Crédito rotativo cresce entre os mais ricos

© Marcello Casal jr/Agência Brasil
Saldo devido por quem ganha acima de 10 salários mínimos no crédito rotativo e cheque especial subiu 93% em um ano
Dados do Banco Central revelam que os brasileiros de maior renda vêm ampliando o uso do crédito rotativo e do cheque especial nos últimos três anos, enquanto essas mesmas modalidades de empréstimo recuaram entre os trabalhadores de menor renda. O movimento chama atenção por se tratar das linhas de crédito mais caras do mercado, com juros mensais de 15,18% e 7,43%, respectivamente, segundo dados de agosto do BC. O saldo devido por quem ganha acima de dez salários mínimos nessas modalidades registrou alta real de 93% entre julho de 2023 e julho de 2026.
Com isso, a participação dessa faixa no total emprestado saltou de 13,1% para 23,3%, chegando a R$ 30,3 bilhões. Para economistas, o fenômeno reflete tanto a deterioração das finanças das classes média e alta quanto uma mudança estratégica dos bancos, que passaram a direcionar a oferta de crédito para quem tem maior renda como forma de se proteger da inadimplência crescente entre os mais pobres. Os números levantados no SCR (Sistema de Informações de Créditos) do BC mostram que quanto maior a faixa de renda do tomador, maior o crescimento do uso do crédito rotativo. A alta mais expressiva foi entre os que ganham acima de 20 salários mínimos, cuja participação no estoque de crédito quase dobrou, passando de 5,3% em 2023 para 10,5% em 2026.
Entre os que recebem de 5 a 10 salários, o peso aumentou de 13,8% para 17,2%. Já entre os que ganham até 5 salários mínimos, o movimento se inverteu. O saldo do crédito rotativo e do cheque especial, que havia crescido mais de 70% acima da inflação entre 2021 e 2023, registrou queda de 10,6% nos últimos três anos. A participação dessa faixa no total recuou de 69,4% para 57,4%. Desde 2024, uma norma estabelece que a dívida de quem atrasa o pagamento da fatura do cartão de crédito não pode mais superar o dobro do montante original, limitando a taxa de juros acumulada a um teto de 100% do valor da dívida contraída. Ainda assim, o uso dessas linhas emergenciais continua crescendo entre as faixas de renda mais elevadas. A economista Laura Carvalho, professora da USP e diretora da Open Society Foundations, aponta que muitas famílias chegaram à retomada da economia desde 2021 já carregando compromissos acumulados entre 2015 e 2022, período marcado por uma recessão seguida de longa semiestagnação.
Dados de setembro da CNC (Confederação Nacional do Comércio) mostram que 71,9% das famílias com renda acima de 10 salários estão endividadas. "Para manter o seu padrão de consumo, as famílias passaram a se endividar e comprometer mais da sua renda", diz Carvalho. Para especialistas em crédito, a piora nas condições financeiras dos mais ricos coincidiu com o redirecionamento da oferta de empréstimos pelos bancos. "Atingiu-se tal nível de inadimplência, como consequência do comprometimento de renda elevado, que o próprio mercado promoveu ajustes", aponta Lauro Gonzalez, professor de finanças da FGV Eaesp e coordenador do FGVCemif (Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira). Ele cita o aumento do limite de crédito nas modalidades mais arriscadas e o crescimento no número de cartões oferecidos como exemplos de como os bancos estimulam a tomada de crédito.
Gonzalez ressalta que a baixa renda é mais vulnerável por ter menos mecanismos de proteção, como bens para garantia. "Mas os juros elevados e a oferta de crédito predatório atingem o mercado como um todo." Prova disso é que, de 2023 para cá, o calote no crédito rotativo e no cheque especial passou a avançar em ritmo maior entre os mais ricos, segundo a Febraban. Na faixa de 10 a 20 salários, a inadimplência subiu 14 pontos percentuais, chegando a 40,4% em julho deste ano. Na de 1 a 2 salários, a alta foi de cerca de 5 pontos, para quase 56%. "Como a capacidade da renda mais baixa de absorver esse tipo de crédito estava mais limitada, com nível bem maior de inadimplência, os bancos acabaram redirecionando parte da oferta para as classes mais altas", diz Luiz Fernando Castelli, gerente de economia da Febraban. Para ele, a alta no uso das modalidades emergenciais pelos que ganham acima de 20 salários pode refletir também a crise no agronegócio, já que muitos produtores tomam crédito como pessoa física e, em dificuldade, recorrem a modalidades caras. Na avaliação de Ricardo Barboza, economista-chefe da Zetta, associação que representa instituições financeiras digitais como Nubank e Mercado Pago, o debate do endividamento não tem um foco específico. "Faixas de renda diferentes, inclusive as mais elevadas, estão com endividamento crescente nos últimos anos", diz.