Petistas comemoram cancelamento de debate; Flávio acusa interferência judicial

Lula e Flávio Bolsonaro
Cancelamento do debate da Globo vira disputa política; petistas comemoram audiência do Flow enquanto Flávio Bolsonaro acusa interferência judicial
O cancelamento do debate da TV Globo tornou-se um campo de batalha político entre as campanhas de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) na reta final das eleições de 2026. Enquanto os petistas comemoraram o desfecho como uma vitória, Flávio Bolsonaro acusou o Judiciário de agir para favorecer o presidente. A Globo cancelou o embate previsto para a noite de quinta-feira, a três dias do primeiro turno, após uma sequência de decisões judiciais e da desistência de Flávio Bolsonaro. Lula já havia informado que não compareceria e, contrariando conselheiros, optou por conceder entrevista ao Flow Podcast no mesmo horário.
- Flávio Bolsonaro anunciou que não participaria logo após a ministra Estela Aranha, do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), proibir a Globo de exibir um púlpito vazio para marcar a ausência de Lula. Flávio Bolsonaro chegou a ensaiar perguntas ao espaço vazio reservado ao petista. - Havia ainda a expectativa de que o ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal Federal), determinasse a inclusão de Renan Santos (Missão) no debate, decisão que foi confirmada pouco depois. - Após a desistência de Flávio Bolsonaro e as decisões judiciais, a Globo cancelou o encontro, afirmando que as determinações de última hora alteraram regras previamente acordadas e provocaram "insegurança jurídica".
No Flow Podcast, Lula brincou ao explicar sua ausência no debate. "Gosto mais de você do que da Globo", afirmou ao apresentador Igor Coelho, rindo. O presidente classificou os debates como "infrutíferos" e disse que os encontros acabam abrindo espaço para candidatos interessados em fazer "gracinha" e "lacrar". Segundo Lula, uma disputa pela Presidência deveria se concentrar em temas como o país, a população e a soberania brasileira. Lula também criticou a participação conjunta, no mesmo debate, de candidatos com desempenhos muito diferentes nas pesquisas. O petista sugeriu algum tipo de divisão entre os presidenciáveis, comparando o modelo às diferentes séries do futebol. "Você não pode pegar uma pessoa que tem 49% e levar para disputar com uma pessoa que está começando e tem 1%", afirmou, defendendo um "processo seletivo" que separasse os candidatos de acordo com seu desempenho.
Após o cancelamento, Flávio Bolsonaro fez uma transmissão ao vivo e acusou Lula de recorrer a integrantes do Judiciário para interferir no debate. Sem citar nomes, afirmou que o presidente usa "amigos do Judiciário" e classificou como censura a decisão que impediu a Globo de exibir o púlpito vazio. "Lula só não vai ao debate como ele usa seus amigos do Judiciário para impor a censura ao debate da Globo", declarou. Flávio Bolsonaro considerou "triste e revoltante" o que ocorreu e usou o episódio para pedir aos eleitores que compareçam às urnas no domingo. O candidato do PL também acusou Lula de fugir do confronto. "Covarde. Chamei Lula mais de duas vezes para o debate. Quero debater com você, Lula", disse.
Nos bastidores da campanha de Lula, a avaliação é que o presidente saiu beneficiado do episódio. A desistência de Flávio Bolsonaro e o cancelamento do debate reforçaram, na visão dos aliados, o acerto da escolha pelo Flow. A entrevista de Lula ultrapassou 1,6 milhão de espectadores, enquanto a transmissão de Flávio Bolsonaro no mesmo horário não chegou a 600 mil. A diferença foi celebrada especialmente por ocorrer nas plataformas digitais, onde os bolsonaristas costumam ter forte presença. O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, ironizou a desistência. "Flávio Bolsonaro desistiu do debate da Globo hoje. A verdade é uma só: Nem o Flávio quer perder o Lula no Flow!", escreveu no X.
O ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, também comemorou a audiência do podcast, publicando cortes da entrevista e destacando o número de espectadores. Flávio Bolsonaro reuniu aliados políticos em sua transmissão após o cancelamento. Participaram da live Pablo Marçal, Nikolas Ferreira (PL-MG), Carlos Bolsonaro (PL-SC), Tereza Cristina e Deltan Dallagnol (Novo-PR). Carlos, irmão de Flávio Bolsonaro e candidato ao Senado por Santa Catarina, criticou o que classificou como interferência do STF no processo eleitoral. Outro irmão, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, que está morando nos Estados Unidos, também atacou Lula nas redes sociais. "Um verdadeiro escárnio esta eleição de 2026 comparada com a de 2022. E ainda assim esses sem vergonha vão perder", escreveu.
Em nota conjunta, a Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão), a ANJ (Associação Nacional de Jornais) e a Aner (Associação Nacional de Editores de Revistas) classificaram as medidas judiciais como uma agressão à liberdade de imprensa. Outros presidenciáveis também criticaram o cancelamento: Romeu Zema (Novo) falou em perda para a democracia; Ronaldo Caiado (PSD) classificou o episódio como um "atentado à democracia" e culpou Lula; Augusto Cury (Avante) acusou Lula e Flávio Bolsonaro de terem se "acovardado". Já Renan Santos (Missão), liberado pelo STF para participar, não entrou na Globo e convidou Flávio Bolsonaro para debater em um bar. O cancelamento do debate da TV Globo encerrou a semana eleitoral com acusações cruzadas entre os campos político e judicial, com cada lado interpretando o episódio a seu favor às vésperas do primeiro turno das eleições de 2026.