Flávio e Lula em disputa acirrada; pesquisas apontam empate no 2º turno

Foto: Ricardo Stuckert/PR
Lula e Flávio Bolsonaro trocam acusações em campanha marcada por polêmicas religiosas e escândalos, com pesquisas apontando empate no segundo turno
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) travam uma disputa acirrada nas eleições municipais de domingo, trocando acusações de toda ordem — morais e religiosas — em busca da vitória. As pesquisas apontam uma pequena vantagem para Lula, mas preveem um segundo turno em 25 de outubro, no qual os dois candidatos aparecem empatados. Lula, de 80 anos, enfrenta o senador conservador de 45, que tenta surfar a onda conservadora regional impulsionada por Donald Trump, aliado de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
O presidente dos Estados Unidos afirmou na quinta-feira que acompanha "de perto" essas eleições. "A eleição está empatada, mas não está parada. O que se decide na última semana é para onde vai o eleitor que já se moveu algumas vezes e ainda pode se mover de novo" entre Lula e Bolsonaro, disse à AFP Felipe Nunes, diretor do instituto Quaest. Muitos eleitores votarão sem convicção, divididos entre um presidente que aspira a governar pela quarta vez e um sobrenome — Bolsonaro — presente nas últimas três eleições. Marcelo Vilanova, de 32 anos, gerente de uma peixaria em Juiz de Fora, disse que apoiará Lula por ser o "mal menor". Já Lucas Sales, de 38, dono de uma loja de telefonia na mesma cidade, afirmou que votará em Flávio Bolsonaro, embora não o considere a melhor opção.
Se a campanha foi marcada por escândalos de corrupção — incluindo uma investigação contra Flávio Bolsonaro —, a reta final foi dominada por controvérsias surgidas nas redes sociais. Favorito entre católicos, Lula ecoou uma informação falsa segundo a qual Flávio pretendia retirar o título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida, em um suposto aceno aos evangélicos. Flávio Bolsonaro qualificou a acusação como "fake news" e a comparou à facada que seu pai sofreu na campanha de 2018, que o levou à Presidência. A dona de casa Patrícia Carvalho, de 51 anos, declarou à AFP, de uma igreja evangélica do Rio de Janeiro, que o tema traz polêmica para as eleições, mas não acrescenta nada à sua vida ou à do povo brasileiro.
Flávio Bolsonaro também acusou Lula de machismo após o presidente afirmar que os homens são "covardes" para fazer exame de próstata, enquanto "as mulheres aprendem a tomar toque desde quando são pequenas" no ginecologista. "Mulher tem que ser protegida e criança tem que ser cuidada", afirmou o senador, enquanto a frase de Lula circulava nas redes como se se referisse a abuso sexual. A funcionária do comércio em Juiz de Fora Gisele Souza, de 45 anos, disse que o Brasil virou uma "palhaçada" e que desliga a televisão quando começa o horário eleitoral.
O presidente afirmou na quinta-feira estar confiante para o primeiro turno: "As eleições serão definidas no domingo. E, se não for, paciência". Seu terceiro mandato se encerra com o desemprego em níveis mínimos e uma inflação contida, mas também com uma economia em desaceleração e uma insegurança que alarma os brasileiros. Na campanha, Lula buscou o apoio das classes populares e, em especial, das mulheres, maioria do eleitorado: aumentou o valor do Bolsa Família e proibiu as apostas online, que endividam milhões. Também levantou a bandeira da soberania e repetiu que Trump não deve se meter nas eleições. Até o momento, o republicano não apoiou explicitamente Flávio Bolsonaro.
Um apoio ativo de Trump seria prejudicial ao senador, segundo uma fonte do governo Lula à AFP, devido à impopularidade do republicano entre boa parte dos brasileiros. Do outro lado, a avaliação é a mesma: uma fonte da campanha bolsonarista disse à AFP que palavras de Trump em favor de Flávio Bolsonaro seriam desnecessárias. O senador conservador está na cola de Lula apesar de ser investigado por possível corrupção, após ter pedido dinheiro para um filme sobre seu pai ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, preso por suspeitas de corrupção, fraudes e outros crimes. Flávio Bolsonaro, que se define como mais moderado que Jair Bolsonaro — condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado —, promete linha dura contra a insegurança, uma das principais preocupações sociais. Seu campo acredita na vitória. "Nas últimas quatro eleições, a direita teve 3 a 4% acima do que as pesquisas apontavam antes", lembrou à AFP o senador Rogério Marinho, chefe de campanha de Flávio Bolsonaro. Com os dois candidatos empatados nas pesquisas para o segundo turno e uma campanha marcada por polêmicas, o resultado de domingo ainda é incerto, deixando o eleitorado dividido entre convicção e resignação.