Flávio Bolsonaro aposta no voto útil para tentar vencer Lula já no 1º turno

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Flávio Bolsonaro chega ao primeiro turno em empate técnico com Lula, cercado pelas polêmicas do "Dark Horse" e das fake news sobre Nossa Senhora Aparecida
Flávio Bolsonaro chega ao primeiro turno das eleições presidenciais, marcado para este domingo (4/10), defendendo o voto útil contra o presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Nos dez meses desde que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) o apontou como seu herdeiro político, Flávio Bolsonaro se consolidou como o principal nome da direita no Brasil, superando uma série de polêmicas ao longo do caminho.
Com forte presença entre o eleitorado de direita, o candidato cresceu com o início da campanha e alcançou empate técnico com o petista nas últimas semanas, segundo os principais institutos de pesquisa.
O Datafolha de 24 de setembro registrou Lula com 40% das intenções de voto no primeiro turno, contra 36% de Flávio Bolsonaro. No segundo turno, o empate ficou ainda mais apertado: 47% para Lula e 45% para o "filho 01" de Bolsonaro.
Os resultados animaram a equipe de Flávio Bolsonaro, que aposta no voto útil para atrair os eleitores de Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão).
Apesar da intenção de encerrar a disputa já no primeiro turno, o presidenciável se prepara para um eventual segundo turno e atraiu para si um elemento relevante: o coach Pablo Marçal, que teve a candidatura rejeitada pela Justiça Eleitoral.
A tendência é que Marçal opere como uma peça importante nas redes sociais de Flávio Bolsonaro, contribuindo para responder à radicalização dos ataques do adversário Lula.
O caso "Dark Horse" e a crise com Vorcaro
Os dias que antecederam o primeiro turno confirmaram a escalada das tensões entre os candidatos, principalmente a partir de dois temas: as fraudes de Daniel Vorcaro, do Banco Master, que atravessam a campanha de Flávio Bolsonaro há quatro meses, e as publicações falsas sobre Nossa Senhora Aparecida.
O primeiro golpe na campanha de Flávio Bolsonaro à Presidência aconteceu em maio, com a revelação pelo "The Intercept" de áudios trocados entre o candidato e o banqueiro Daniel Vorcaro, protagonista de uma das fraudes mais relevantes do século.
Os registros obtidos pela Polícia Federal (PF), que investiga o fundador do Banco Master, mostram Flávio Bolsonaro pedindo dinheiro para financiar o filme do pai, o longa "Dark Horse".
Segundo contratos, Vorcaro daria R$ 134 milhões para a cinebiografia.
As gravações enfraqueceram Flávio Bolsonaro e ameaçaram sua candidatura. Um encontro entre ele e Vorcaro em São Paulo, após a prisão do banqueiro, foi descoberto, gerando pressão interna para substituí-lo pela madrasta Michelle Bolsonaro.
Inicialmente, o presidenciável tentou negar que conhecia Vorcaro, mas admitiu o elo após confrontos.
No último 24 de setembro, a revista "Piauí" revelou que Flávio Bolsonaro viajou dos Estados Unidos para Brasília em uma aeronave ligada a empresas das quais Vorcaro participava. Em junho, o candidato havia afirmado que nunca viajou no avião do banqueiro.
Cerca de dois meses após as revelações sobre o "Dark Horse", a ex-primeira-dama Michelle explodiu outra crise ao publicar um vídeo em suas redes sociais expondo as circunstâncias de seu então rompimento com Flávio Bolsonaro.
Ela disse ter sido apunhalada, desrespeitada, humilhada e maltratada pelo enteado durante divergências nas negociações eleitorais do PL do Ceará.
A briga foi superada pouco mais de um mês depois, mas Michelle não compareceu ao lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência.
Candidata ao Senado pelo Distrito Federal, ela fez apoios discretos à campanha do enteado, com gravações e vídeos para o horário eleitoral e para as redes sociais.
A polêmica de Nossa Senhora Aparecida
Outra polêmica que rondou Flávio Bolsonaro diz respeito à padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida.
O assunto explodiu nas redes sociais na reta final da campanha, entre os dias 24 e 25 de setembro, quando a informação falsa de que o candidato estaria articulando um projeto de lei para retirar o título de padroeira da Santa começou a circular.
Flávio Bolsonaro, que é publicamente evangélico, negou as acusações e entrou com uma ação na Justiça Eleitoral para derrubar 1.022 postagens, entre as quais estavam não só notícias falsas, mas também repercussões jornalísticas, críticas políticas e manifestações religiosas.
