Presidente da Colômbia retira 30 peças de museu e provoca protestos

Abelardo de la Espriella foi eleito e assumiu a presidência da Colômbia - Foto: Wikimedia Commons
Presidente colombiano ordena retirada de 30 obras ligadas ao feminismo e à diversidade do Museu Nacional de Bogotá, gerando protestos e ação judicial
O presidente da Colômbia, Abelardo de la Espriella, deu início à sua prometida "guerra cultural" ao ordenar a retirada de 30 peças do Museu Nacional, em Bogotá. Os itens removidos estavam relacionados à diversidade sexual, ao feminismo e aos processos de paz do país. A medida gerou protestos de organizações da sociedade civil, mobilizou instituições culturais e levou a Justiça a ordenar a preservação das obras enquanto o caso é analisado. A intervenção transformou um dos principais espaços de memória histórica colombiana em palco de disputa política.
No fim de semana, manifestantes se reuniram em frente ao museu, o mais antigo do país, com cartazes em defesa da diversidade e acusando o governo de censura. "Não é uma batalha cultural, é uma batalha contra a cultura", dizia uma das placas, em referência à ofensiva do presidente. Espriella tomou posse em agosto com um discurso linha-dura, promessas de combate ao crime organizado e defesa de ideais conservadores.
As peças foram retiradas de uma exposição permanente no fim da semana passada. Entre os itens estavam objetos ligados a figuras de esquerda e aos estudantes que impulsionaram a Constituição de 1991. Uma das peças removidas é o chapéu de Carlos Pizarro, ex-comandante da guerrilha M-19 que assinou um acordo de paz em 1989 e foi assassinado meses depois, quando concorria à Presidência.
Na última sexta-feira (16), visitantes encontraram paredes vazias, e a sala onde ficavam as peças foi fechada sob alegação de reforma. A instituição ainda está sem um diretor titular nomeado. A ministra da Cultura, Paola Holguín, defendeu a medida nas redes sociais, afirmando que o museu não deve servir como instrumento de "doutrinação política". Ela não explicou os critérios utilizados para selecionar as peças nem por que a retirada foi feita de maneira repentina.
No mesmo dia, Espriella discursou na sede do Ministério da Cultura e atacou o que chama de "cultura woke", expressão usada por setores conservadores para criticar pautas progressistas relacionadas a gênero, raça e desigualdade social. "O Estado tem o incontornável dever moral e político de impedir que os espaços culturais sejam capturados pelo social-comunismo ateu, inimigo dos valores", declarou o presidente, ao lado da ministra, a quem chamou de sua "general". Ele classificou a "cultura woke" como um dos grandes "cânceres" que ameaçam a unidade nacional.
Os protestos tiveram início no sábado (17) e reuniram artistas, professores, estudantes, integrantes da comunidade LGBTQIA+ e ativistas feministas. O ato terminou com confrontos com a polícia, que usou gás lacrimogêneo, bombas de efeito moral e jatos d'água. As forças de segurança também destruíram uma instalação improvisada montada pelos manifestantes, composta por torres de tijolos e fotografias das 30 peças retiradas do museu.
Na segunda-feira (19), as manifestações continuavam em frente à instituição cultural, que foi cercada por policiais. Instituições culturais da Colômbia, incluindo museus de Medellín e de Cartagena, manifestaram preocupação e pediram ao Ministério da Cultura que garantisse a autonomia das instituições artísticas do país.
As críticas não se limitaram à esquerda e à classe cultural. Federico Hoyos, ex-deputado do partido Centro Democrático, condenou a retirada de peças. Juan Manuel Galán, presidente do partido Novo Liberalismo, também criticou a intervenção do governo Espriella na memória pública. "Um museu não é um palanque. Se um governo reorganiza as salas para que o passado lhe dê razão, isso não é memória: é propaganda em vitrine", afirmou ele, que é filho primogênito de Luis Carlos Galán, líder liberal assassinado em plena campanha presidencial de 1989.
A disputa chegou à Justiça depois que organizações culturais e parlamentares de esquerda apresentaram uma ação contra a decisão do governo, afirmando que a medida constitui censura e viola o direito à igualdade, além da proibição de discriminação por orientação sexual e identidade de gênero. Na segunda-feira, um juiz de Bogotá atendeu ao pedido e determinou que as obras fossem mantidas em condições técnicas adequadas de custódia e conservação. O governo também ficou impedido de destruí-las, alterá-las, descartá-las ou transferi-las para fora das instalações do museu. A decisão prevê ainda a apresentação de um relatório sobre as obras retiradas. A medida não determina, por si só, o retorno imediato das peças à exposição, mas garante que o governo preserve as obras enquanto a Justiça examina o caso.
A ofensiva de Espriella faz parte de uma tendência de governos ultraliberais e conservadores que promovem uma ideia de guerra cultural contra a esquerda e procuram rever a maneira como museus e instituições públicas apresentam episódios da história nacional. Nos Estados Unidos, Donald Trump encabeçou uma disputa com o Instituto Smithsonian, que administra instituições como o Museu Nacional de História Americana e o Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana. Na Argentina, Javier Milei promoveu demissões em órgãos de direitos humanos sob a acusação de que teriam sido apropriados pela esquerda. No Chile, setores ligados ao presidente José Antonio Kast defendem a criação de um chamado Museu da Verdade, para rivalizar com o memorial da ditadura de Augusto Pinochet, iniciada com o golpe de 1973. No Peru, a presidente Keiko Fujimori afirmou que o material didático passará por cortes para não ter "nenhum tipo de ideologia".