Números mostram precaridade do trabalho de entregadores de app

Entregador do Ifood - Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
O trabalho por aplicativo expõe entregadores a controle algorítmico, precariedade e riscos à saúde mental sem qualquer proteção efetiva
O trabalho de entregadores por aplicativo no Brasil vai muito além da informalidade moderna. Trata-se de uma nova forma de organização da vida e do corpo, que reproduz lógicas históricas de controle e deixa marcas profundas na saúde mental de quem pedala e pilota pelas cidades do país. Os números revelam a dimensão do fenômeno. De acordo com a PNAD Contínua sobre Trabalho por Plataformas Digitais, divulgada pelo IBGE, cerca de 2 milhões de pessoas trabalharam por meio de aplicativos no Brasil em 2025. Desse total, 1,959 milhão são classificados como "plataformizados", representando 1,9% de todos os ocupados no país.
No livro "Crítica da Razão Negra", o filósofo Achille Mbembe descreve a fazenda plantation não apenas como um modelo econômico, mas como um modelo de organização de corpos, no qual a vida do trabalhador estava permanentemente exposta à vontade de um senhor, sem vínculo, sem proteção e com sua energia vital extraída ao máximo. O paralelo com o funcionamento dos aplicativos de entrega é direto. O controle, antes físico e exercido pelo feitor, hoje é algorítmico. Os entregadores são monitorados em tempo real por GPS, tempo de entrega, taxa de aceitação de corridas e avaliação do cliente. A punição também existe, mas se manifesta em forma de bloqueio, redução de chamadas e exclusão da plataforma, frequentemente sem direito a defesa ou a qualquer contato com um ser humano. O resultado é um estado permanente de hipervigilância e desamparo. Outro ponto destacado por Mbembe é a descartabilidade do corpo. A plantation se sustentava na ideia de que alguns corpos valem menos. No Brasil, o perfil de quem faz entregas é majoritariamente composto por jovens, negros e periféricos. São corpos expostos diariamente à violência urbana, ao racismo de clientes e restaurantes, a acidentes de trânsito e às intempéries climáticas, sem qualquer estrutura de proteção. O corpo é a principal ferramenta de trabalho e o primeiro a ser sacrificado.
Em "O Novo Imperialismo", o geógrafo David Harvey define como acumulação por espoliação a produção de riqueza que não cria valor novo, mas transfere custos e direitos de um grupo para outro. É exatamente o que ocorre na economia dos aplicativos. Todos os custos e riscos da operação são transferidos para os entregadores: moto, bicicleta, gasolina, manutenção, plano de dados, alimentação e o risco de acidentes. Ao mesmo tempo, são esvaziados direitos historicamente conquistados, como férias, 13º salário, FGTS, INSS, seguro de vida, pausas para descanso e adicional de periculosidade. Para as empresas, o lucro é maximizado. Para os trabalhadores, o que resta é a precariedade. É por isso que não existe um programa efetivo de cuidado: mitigar o sofrimento custa, e o modelo de negócios se sustenta justamente por não arcar com esse custo. As plataformas se apresentam como "intermediadoras tecnológicas", e não como empregadoras, o que juridicamente as desobriga de cuidar. As ações existentes são paliativas e de caráter mercadológico.
O seguro pessoal contra acidentes, por exemplo, só é válido enquanto o pedido está em andamento, não cobre o trajeto de volta para casa e muito menos o adoecimento mental dos entregadores. Os pontos de apoio com água e banheiro são em número irrisório para uma frota de mais de 2 milhões de trabalhadores "plataformizados" no Brasil. Os cursos e campanhas de segurança, na prática, transferem novamente a responsabilidade para o entregador, com o discurso do "pilote seguro". O que está ausente é justamente o essencial para a saúde no trabalho: um programa de gerenciamento de riscos psicossociais, um canal de escuta com sigilo e sem retaliação, limite de jornada, suporte psicológico contínuo e o reconhecimento de que existe uma relação direta entre esse trabalho e o adoecimento mental.
O modelo de plataforma atualiza a lógica da plantation, não por meio de correntes, mas por meio da gestão por aplicativo. Ele produz um trabalhador hiper-responsável por tudo e sem direito a nada, condição ideal para o adoecimento mental. Mitigar esse dano exigiria que as empresas assumissem exatamente o que seu modelo de negócios nega: que são elas, de fato, quem organiza e controla o trabalho desses sujeitos.