O pedido foi atendido pelo ministro André Mendonça, tornado nulo por Flávio Dino e retomado por Luiz Fux, compondo mais um capítulo da crise no Judiciário.
Por fim, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) julgou, na última quarta-feira (30/9), que qualquer mentira sobre o candidato deve ser derrubada pelas plataformas, mas que publicações criticando o senador ou o relacionando à Santa podem permanecer.
O candidato sempre evitou uma posição enfática sobre o assunto e buscou um podcast católico para expor sua visão.
Flávio Bolsonaro comparou os boatos à facada sofrida pelo pai em 2018 durante agenda em Juiz de Fora. "Falei para minha assessoria: 'checa esse negócio'. Não tem pé, nem cabeça essa mentira", declarou.
Ele ainda se defendeu alegando que o vice, Alfredo Gaspar, é católico. "Se tivesse preconceito, não ia botar de vice alguém católico fervoroso como ele é", afirmou.
Flávio Bolsonaro também acusou membros da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) de espalhar fake news junto à "máfia do PT". A CNBB negou qualquer participação na elaboração ou divulgação de informações falsas.
Após a ocasião, vídeos antigos de Flávio Bolsonaro dizendo que vai decretar que "o país é do Senhor Jesus Cristo" voltaram à tona.
Além disso, o livro do pastor da igreja do senador, JB Carvalho, também passou a viralizar: nele, o religioso associa Nossa Senhora Aparecida a divindades pagãs e a chama de "Deusa da Promiscuidade" e "figura demoníaca".
Sem apoio do centrão
A estratégia inicial de Flávio Bolsonaro era concentrar o apoio dos partidos de centro-direita em torno de sua candidatura.
O ponto de partida era leiloar a vaga de vice com um requisito importante: que a ocupante fosse mulher, movimento que pretendia atrair o eleitorado feminino.
Os partidos do centrão, no entanto, não aderiram à candidatura de Flávio Bolsonaro, que, após meses de especulações, recorreu a um homem do próprio partido: Alfredo Gaspar (PL), até então candidato ao Senado em Alagoas.
Partidos do centrão que decidiram pela neutralidade neste ano estiveram com Jair Bolsonaro quando ele tentou a reeleição em 2022. A aliança era sustentada por Ciro Nogueira, presidente do PP, e Marcos Pereira, chefe do Republicanos.
Sem esses apoios a nível nacional, Flávio Bolsonaro construiu a própria campanha com uma agenda intensa nos estados, concentrando viagens aos três principais colégios eleitorais: São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
Em São Paulo, contou com o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos); em Minas, se ancorou no deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG).
Propostas e pautas
No Senado há oito anos, Flávio Bolsonaro foi autor de três projetos de lei de destaque: um trata do aumento da pena do crime de denunciação caluniosa quando a acusação falsa envolver um crime hediondo; outro debate a legalização de imóveis urbanos em terras da União ocupadas irregularmente; e o terceiro veda a concessão de liberdade provisória a presos em flagrante pela prática de crimes hediondos.
Os três ainda tramitam no Congresso Nacional.
Também foi relator da chamada "PEC das praias", que transferia para ocupantes particulares a posse de "terrenos de marinha", paralisada desde 2022.
Na segurança pública, Flávio Bolsonaro defende que facções criminosas, como o PCC e o Comando Vermelho (CV), sejam classificadas como organizações terroristas, e propõe a construção de cinco novos presídios federais de segurança máxima.
Para a economia, defende um modelo liberalista, com flexibilização da legislação trabalhista, corte de 10 a 15 ministérios, ajuste fiscal de 1,5% do PIB e privatização ou fechamento de estatais dependentes.
O candidato não se colocou contra benefícios sociais e destaca que não pretende acabar com o Bolsa Família.
Flávio Bolsonaro é crítico ao Supremo Tribunal Federal (STF) e sustenta que são necessárias reformas no Judiciário, sendo favorável ao avanço do impeachment de magistrados, ao limite de decisões monocráticas e à quarentena de um ano para ministros de Estado indicados à Corte.
Na educação, sugere a expansão do modelo de escolas cívico-militares, a introdução de temas como inteligência artificial e robótica no currículo e a transferência da gerência de universidades federais do MEC para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.
Flávio Bolsonaro chega ao primeiro turno em seu melhor momento na disputa, com empate técnico nas pesquisas, mas ainda cercado pelas polêmicas do caso "Dark Horse" e da crise religiosa envolvendo Nossa Senhora Aparecida.
O resultado deste domingo definirá se o candidato conseguirá encerrar a eleição em um único turno ou se terá de enfrentar Lula em outubro.