Leonardo Luz: "Lembranças de 2014"

Foto: Ricardo Stuckert/PR
Era outubro de 2014. A então presidente Dilma Rousseff enfrentava uma disputa acirrada pela reeleição contra Aécio Neves, e o resultado das urnas era incerto. Anos depois, Luiz Stuhlberger, gestor da Verde Asset, um dos mais tradicionais fundos de investimento do país, teria relatado que naquela noite torcera pela vitória de Dilma. Seu raciocínio era pragmático: preferia que os custos das escolhas econômicas do governo recaíssem sobre o próprio PT, e não sobre a oposição, que poderia ser responsabilizada pelas consequências de um ajuste inevitável caso vencesse a eleição.
Em seu primeiro mandato, Dilma optou por tentar sustentar o crescimento por meio de intervenções discricionárias, em detrimento de um ajuste macroeconômico que acomodasse as peripécias promovidas por seu antecessor, Lula. O Brasil de Lula vivera um período de forte crescimento com inflação controlada, sustentado pelo aumento singular dos preços das commodities – impulsionado pelo boom, no maior êxodo rural da história – e pela explosão do crédito privado, especialmente para o consumo das famílias. Esse ambiente permitiu combinar crescimento econômico, melhora do mercado de trabalho e inflação relativamente controlada, embora os sinais de perda de dinamismo já fossem perceptíveis ao final daquele período.
Dilma manteve a toada. A chamada Nova Matriz Econômica combinou redução artificial de juros, expansão do crédito público, desonerações tributárias pouco eficazes, subsídios do BNDES, controle de preços administrados — especialmente combustíveis e tarifas de energia — e tolerância com a deterioração das contas públicas. Esse conjunto de medidas distorceu preços relativos, comprometeu a confiança dos agentes econômicos e reduziu a transparência fiscal, contribuindo para a perda de dinamismo da economia e para o agravamento dos desequilíbrios macroeconômicos.
Para quem, como Stuhlberger, é um conhecedor do funcionamento dos mercados, estava claro que a conta chegaria, na forma de inflação e contração da atividade econômica. E como sabemos, os custos políticos da perda de bem-estar recaem no governo de plantão. O temor, naquele momento, é que um governo fiscalmente responsável inviabilizasse sua popularidade e abrisse espaço para um retorno do PT, que manteria a lógica de crescimento à marcha forçada, levando o país uma espiral inflacionária, como ocorrera em outras economias emergentes, como a Venezuela e a Argentina.
Saltemos doze anos, para outubro de 2026. Lula, em busca de seu quarto mandato, também se defrontava com uma eleição difícil – ainda mais do que a de Dilma. Após quatro anos de um mandato incapaz de compatibilizar a expansão dos gastos e políticas de estímulo à demanda com uma trajetória fiscal capaz de estabilizar a dívida pública, Lula se viu diante a uma sensação de mal-estar econômico por parte da população. Essa sensação, advinda, sobretudo, do crescente comprometimento da renda disponível da população ante um endividamento recorde das famílias (orbitando entre 82% e 84%), impulsionado pela taxa de juros exorbitante vivenciada durante todo o governo – sendo a maior do mundo em termos reais. Os juros, que lastreiam as dívidas das famílias e pressionam seus orçamentos, são uma resposta ao desequilíbrio fiscal crescente do país e que fora muito bem incrementado pelo governo.
A opção por elevar a arrecadação sem enfrentar de maneira estrutural a rigidez das despesas, somada à ampliação de benefícios tributários e à dificuldade de estabelecer prioridades orçamentárias, contribuiu para manter as incertezas fiscais, pressionar os juros e limitar o investimento privado. Ao mesmo tempo, a aposta no consumo e no crédito como motores do crescimento não foi acompanhada por avanços equivalentes na produtividade. O resultado é uma política que produziu crescimento e ganhos no mercado de trabalho, mas sem resolver o problema central de elevar o potencial de expansão da economia de forma sustentável.
A gastança desenfreada não foi interrompida no processo eleitoral. Ao contrário, Lula torrou mais 405 bilhões em medidas eleitoreiras que ainda produzirão seus efeitos ao longo dos próximos meses. Outras medidas populistas foram tomadas para tentar garantir mais quatro anos à frente do executivo federal – com efeitos sobre juros que ainda serão sentidos -, como o fim da escala 6x1. Ainda não temos os números finais, mas a reeleição conquistada ontem por Lula será a mais cara da história do Brasil, e quem pagará a conta seremos nós – sobretudo os mais pobres, aqueles que mais sentem os efeitos de inflação e juros altos.
