. Atos também estão previstos em cerca de 30 cidades, entre elas Tours, Rennes, Brest, Nancy, Montpellier, Toulouse, Besançon, Perpignan e Lille.
Uma frente sindical reunindo organizações da Educação Nacional convocou professores e trabalhadores do setor a se juntarem ao movimento estudantil. Sophie Binet, secretária-geral da CGT, uma das maiores centrais sindicais da França, afirmou à emissora TF1 que militantes estarão presentes para "proteger os estudantes do ensino médio".
Personalidades da esquerda francesa também convocaram famílias e a população adulta a se posicionar ao lado dos estudantes secundaristas. Entre elas estão o deputado ecologista Pouria Amirshahi e Jean-Luc Mélenchon, líder do partido França Insubmissa e candidato à presidência.
Além disso, a Confederação Camponesa, terceiro maior sindicato agrícola do país e tradicionalmente alinhado à esquerda, convocou agricultores a se unirem aos protestos com seus tratores, defendendo uma convergência entre as diferentes insatisfações sociais. Em mensagem divulgada nas redes sociais, a entidade denuncia o que considera uma degradação progressiva dos serviços públicos, citando problemas na educação, na saúde e nos transportes, sobretudo nas áreas rurais.
O movimento estudantil reúne alunos do ensino médio e universitários em protestos organizados em diversas regiões da França. Os manifestantes reivindicam mais recursos humanos e financeiros para o sistema de educação nacional. Entre as principais demandas estão maior transparência na plataforma de acesso ao ensino superior Parcoursup, a substituição de professores ausentes, a denúncia da precariedade e do envelhecimento da infraestrutura escolar, além de críticas a horários considerados excessivamente carregados.
"Eles acham que, só porque nos dão espaço para nos expressar em uma plataforma, na internet, vamos parar de bloquear escolas e deixar de ficar indignados. Mas a verdade é que essa revolta existe há anos", afirma Simon, estudante do Liceu Charlemagne, no centro de Paris.
Nesta segunda-feira (5), o número de estabelecimentos afetados pelos protestos caiu para 589, contra "quase 800" registrados na última sexta-feira (2), declarou o ministro francês da Educação, Édouard Geffray, durante visita a um liceu no departamento de Yvelines, na periferia de Paris. Entre as universidades, 32 campi estavam bloqueados total ou parcialmente, entre eles uma unidade da Sorbonne Nouvelle em Paris, onde as forças de segurança intervieram para retirar manifestantes do saguão.
Os incidentes desta segunda-feira foram, em geral, menos numerosos do que os do fim de semana anterior. No entanto, o dia foi marcado por um episódio grave em Lens, no norte da França: um adolescente de 15 anos teve uma das mãos arrancada após a explosão de uma granada durante uma manifestação, segundo as autoridades locais.
O caso foi classificado por Geffray como um episódio "humanamente dramático". O ministro afirmou, porém, que ainda não havia informações precisas sobre as circunstâncias do acidente. A Promotoria também informou que, até o momento, não é possível determinar se o jovem recolheu a granada do chão ou se o artefato explodiu ao atingi-lo.
Desde o início da mobilização, em 29 de setembro, cerca de 190 estudantes ficaram feridos, a maioria em decorrência de acidentes, segundo o Ministério da Educação da França. O governo contabiliza ainda 24 estabelecimentos incendiados ou vandalizados e 78 membros do corpo docente e administrativo feridos, em casos atribuídos, na maior parte das vezes, a pessoas externas às escolas envolvidas nos protestos.
Diversos sindicatos e associações acusam o governo de reprimir as mobilizações de forma "desproporcional", com o objetivo de sufocar reivindicações consideradas legítimas. Seis investigações foram abertas pela Inspetoria-Geral da Polícia Nacional para apurar a atuação das forças de segurança.
Em menos de duas semanas, mais de 5 mil pessoas foram detidas para interrogatório policial, das quais 87% são menores de idade, informou o Ministério da Justiça. Até o momento, 1.802 pessoas foram alvo de processos judiciais relacionados aos protestos. A Liga dos Direitos Humanos criticou a resposta das autoridades, denunciando o que classificou como "um desvio geral em relação ao Estado de Direito".
"Vemos que, nas orientações dadas aos policiais, não há nenhuma instrução de contenção, embora se trate de menores, como estabelece a Convenção Internacional dos Direitos da Criança. É considerada criança toda pessoa com menos de 18 anos", lembrou a presidente da organização, Nathalie Tehio.
Diante da crescente mobilização, o primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, encaminhou, na noite de domingo (4), uma carta de orientação aos integrantes do governo determinando que as aulas sejam retomadas "em todos os locais onde for possível". O documento também estabelece um calendário de medidas destinadas a responder, ao menos parcialmente, às demandas do movimento estudantil. O premiê encarregou diferentes áreas do governo de desenvolver cinco frentes de trabalho baseadas nas principais preocupações apresentadas pelos Conselhos Acadêmicos da Vida Estudantil, com as primeiras decisões concretas previstas para antes do fim do mês.