Fake news dominam conteúdos virais de saúde, mostra levantamento

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Pesquisa da Agência Lupa revela que 87,3% dos conteúdos virais sobre saúde analisados em quase dez anos eram fake news
Vermes que causam diabetes, intoxicação por vacinas, alimentos que eliminam a nicotina dos pulmões. Todos os dias, milhares de brasileiros são impactados por fake news sobre saúde. Um levantamento divulgado nesta segunda-feira (19) pela Agência Lupa, primeira agência de checagem de fatos do Brasil, com apoio da Afya, revelou que nove em cada dez conteúdos virais sobre saúde divulgados entre março de 2017 e junho de 2026 continham algum tipo de informação falsa. O relatório "Raio-X da Desinformação em Saúde — O que quase dez anos de checagens revelam sobre as mentiras que ameaçam a saúde dos brasileiros" analisou 764 conteúdos virais, dos quais 667 foram classificados como fake news, representando 87,3% do total.
O estudo também apontou o WhatsApp como a principal plataforma de disseminação dessas informações falsas, com 70,5% dos casos, seguido pelo Facebook (25,3%), Instagram (7%), sites em geral (5,8%) e X (3,8%). "É no WhatsApp que as pessoas recebem algum post ou vídeo de amigos e familiares. Na maioria das vezes, as pessoas repassam o material sem se darem conta de que se trata de uma fake news", explica Maiquel Rosauro, jornalista e pesquisador da Agência Lupa. O levantamento também mostrou que os temas predominantes das fake news variam conforme eventos específicos ou crises sanitárias.
Veja os ciclos analisados pela pesquisa:
- **2015 a 2019:** A maioria (50%) das fake news focava em promessas de curas milagrosas. Alimentos, bebidas e receitas caseiras prometiam efeitos extraordinários no organismo, como conteúdos falsos indicando alimentos que "limpam" a nicotina do pulmão de fumantes.
- **2020 a 2021:** A maior parte (82,3%) dos conteúdos falsos estava relacionada à pandemia de Covid-19, como a notícia falsa de que o Japão estaria usando ivermectina no lugar de vacinas para combater o vírus.
- **2022 a 2024:** A maior parte (45,08%) dos virais abordava tratamentos, curas e prevenções falsas para problemas de saúde, com destaque para as vacinas de Covid-19, taxadas erroneamente como tóxicas ao organismo.
- **2025 a 2026:** A maior parte (50,67%) das fake news tratava de doenças crônicas, como diabetes, e problemas cardiovasculares, com crescimento de conteúdos que tentam vender tratamentos e curas milagrosas. Gustavo Meirelles, vice-presidente médico da Afya, explica o aumento recente de fake news relacionadas à diabetes. "É uma doença de alta prevalência no mundo inteiro. As pessoas querem uma solução simples, rápida e barata, o que as torna alvo fácil para desinformação e falsos tratamentos", analisa.
Durante a divulgação dos dados, os especialistas apontaram as principais estratégias usadas para dar credibilidade a conteúdos falsos. Uma das mais recentes, impulsionada pelo avanço da inteligência artificial, é o uso de deepfakes, que simulam rostos, vozes ou ações de pessoas reais. O médico Drauzio Varella é uma das maiores vítimas desse tipo de prática, com sua imagem utilizada sem permissão para espalhar desinformação ou vender produtos. Outra estratégia comum é o uso de imagens e frases alarmistas para chamar a atenção do público, como uma notícia falsa que afirmava que absorventes contaminados estariam matando mulheres no Brasil. "O medo ganhou força no ciclo mais recente: 33,82% das fake news divulgadas entre 2025 e junho de 2026 usaram medo e linguagem alarmista. A estratégia associa vacinas, tratamentos e produtos cotidianos a consequências graves, como câncer, infertilidade ou morte", explica Rosauro.
Os especialistas também listaram algumas dicas para identificar conteúdos falsos: - Desconfie de soluções simples para problemas complexos; - Confira quem está falando e procure a evidência original; - Desconfie da combinação medo + urgência; - Pergunte se alguém está tentando vender alguma coisa; - Pesquise o título da notícia ou a imagem no Google para verificar se portais sérios ou agências de checagem já desmentiram o assunto; - Desconfie de conteúdos com erros gramaticais. "Também é fundamental nunca abandonar tratamentos por conta própria, confiando apenas em conteúdos vistos na internet. Converse sempre com médicos de confiança para saber se aquele conteúdo procede ou é falso", alerta Meirelles. O estudo reforça a necessidade de atenção crítica diante de informações sobre saúde compartilhadas nas redes sociais, especialmente em plataformas de mensagens instantâneas, onde a desinformação se propaga com maior facilidade entre amigos e familiares.