As expectativas do mercado para 2027 e 2028 apontam para um cenário de crescimento econômico modesto, ou mesmo recessivo, e inflação ainda resistente. Segundo as projeções do Boletim Focus, o PIB deverá crescer 1,3% em 2027 e 1,8% em 2028, enquanto a inflação, medida pelo IPCA, deverá recuar de 4,3% para 3,8% no mesmo período, permanecendo acima da meta de 3%. O quadro é ainda muito otimista, posto que não incorpora a quebra de expectativas do mercado com o resultado eleitoral e, tampouco, absorve o pacote de bondades eleitorais de Lula durante o processo eleitoral. Em termos gerais, no melhor dos cenários, mesmo com a perspectiva de redução gradual dos juros, a economia brasileira deverá enfrentar dificuldades para acelerar o crescimento, em um ambiente ainda marcado pelo custo elevado do crédito e pela persistência das pressões inflacionárias.
Quando comparamos os números esperados pelo mercado para o biênio 2027-28 com o que ocorrera no primeiro biênio do governo Dilma 2, o cenário parece mais acalentador. Em 2015 e 2016, o Brasil enfrentou uma recessão profunda, com o PIB recuando 3,5% e 3,3% (totalizando mais de 9% em 15 meses), respectivamente, enquanto a inflação atingiu 10,67% em 2015 e permaneceu elevada em 2016, quando fechou em 6,29%.
O contexto vivido nos dois períodos, contudo, reserva uma armadilha para Lula. Se, em Dilma 1 e Dilma 2, a dívida bruta do governo geral passou de 51,3% do PIB em 2011 para 56,3% em 2014 e 65,5% em 2015, chegando a 69,8% em 2016, Lula 3 elevou a dívida de 71% para 78,6% em 2025, com projeções de aproximadamente 83% em 2026 e 87% em 2027, no melhor dos cenários e sem contar as últimas estripulias fiscais.
O custo de financiamento dessa dívida também não ajuda Lula em comparação à Dilma. A presidente, em seu primeiro mandato, transformou o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, em garoto de recados do governo, impondo ao país uma política de juros artificialmente baixa, chegando a atingir 7%. Posto que a maior parte da dívida soberana brasileira é rolada em juros, essa barbeiragem monetária permitiu que a dívida crescesse mais devagar do que poderia. Mas, como qualquer peça de ficção, a Selic artificial de Dilma chegou ao fim e o ciclo de alta dos juros se iniciou logo após finda a eleição, a 14,25% em julho de 2015.
Lula, por sua vez, não teve a mesma colher de chá. Posto que o banco central fora tornado autônomo por Jair Bolsonaro em 2021, a ingerência política do governo sobre a política monetária foi reduzida, e Lula não foi capaz de interferir na Selic, que chegou a 15% em seu governo. Agora, ainda que esteja em trajetória de queda suave, o patamar vigente coloca o Brasil como o maior juro real do planeta e uma mudança de tendência não apenas não é descartada, como até esperada se nenhum ajuste fiscal for feito.
Para piorar a situação, os preços da gasolina e do diesel, represados artificialmente para garantir a reeleição do mandatário, terão de ser flexibilizados, com impactos importantes sobre as taxas de inflação e, consequentemente, nos juros. Isso é um momento de instabilidade geopolítica global e no orinte médio, que deve manter o petróleo em patamares de preços bem elevados, em comparação com o que Dilma se defrontara em seu segundo mandato.
E, como cereja do bolo, há ainda o ambiente político e institucional. Lula 4 enfrentará a maior crise entre poderes da história recente, com o pêndulo político tendendo a direita e as duas casas parlamentares – especialmente o Senado – dominado pela oposição. Dilma inciara seu segundo mandato uma tranquila maioria, que logo se dissipou com a deterioração econômica, ao passo que Lula enfrentará uma oposição organizada e aguerrida, o que deve inviabilizar as soluções porventura propostas pelo governo.
No plano geral, é impossível não traçar as semelhanças entre os dois períodos e projetar um cenário pessimista para os próximos anos. Se a algo que 2014 nos ensinou é que desequilíbrios econômicos podem levar anos para cobrar seu preço integral, mas raramente desaparecem por conveniência política. Dilma iniciou seu segundo mandato acreditando que poderia administrar as consequências de suas escolhas, mas acabou confrontada com a recessão, a inflação e a perda de sustentação política. Lula poderá encontrar um cenário diferente, sem necessariamente repetir a mesma trajetória, mas terá de lidar com restrições fiscais, juros elevados e um ambiente institucional ainda mais deteriorados. A diferença entre os dois episódios não estará na existência de uma conta a pagar, mas na capacidade de reconhecê-la e de distribuir seus custos antes que os próprios acontecimentos imponham uma correção mais abrupta. E se considerarmos o discurso – e o histórico de Lula – as lembranças de 2014 estão mais próximas do que gostaríamos.