Estudantes de Medicina ofendem colegas bolsistas em grupo de WhatsApp

Alunos de Medicina em MG atacam bolsistas em grupo de WhatsApp após vitória de Lula: 'divide a bolsa com o MST' — Foto: Redes Sociais/Reprodução
Estudantes do Imepac, em Araguari (MG), enviaram áudios ofensivos a colegas bolsistas após a reeleição de Lula em grupo de WhatsApp
Dois estudantes de 19 anos do curso de Medicina do Instituto Master de Ensino Presidente Antônio Carlos (Imepac), localizado em Araguari, no Triângulo Mineiro, são alvo de um processo administrativo disciplinar aberto pela instituição após enviarem mensagens ofensivas a colegas bolsistas em um grupo de WhatsApp. Os áudios foram enviados na noite de domingo (25), horas após a confirmação da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Os nomes dos envolvidos não foram divulgados para preservar a identidade das vítimas.
Gravações de tela das conversas, às quais o g1 teve acesso, mostram os áudios enviados pelos dois estudantes por volta das 21h50, no grupo da turma de Medicina. Nas mensagens, os estudantes insultaram colegas que recebem bolsas do Programa Universidade para Todos (Prouni) ou têm financiamento pelo Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). Entre os alvos estão alunos que vendem trufas e outros produtos para ajudar a custear os estudos e o custo de vida na cidade.
"Agora quem votou no Lulinha, que está há 20 anos prometendo picanha, quem vier vender trufa [...]. Falar que as minas gostosas que estão com o Lula. Vai todo mundo se f. Pega a p da sua bolsa de Prouni, de Fies e divide com a p* do MST", disse um dos estudantes em um dos áudios enviados no grupo.
Outra estudante também aparece nas gravações com mensagens direcionadas a colegas bolsistas: "Eu quero ver nego vender trufa para o meu lado. Vai enfiar tudo no c, seus petistas do c [...]. Quero que vocês enfiem essas m* que vocês vendem tudo no meio do c, seus petistas do c".
Um boletim de ocorrência por difamação foi registrado contra os responsáveis pelas mensagens na manhã de quarta-feira (28). A reportagem entrou em contato com a Polícia Civil para saber se um inquérito para apurar a suspeita de difamação foi aberto, mas não havia obtido retorno até a última atualização da matéria.
Uma das estudantes diretamente afetadas pelas ofensas tem 21 anos, é natural de Uberlândia e ingressou na instituição no início de 2026. Bolsista, ela vende trufas para ajudar a se manter em Araguari. A jovem, que preferiu não se identificar, relatou que se sentiu diretamente atacada e humilhada pelos colegas.
"Foi discriminação socioeconômica pura. Antes das eleições, muito provavelmente eu já não era vista com bons olhos, porque se eu nem cheguei a me posicionar e eles foram tão cruéis, acredito que era um posicionamento que eles já tinham", disse a estudante.
Segundo ela, as mensagens podem estar relacionadas a tentativas de boicote a pessoas que votaram no PT, prática que, na avaliação da estudante, vem ganhando força em diferentes espaços. Ela afirmou que não havia manifestado publicamente nenhuma preferência política durante a campanha e que, após o resultado do segundo turno, publicou uma foto no Instagram declarando seu posicionamento.
"A única coisa que me permite estudar o curso dos meus sonhos é essa política pública de acesso à universidade", afirmou a estudante, que disse sempre ter mantido uma convivência respeitosa com os colegas e que as ofensas a pegaram de surpresa.
A estudante relatou ainda que figurinhas ofensivas contra eleitores do PT já circulavam no grupo antes do primeiro turno e que esse tipo de mensagem havia se tornado frequente. Após a vitória de Lula, as mensagens se tornaram ainda mais agressivas, embora outros alunos da turma tenham tentado acalmar os colegas.
"Eu me senti muito humilhada, não tinha como desvincular a minha imagem, era sobre mim que eles estavam falando. Mas também sobre vários outros estudantes bolsistas que se sentiram diminuídos e desrespeitados. Foi muito triste. Em momento nenhum eu desrespeitei ninguém, sempre fui muito discreta. Chorei bastante e busquei apoio da minha família e do meu namorado", relatou.
A estudante disse que foi a primeira vez que sofreu um ataque desse tipo. No entanto, após divulgar o caso e denunciá-lo à faculdade, outros estudantes relataram episódios semelhantes. Outra estudante bolsista também afirmou que se sentiu ofendida e avaliou que a presença de alunos que recebem auxílio financeiro para cursar Medicina incomoda alguns colegas que pagam pela formação.
"Eles se sentem no direito e não dá para passar impune. A faculdade precisa ser mais rígida com essas pessoas", relatou.
Em comunicado publicado nas redes sociais, o Imepac repudiou manifestações de intolerância ou discriminação por convicções políticas ou condição socioeconômica. A instituição informou que abriu um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) para apurar os fatos e adotar as medidas cabíveis. O Diretório Acadêmico Diogo Guimarães também publicou uma nota de repúdio nas redes sociais, que recebeu mensagens de apoio de alunos nos comentários.
Na nota oficial, o Imepac declarou: "O Centro Universitário IMEPAC repudia qualquer manifestação de intolerância ou discriminação, seja por convicções políticas ou por condição socioeconômica. A instituição reafirma seu compromisso com a liberdade de expressão, a pluralidade de ideias e o respeito as diferenças, princípios fundamentais para a convivência acadêmica e a formação ética e humanizada dos futuros profissionais. Diante dos episódios de intolerância relatados nesta semana contra estudantes, foi instaurado um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) para apurar os fatos e adotar as medidas cabíveis, com rigorosa observância das normas regimentais e do direito de defesa. A instituição também disponibiliza acolhimento e suporte aos estudantes atingidos, por meio de seus canais de apoio, e reforça que todos têm direito a um ambiente universitário seguro, inclusivo e livre de discriminação".