Lula chega às urnas após campanha marcada por crises e mudanças de rota

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Lula não conseguiu abrir vantagem nas pesquisas e recorreu a um pacote bilionário de medidas nas semanas finais da campanha
Em sua sétima e última disputa presidencial, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chega às urnas neste domingo (4/10) em um cenário de indefinição e embate acirrado com o candidato do PL, Flávio Bolsonaro.
Ao longo da campanha à reeleição, Lula não conseguiu abrir vantagem expressiva nas pesquisas de intenção de voto e precisou recalcular a rota, redefinir estratégias e remodelar o discurso.
Na largada, Lula partiu com vantagem em relação ao principal adversário. O presidente repetiu a aliança com o vice Geraldo Alckmin (PSB) e reuniu, pela primeira vez desde 1989, todas as siglas de esquerda e centro-esquerda — PT, PV, PCdoB, PSB, PSOL, Rede e PDT — em torno de uma única chapa.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, não conseguiu coligar com nenhum partido e formou uma chapa "puro-sangue" com o deputado Alfredo Gaspar (AL) como candidato a vice.
A intenção de Lula era repetir a "frente ampla" do segundo turno de 2022, com apoio de partidos de centro-direita. No entanto, no primeiro turno, legendas como MDB, Republicanos, PP e União Brasil optaram pela neutralidade na disputa presidencial.
Para um eventual segundo turno, PP e União Brasil já sinalizam apoio a Flávio Bolsonaro.
Nos discursos de campanha, Lula defendeu a soberania do Brasil diante das pressões dos Estados Unidos e apontou possível interferência do governo Donald Trump na eleição brasileira.
O presidente prometeu ainda o fim da escala 6x1, investimentos em educação e indicou que a área da Defesa será prioridade em um possível quarto mandato.
Crise do STF e caso Lulinha
Durante grande parte do período eleitoral, Lula não conseguiu impor sua agenda de campanha em razão da crise institucional do Supremo Tribunal Federal (STF).
Aliados avaliam que as suspeitas envolvendo ministros da Corte, com Alexandre de Moraes no centro dos holofotes, prejudicaram especialmente o petista, cuja imagem passou a ser associada à do ministro após a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Diante disso, Lula modulou o discurso e passou a defender que "todos" fossem investigados.
Somaram-se a esse cenário as suspeitas envolvendo seu filho, o empresário Fábio Luís, o "Lulinha", e sua relação com a lobista Roberta Luchsinger, investigada pela Polícia Federal (PF) por suposta corrupção e tráfico de influência no escândalo do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Questionado sobre o tema, Lula disse acreditar na inocência do filho, mas pontuou que, se ele for culpado, "terá que pagar".
Pacote de bondades nas semanas finais
Em queda nas pesquisas e sendo ultrapassado numericamente por Flávio Bolsonaro, Lula realizou uma série de anúncios de apelo eleitoral nas semanas finais do primeiro turno para tentar, ao menos, conter o avanço do adversário.
Com impacto fiscal estimado em mais de R$ 80 bilhões, o chamado "pacote de bondades" incluiu reajuste no valor do Bolsa Família, de R$ 600 para R$ 691; promessa de incorporar as chamadas canetas emagrecedoras ao Sistema Único de Saúde (SUS); extinção da "taxa das blusinhas" e proibição das bets no Brasil; além da manutenção do subsídio de R$ 2,12 por litro no diesel, desoneração da gasolina de tributos federais e zeragem dos impostos federais no etanol.
As medidas geraram críticas de Flávio Bolsonaro, que acusou Lula de tentar "comprar o voto dos mais pobres".
Agenda concentrada no Sudeste e Nordeste
Mais de 80% das agendas oficiais de Lula no primeiro turno ocorreram nas regiões Sudeste e Nordeste.
Nos 45 dias de campanha, o presidente esteve apenas três vezes no Sul, uma em cada estado, uma vez no Norte, em Belém (PA), e realizou um ato no Centro-Oeste, em Ceilândia (DF).
São Paulo e Minas Gerais foram os principais focos, com cinco agendas em cada estado.
Em Minas, Lula esteve três vezes em Belo Horizonte, uma em Montes Claros e uma em Juiz de Fora.
Em São Paulo, visitou a capital duas vezes e cumpriu agendas em São Bernardo do Campo, São José do Rio Preto e Guarulhos.
No Rio de Janeiro, foram quatro agendas.
No Nordeste, o petista não foi apenas ao Maranhão, à Paraíba e a Sergipe, enquanto Bahia e Ceará foram visitados mais de uma vez.
A campanha de Lula também optou por não comparecer aos debates eleitorais.
As sabatinas em veículos de comunicação foram escolhidas criteriosamente, com aparições pontuais em emissoras de televisão aberta e preferência, em mais de um momento, por podcasts.
O papel de Janja na campanha
A primeira-dama Janja da Silva teve papel de destaque na campanha à reeleição de Lula.
Ela discursou em todos os comícios do petista e interpretou a canção gospel "Tapete vermelho" nos palcos durante os atos.
Apesar das polêmicas em torno de seu nome e influência, seu papel é considerado estratégico, uma vez que pesquisas indicam que as mulheres podem ser decisivas nesta eleição — parcela que corresponde à maioria dos votantes brasileiros e aparece mais indecisa do que a média.
Nos últimos anos, dentro do governo, Janja liderou debates sobre a violência contra as mulheres e levou o tema para a campanha.
O presidente do PT, Edinho Silva, considera essa participação natural, citando que Janja viajou a diversos estados e realizou reuniões com mulheres da coligação.
Integrantes do PT afirmam que ela teve participação na definição da agenda de eventos de Lula durante o período eleitoral.
O secretário de Comunicação do PT, Éden Valadares, acrescentou que partiu de Janja a ideia de homenagear a ex-primeira-dama Marisa Letícia durante o lançamento da campanha de Lula, em São Bernardo do Campo (SP), berço político do petista.
Com um cenário de indefinição e adversário em ascensão nas pesquisas, Lula chega ao dia da eleição após uma campanha marcada por ajustes de rota, crises institucionais e medidas de apelo popular nas semanas finais.
O resultado das urnas definirá se o petista conquistará um quarto mandato ou se Flávio Bolsonaro surpreenderá no primeiro turno.