Relatório aponta falhas e baixa visibilidade em queda de helicóptero em MG

Avião cai em distrito de Ouro Preto — Foto: Bombeiros/Divulgação
Relatório do Cenipa revela que helicóptero decolou com visibilidade de 180 m, abaixo do mínimo exigido, antes de cair em Ouro Preto
O helicóptero Arcanjo 4, do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais, decolou com visibilidade estimada em apenas 180 metros antes de cair na Serra do Amolar, em Ouro Preto, matando seis pessoas em outubro de 2024. A conclusão consta no relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), divulgado nesta quarta-feira (28). O mínimo exigido para aquele tipo de voo era de 1 km de visibilidade.
Segundo a investigação, as condições meteorológicas adversas, a decisão de decolar e a avaliação inadequada dos riscos foram os principais fatores que contribuíram para o acidente, ocorrido em 11 de outubro de 2024. O Cenipa apontou ainda que a tripulação não reconheceu a baixa visibilidade como uma ameaça à segurança.
Morreram quatro bombeiros, um médico e um enfermeiro do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). As vítimas foram identificadas como o capitão e piloto Wilker Tadeu Alves da Silva; o tenente Victor Stehling Schirmer; os sargentos Welerson Gonçalves Filgueiros e Gabriel Ferreira Lima e Silva; o médico Marcos Rodrigo Trindade; e o enfermeiro Bruno Sudário França.
Vale destacar que a investigação do Cenipa tem caráter preventivo e não determina responsabilidades administrativas, civis ou criminais.
Reconstrução do acidente
A sequência do acidente foi reconstruída com base em dois vídeos: um gravado por uma pessoa em solo e outro feito por um dos ocupantes do helicóptero, que registrou todo o voo. A aeronave decolou de um trevo rodoviário por volta das 17h45.
Segundo o relatório, o helicóptero iniciou uma trajetória de subida e deslocamento para a frente, mas entrou em uma área com visibilidade progressivamente menor. Cerca de 30 segundos após a decolagem, os pilotos perderam o contato visual com o solo. Aos 55 segundos, uma superfície rochosa apareceu abruptamente nas imagens. Aproximadamente um segundo depois, o helicóptero atingiu a serra.
O Cenipa classificou a ocorrência como voo controlado contra o terreno, situação em que a aeronave colide com o solo ou com um obstáculo sem que a tripulação perceba o perigo a tempo de evitar o impacto.
Antes da queda, o helicóptero havia pousado no trevo para que o médico e o enfermeiro seguissem de viatura até o local do acidente com um avião monomotor. A equipe constatou a morte do piloto do avião e retornou à aeronave dos bombeiros. Com a piora das condições meteorológicas, os ocupantes permaneceram em solo à espera de uma melhora no tempo.
O comandante chegou a solicitar uma viatura para transportar parte da equipe de volta à base, em Belo Horizonte. De acordo com os procedimentos adotados pela unidade, alguns integrantes precisariam permanecer no local para guardar o helicóptero. Segundo a investigação, o comandante demonstrou desconforto com essa alternativa. Quando a viatura chegou ao trevo, porém, a aeronave já havia decolado.
O relatório identificou uma melhora na visibilidade pouco antes da partida, mas considerou que as condições ainda eram insuficientes para o voo. Para os investigadores, a mudança no tempo, somada à proximidade do pôr do sol, pode ter levado a equipe a interpretar aquele momento como a última oportunidade de retornar pelo ar.
Fragilidades na preparação e na organização
A investigação também identificou possíveis fragilidades na preparação dos profissionais e na organização das operações aéreas. Os dois pilotos não participaram do último ciclo de treinamento de gerenciamento de recursos da tripulação, realizado em 2023. A capacitação aborda aspectos como comunicação, coordenação e tomada de decisões em equipe. Segundo o Cenipa, a unidade não tratava esse treinamento como obrigatório, apesar da exigência regulamentar.
O documento também aponta que os pilotos acumulavam atividades operacionais e administrativas. No caso do comandante, havia relatos de sinais compatíveis com possível estafa nos dias anteriores ao acidente. A participação de fatores como treinamento, fadiga, sobrecarga de tarefas e coordenação entre os ocupantes foi classificada como indeterminada. Isso significa que os investigadores não conseguiram confirmar se esses elementos contribuíram para a queda.
Além disso, o Cenipa não encontrou evidências de que o gerenciamento de riscos exigido para a unidade estivesse efetivamente implementado à época do acidente. O relatório recomenda que a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) compartilhe os aprendizados da investigação com outras unidades aéreas públicas, especialmente em relação ao cumprimento dos treinamentos e à gestão de riscos. O órgão também orientou a agência a avaliar a possibilidade de realizar auditorias nos sistemas de gestão da segurança dessas unidades.
Após o acidente, segundo o documento, o Corpo de Bombeiros suspendeu temporariamente as operações aéreas e adotou medidas como a reorganização das escalas, a incorporação de uma psicóloga à equipe e a revisão de procedimentos e treinamentos.