Dólar tem maior alta desde 1999 após vitória de Lula

Vitória de Lula nas eleições derruba a Bolsa e dispara o dólar, que sobe 8,41% e aciona o circuit breaker na B3 pela primeira vez desde 2020
Após a vitória do presidente Lula (PT) nas eleições, o dólar encerrou o pregão desta segunda-feira (26) com a maior alta diária desde janeiro de 1999, quando o Brasil adotou o regime de câmbio flutuante. A moeda americana terminou o dia em alta de 8,41%, cotada a R$ 5,409, um avanço que não era registrado desde 15 de janeiro de 1999, quando o dólar subiu 11% em uma única sessão. Antes do regime de câmbio flutuante, o país operava com um sistema de bandas cambiais, que mantinha a cotação da moeda americana dentro de limites definidos pelo governo. A forte oscilação desta segunda-feira também afetou a Bolsa brasileira, que recuou ao menor nível desde junho, apagando os ganhos acumulados desde o primeiro turno das eleições.
A volatilidade foi impulsionada diretamente pela vitória de Lula. Para os investidores, a continuidade do petista no comando do Executivo amplia o temor de que não sejam adotadas medidas suficientes para ajustar as contas públicas. A expectativa de menor controle fiscal tende a elevar o prêmio de risco exigido pelos investidores para financiar o governo, pressionando os juros futuros. Taxas mais altas, por sua vez, podem encarecer o crédito para as empresas e reduzir as perspectivas de lucro, pressionando o mercado acionário. A percepção negativa foi reforçada por grandes instituições financeiras.
O JP Morgan rebaixou a recomendação do real e dos títulos públicos nacionais de "overweight" para "marketweight" — ou seja, de "acima da média do mercado" para "em linha com a média do mercado" — após a vitória de Lula. De acordo com Vinicius Moreira e sua equipe, o resultado, considerado inesperado, deve levar a uma "reavaliação significativa" dos ativos. Durante o pregão, a B3 acionou o circuit breaker pela primeira vez desde 2020 para conter a volatilidade na Bolsa brasileira. O mecanismo interrompe temporariamente as negociações em momentos de fortes quedas, paralisando operações com ações, derivativos e títulos de renda fixa privada, dando ao mercado um intervalo para assimilar as oscilações. O movimento desta segunda-feira reverte a valorização dos ativos registrada após o primeiro turno das eleições, quando prevalecia a expectativa de vitória de Flávio Bolsonaro e de um ajuste fiscal mais rigoroso sob seu governo.
No pregão seguinte à primeira rodada eleitoral, a Bolsa havia subido 7,70%, aos 206.911 pontos, em recorde em termos nominais e reais, enquanto o dólar caiu 4,11%, a R$ 5,001, na maior queda diária desde 2018. Com as oscilações desta segunda-feira, o dólar voltou ao patamar de dezembro de 2025, apagando a desvalorização acumulada em relação ao real ao longo do ano. "O descompasso de expectativas do mercado em relação ao resultado das urnas resultou em um movimento generalizado de liquidação na Bolsa, evidenciando a cautela dos investidores em relação às futuras diretrizes econômicas e fiscais do país", afirma Rebecca Nossig, estrategista de ações da Nomad. Para os analistas, a trajetória do dólar e da Bolsa no médio prazo dependerá das sinalizações sobre a política fiscal do novo governo. "Pode haver um movimento muito forte no pós-eleição, mas sua consolidação vai depender das medidas do candidato eleito. A depender de como o vencedor conduzir a política fiscal, podemos ter uma reversão das expectativas iniciais", diz João Daronco, analista da Suno Research. O cenário atual demonstra que a incerteza em torno das políticas econômicas de Lula segue como principal fator de pressão sobre os mercados financeiros brasileiros, com investidores aguardando sinalizações concretas sobre o rumo das contas públicas.