Macron critica Trump e Netanyahu por comentários sobre protestos

Foto: Faces of the World/Flickr
Macron critica Trump e Netanyahu por declarações sobre protestos violentos na França e diz que líderes "fazem campanha às custas" do país
O presidente da França, Emmanuel Macron, repudiou nesta quarta-feira (21) comentários classificados por ele como "inaceitáveis e estúpidos", feitos por líderes estrangeiros sobre os protestos violentos que tomaram as ruas francesas no fim de semana.
Em uma crítica direta ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e ao primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, Macron afirmou que esses líderes "fazem campanha às custas" da França.
A segunda maior economia da União Europeia presenciou, no sábado, alguns dos piores episódios de violência urbana dos últimos anos, a apenas seis meses das eleições presidenciais que definirão o sucessor do atual chefe de Estado de centro-direita.
Imagens de saques e incêndios em prédios públicos circularam pelo mundo, provocando reações de diversos líderes internacionais e figuras de extrema direita na Europa.
Trump afirmou que a França estava sendo "conquistada, saqueada e reduzida a cinzas por migrantes, jihadistas e comunistas", enquanto Netanyahu classificou o país como um refúgio do "islamismo extremista". Ambos enfrentam eleições legislativas decisivas nas próximas semanas.
Em Doha, durante uma viagem destinada a garantir o fornecimento de hidrocarbonetos para reduzir os preços na França, Macron avaliou que houve "uma manipulação estrangeira da informação" após os distúrbios, o que "deu margem a comentários tão inaceitáveis quanto estúpidos".
"Quando vejo líderes que estão em campanha, seja na região ou do outro lado do Atlântico, que às vezes, com credulidade, repetem o que aparece na inteligência artificial (...), percebo que fazem campanha às nossas custas", lamentou.
As autoridades francesas atribuem os distúrbios a "pequenos grupos de extrema esquerda", aos quais teriam se juntado "criminosos oportunistas", muitos deles jovens oriundos dos subúrbios das grandes cidades, responsáveis pelo saque de centenas de lojas.
Das 557 pessoas detidas em Paris por conta dos distúrbios, 300 já compareceram perante um magistrado e nenhuma "alegou uma motivação de natureza política", informou na noite de terça-feira a promotora da capital, Laure Beccuau.
Pressão nas ruas e nos sindicatos
Os distúrbios ocorreram à margem de protestos que reuniram entre 550.000 e 800.000 pessoas no sábado para denunciar o aumento do custo de vida e exigir melhores condições para estudantes do ensino médio.
O movimento dos "coletes amarelos", que já abalou o primeiro mandato de Macron em 2018 e 2019, e os estudantes já convocaram novas manifestações para o próximo sábado.
Para evitar novos distúrbios, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu anunciou uma mobilização policial "massiva". Macron anunciou ainda que realizará, na quinta-feira, uma reunião com os serviços de inteligência, Lecornu e vários ministros, com o objetivo de obter um "relatório detalhado" sobre os acontecimentos do sábado, 17 de outubro.
Além da resposta na área de segurança, como os toques de recolher decretados na segunda e na terça-feira à noite, o governo enfrenta pressão de sindicatos e da oposição de esquerda para responder ao descontentamento social.
Nesta quarta-feira, Lecornu se reuniu com as principais forças sindicais e deve fazer anúncios sobre as demandas estudantis na próxima semana.
"Vamos dizer, em resumo, que a uma mobilização social não se responde com repressão", mas sim "com respostas políticas às reivindicações", resumiu a líder da central sindical CGT, Sophie Binet, ao chegar à reunião.
Pressão sobre a dívida francesa
Uma resposta política que envolva aumento dos gastos públicos parece complicada, especialmente quando o governo, em minoria no Parlamento, busca implementar um ajuste fiscal significativo em 2027 para sanear as contas públicas e tranquilizar os mercados.
O rendimento do título francês de 10 anos ultrapassou o patamar simbólico de 5% pela primeira vez desde 2002, indicando que a França precisa pagar mais para se financiar; além disso, seu prêmio de risco atingiu o nível mais alto desde 2011.
"No cenário internacional, os distúrbios deste fim de semana prejudicaram a reputação da França", comentou à AFP Mike O'Sullivan, economista-chefe da Moonfare, dois dias antes de a agência de classificação de risco Moody's possivelmente rebaixar a nota da dívida francesa.
O aumento do rendimento dos títulos pode, nos próximos meses, pesar no bolso dos franceses, que já enfrentam perda de poder aquisitivo agravada pelo encarecimento dos combustíveis em decorrência do conflito no Oriente Médio.