'Exército do Lula' e 'Tropa do Flávio' travam batalha digital no segundo turno

Créditos / Fotos: Redes sociais do deputado André Janones | Vittor Sales/PL
Flávio Bolsonaro e Lula mobilizaram multidões, disputaram batalhas no TSE e nas redes em eleição considerada a mais acirrada da história do Brasil
Se o primeiro turno pareceu morno, o segundo turno transformou a disputa em um confronto intenso e histórico. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) levaram multidões às ruas, mobilizaram milhões de pessoas em grupos de WhatsApp, inundaram as redes sociais com campanhas digitais, travaram batalhas na Justiça Eleitoral e transformaram a eleição mais acirrada da história do país no principal assunto nacional.
Lula foi surpreendido ao terminar o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro, o oponente contra o qual ele queria disputar e que era desacreditado pela classe política. Flávio Bolsonaro entrou no segundo turno elegendo uma bancada forte no Congresso, unindo em torno de si os principais líderes do centrão e discutindo cargos para um eventual governo. Porém, viu o petista se reerguer, aprovar suas pautas no Senado, fortalecer alianças políticas e usar a comunicação digital como arma de campanha.
A batalha digital que reconfigurou a disputa
A entrada de dois agentes digitais em campo mudou o patamar da disputa. O deputado André Janones (Rede-MG), que já havia sido essencial para a vitória do PT em 2022, liderou a busca de Lula pela virada. O influenciador Pablo Marçal chegou à campanha de Flávio Bolsonaro para agregar novas estratégias digitais às já aplicadas por parlamentares da direita, como o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG).
Janones montou o "Exército do Lula", canal no WhatsApp com mais de 10 milhões de participantes, para orientar apoiadores sobre como agir para que o algoritmo das redes sociais trabalhasse a favor do petista. A iniciativa incomodou o adversário, que tentou derrubar o canal no TSE e criou a "Tropa do Flávio" como contraponto.
Aos 81 anos, Lula foi apresentado às redes sociais e compreendeu que não poderia ignorar a comunicação digital. Ganhou um celular de presente do governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), participou de lives de Janones no YouTube e viu a militância jovem se organizar de forma espontânea, sem o comando do PT, para ocupar as ruas das capitais.
Lula muda estratégia e aposta no futuro
Lula também percebeu que sua campanha precisava olhar para frente e falar de futuro. A linha condutora até o primeiro turno era o confronto de biografias, relembrando o passado e as realizações de seus governos. O resultado nas urnas mudou os rumos: Lula trocou a coordenação da equipe e passou a usar a máquina do governo de forma mais intensa.
O reajuste do Bolsa Família teve pagamentos antecipados para que todos recebessem antes do dia 25. O governo segurou o preço dos combustíveis, anunciou um novo Desenrola, lançou um pacote de benefícios para MEI, criou o Pé-de-Meia para universitários e prometeu tarifa zero no transporte público nos finais de semana. Conseguiu aprovar o fim da escala 6x1, forçando o PL e Flávio Bolsonaro a aderirem à medida, e se declarou favorável à redução da maioridade penal, contrariando posição histórica do PT.
O cavalo de Tróia de Flávio Bolsonaro
Aos 45 anos e bastante familiarizado com redes sociais, Flávio Bolsonaro aproveitou o espaço das plataformas ao longo de todo o ano. A entrada de Marçal no time fez barulho, mas acabou sendo um cavalo de Tróia. O influenciador ofendeu Renan Santos (Missão), adversário de Flávio Bolsonaro no primeiro turno, afastando qualquer possibilidade de o ex-candidato se engajar na campanha.
Marçal treinou o presidenciável para o debate da TV Bandeirantes, primeiro confronto entre os candidatos, e a postura de Flávio Bolsonaro foi considerada desastrosa, especialmente em grupos de pesquisa qualitativa com indecisos. A agressividade e o deboche característicos de Marçal imprimiram no presidenciável uma postura que afastou o eleitor indeciso.
Flávio Bolsonaro ouviu os aliados e mudou a equipe de preparação para o segundo e último debate, na TV Globo. Adotou o estilo do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), seguiu o roteiro que levou com anotações debaixo do braço e manteve postura serena. Porém, escorregou ao chamar Lula de "nove dedos" e ao tratar do caso da menina Ana Clara, morta por um PM defendido pelo senador, justamente quando o tema era segurança pública, a pauta preferida do bolsonarismo.
As pesquisas de intenção de voto indicam empate técnico, com leve vantagem numérica para Flávio Bolsonaro. O pacote de benefícios de Lula não diminuiu a rejeição ao seu governo, o que pode complicar uma eventual recuperação nas urnas. O petista pode ser vítima do antipetismo que divide o país ao meio e do voto de castigo que pune governantes na América Latina.
Nas últimas três semanas, o PT começou a desconstruir Flávio Bolsonaro, algo que não havia sido feito desde dezembro de 2025, quando ele anunciou sua candidatura. Suas relações com figuras polêmicas, como o advogado Willer Tomaz, passaram a ser exploradas apenas no segundo turno. O resultado é que o brasileiro vai às urnas neste domingo para votar em uma disputa totalmente aberta. Flávio Bolsonaro ainda é o favorito, mas a trajetória de Lula pode ganhar um novo capítulo: ser o primeiro candidato a sair derrotado no primeiro turno, virar os votos e vencer a eleição.