Como os candidatos pretendem enfrentar as tarifas de 37,5% dos Estados Unidos

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Flávio Bolsonaro e Lula apresentam abordagens distintas para negociar as tarifas de 37,5% impostas pelos EUA ao Brasil
A negociação das tarifas de 37,5% impostas pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros será um dos principais desafios de política externa do próximo presidente do Brasil. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) apresentam propostas distintas para a atuação internacional do país, mas ambos terão de lidar com uma agenda comercial complexa, que inclui a busca pela redução integral das sobretaxas americanas.
A diferença entre os dois projetos está principalmente na estratégia diplomática. Enquanto Lula defende a autonomia brasileira, a diversificação de parcerias e o diálogo com diferentes polos de poder, Flávio Bolsonaro propõe uma aproximação com governos considerados parceiros tradicionais, incluindo os Estados Unidos, além de priorizar o comércio exterior e a atração de investimentos.
A proximidade política com Washington pode facilitar o diálogo entre os governos, mas não assegura, por si só, a redução das tarifas, a ampliação dos investimentos ou condições comerciais mais favoráveis. O resultado das negociações dependerá também das exigências americanas, das contrapartidas discutidas e da capacidade brasileira de proteger seus interesses econômicos e estratégicos.
O tarifaço americano e seus impactos
A disputa comercial ganhou uma nova etapa em julho de 2026, quando os Estados Unidos anunciaram sobretaxas de 25% e 12,5% sobre parcelas das importações brasileiras. As medidas alcançam 23,1% das exportações do Brasil destinadas ao mercado americano. A cobrança acumulada de 37,5% incide sobre uma parcela equivalente a US$ 6,6 bilhões, correspondente a 16,5% das vendas brasileiras aos Estados Unidos.
Diante do cenário, o Brasil manteve as negociações bilaterais e acionou a Organização Mundial do Comércio (OMC). Em 27 de julho, o país apresentou um pedido de consultas, etapa inicial do mecanismo de solução de controvérsias, questionando a compatibilidade das tarifas americanas com os compromissos internacionais dos Estados Unidos.
Em setembro, representantes dos dois países concordaram em criar um grupo de trabalho para discutir um possível acordo comercial. A negociação busca reduzir as barreiras impostas aos produtos brasileiros e diminuir os impactos sobre os setores exportadores.
A proposta de Lula para a política externa
O programa de governo de Lula prevê a continuidade de uma política externa universalista, com relações diplomáticas e comerciais em diferentes regiões do mundo. A estratégia prioriza a diversificação de parceiros, o multilateralismo e a utilização das normas internacionais para enfrentar medidas comerciais consideradas prejudiciais ao Brasil.
O documento não apresenta uma proposta específica para eliminar as tarifas americanas, mas defende relações internacionais baseadas na reciprocidade e rejeita imposições unilaterais e a divisão do mundo em blocos rivais.
Entre as prioridades estão o aprofundamento das relações com os Brics e os países do Sul Global, além da ampliação da participação das nações em desenvolvimento nas instituições internacionais. A estratégia busca reduzir a dependência de parceiros específicos e ampliar as alternativas comerciais e diplomáticas do país.
Na relação com Donald Trump, a contestação das tarifas já motivou contatos diretos entre os presidentes. Em telefonema realizado em 21 de agosto, Lula questionou os argumentos utilizados para justificar as medidas e defendeu a continuidade das negociações.
A política externa proposta também prevê ampliar a assistência e a proteção consular aos brasileiros no exterior, fortalecer os mecanismos de participação da comunidade brasileira que vive fora do país e reconhecer sua contribuição para as relações culturais e econômicas do Brasil com outras nações.
A visão de Flávio Bolsonaro para as relações internacionais
Flávio Bolsonaro propõe recompor as relações com países como Estados Unidos, Argentina e Israel, com o objetivo de restabelecer vínculos considerados prejudicados nos últimos anos. O plano prevê uma diplomacia voltada ao comércio e à atração de investimentos, com negociações orientadas pelos interesses econômicos brasileiros, independentemente de afinidades ideológicas.
Entre as prioridades estão a retomada do processo de adesão à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a abertura comercial e a ampliação da participação brasileira nas cadeias internacionais de produção.
O programa também identifica a agroindústria, os minerais críticos, a saúde e a economia digital como setores estratégicos para ampliar a presença do Brasil no comércio internacional.
A aproximação com Donald Trump faz parte desse projeto de recomposição diplomática. Em maio, Flávio Bolsonaro esteve com o presidente americano, em um encontro inserido no contexto das articulações políticas entre os dois países.
Apesar da prioridade atribuída aos Estados Unidos, a proposta não se limita à relação com Washington. O plano prevê negociações com diferentes mercados, incluindo China, União Europeia e países asiáticos, com foco na ampliação das oportunidades para produtores e trabalhadores brasileiros.
Negociação das tarifas será desafio para o próximo governo
Independentemente do resultado eleitoral, a redução das sobretaxas americanas continuará entre os principais desafios econômicos e diplomáticos do próximo mandato. O governo eleito terá de administrar os custos das tarifas já em vigor, proteger os setores mais expostos e avaliar possíveis concessões sem comprometer interesses estratégicos nacionais.
A solução dependerá do andamento das negociações bilaterais, das condições apresentadas pelos Estados Unidos e da capacidade do Brasil de conciliar a defesa de seus interesses comerciais com os objetivos mais amplos de sua política externa. A escolha entre uma estratégia baseada na autonomia diplomática e outra centrada na aproximação com parceiros tradicionais poderá influenciar a condução das conversas, mas o resultado concreto dependerá dos termos de um eventual acordo.