Bullying afeta 4 em cada 10 adolescentes no Brasil, mostra levantamento

Sala de aula de uma escola da rede pública de Belo Horizonte - Foto: Divulgação/PBH
Especialista orienta pais a identificar sinais de bullying e explica como agir para proteger adolescentes vítimas de agressões
O adolescente que antes frequentava a escola sem resistência começa a se recusar a sair de casa, se afasta dos amigos e apresenta queda no rendimento escolar. Pode ficar mais irritado, demonstrar tristeza ou abandonar atividades que antes apreciava. Essas mudanças de comportamento podem indicar que o jovem está sofrendo bullying e exigem atenção dos pais e responsáveis. "Esses sinais podem ter outras causas, obviamente. Eles não são um diagnóstico de que esteja acontecendo bullying, mas são um caminho para uma conversa e investigação", explica Claudia Alaminos, educadora parental e autora do livro "Manual de sobrevivência para pais de adolescentes", que dedica um capítulo ao tema.
Alterações no sono e no apetite, queixas frequentes de dor de cabeça ou de barriga e preocupação excessiva após o uso do celular também merecem atenção. Danos inexplicados ao material escolar e ao uniforme podem ser outros indícios de sofrimento, segundo a especialista. A orientação é conversar com o adolescente sem transformar a investigação em um interrogatório, criando um ambiente em que ele se sinta seguro para contar o que está acontecendo. O problema atinge uma parcela expressiva dos estudantes brasileiros e ganha destaque nesta terça-feira (20), Dia Mundial de Combate ao Bullying.
Quatro em cada dez adolescentes de 13 a 17 anos afirmam já ter sido vítimas de bullying na escola, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em março deste ano. O levantamento mostra ainda que 27,2% dos estudantes sofreram humilhações provocadas por colegas duas ou mais vezes nos 30 dias anteriores à pesquisa. Em Minas Gerais, 28,3% dos estudantes relataram humilhações recorrentes, segundo dados da PeNSE 2024.
Apelidos ofensivos, insultos, ridicularização da aparência, disseminação de boatos e exclusão deliberada de colegas estão entre as manifestações mais comuns do bullying. De acordo com Claudia Alaminos, a exclusão social tem recebido atenção crescente, principalmente entre meninas. Os ataques pelas redes sociais, conhecidos como cyberbullying, também têm ganhado espaço. Os dados da PeNSE ajudam a dimensionar o papel da aparência nas agressões. Entre os estudantes que relataram provocações, 30,2% apontaram o rosto ou o cabelo como alvo, enquanto 24,7% mencionaram o corpo, segundo o IBGE. Para Claudia Alaminos, é importante diferenciar o bullying de um conflito pontual. A prática se caracteriza pela repetição das agressões, pela intenção de ferir e pelo desequilíbrio de poder entre os envolvidos. Essa desigualdade pode estar relacionada à força física, à popularidade ou à atuação de um grupo contra uma única pessoa. "Um conflito pontual não pode ser classificado como bullying, pois, para ser considerado bullying, existe a necessidade da repetição. Mas isso não significa que um conflito pontual não precise ser cuidado e não exija intervenção dos adultos", explica.
Ao descobrir que o filho está sofrendo bullying, a primeira atitude dos responsáveis deve ser ouvir o adolescente e levar o relato a sério. Frases como "é só não dar atenção" ou "procure outros amigos" podem minimizar o sofrimento e dificultar que ele volte a procurar ajuda. Claudia Alaminos explica que a vítima pode acreditar que é responsável pelas agressões por causa da própria aparência ou de alguma característica pessoal. Por isso, é fundamental deixar claro que ela não tem culpa pelo comportamento dos colegas e reconhecer o sofrimento relatado. Antes de tomar providências, os pais devem perguntar do que o adolescente tem medo, qual é a situação mais difícil e o que poderia ajudá-lo a se sentir protegido. A especialista recomenda registrar os episódios, guardar evidências e procurar a escola para estabelecer medidas concretas de proteção. A orientação é evitar confrontar impulsivamente os responsáveis pelos estudantes que praticam as agressões. Expor o caso publicamente, incentivar retaliações ou forçar encontros entre vítima e agressor também são atitudes contraindicadas. "É preciso sempre garantir para quem sofre o bullying que vai existir um adulto de referência e equilibrado para que procure nos casos em que o bullying acontece", afirma Claudia Alaminos. Quando o sofrimento persiste, a família também deve considerar a busca por atendimento psicológico.
A atenção não deve se limitar às vítimas. Os responsáveis também precisam estar atentos à possibilidade de o próprio filho praticar bullying, mesmo quando esse comportamento parece contrariar os valores ensinados em casa. Reclamações recorrentes da escola sobre humilhações, exclusão de colegas, ataques digitais e dificuldade de reconhecer a própria responsabilidade precisam ser levadas a sério. Claudia Alaminos recomenda nomear a conduta, explicar os efeitos que ela provoca em quem sofre as agressões e estabelecer limites e consequências proporcionais. A intervenção, porém, não deve recorrer à violência ou à humilhação do adolescente. Segundo a educadora, alguns jovens praticam bullying em busca de reconhecimento do grupo, tentando assumir uma posição de força ou popularidade. Compreender o que sustenta o comportamento pode ajudar os responsáveis a intervir, sem diminuir a responsabilidade de quem agride.
O enfrentamento do bullying também depende de uma atuação organizada das instituições de ensino. Para Claudia Alaminos, a resposta não pode depender apenas da iniciativa individual de um professor ou funcionário. É necessário estabelecer procedimentos conhecidos por toda a comunidade escolar, com definição de responsabilidades, registro dos episódios e acompanhamento dos casos. Entre as iniciativas citadas como exemplos de prevenção e enfrentamento estão o KiVa, programa desenvolvido na Finlândia, e o No Bully, dos Estados Unidos. As propostas incluem capacitação de educadores, acompanhamento das ocorrências e participação dos estudantes que presenciam as agressões. Esses colegas, que não são necessariamente vítimas nem agressores, podem contribuir para interromper a violência quando deixam de reforçar as humilhações e passam a apoiar quem sofre. "Os professores e funcionários precisam saber o que observar, porque muitas vezes as agressões são feitas de maneira muito sutil ou mesmo escondida do olhar do adulto", afirma Claudia Alaminos. Para ela, todos os profissionais da escola precisam saber como agir diante de um relato, a quem encaminhá-lo e como proteger o estudante. A instituição também deve acompanhar cada situação para verificar se as agressões diminuíram ou cessaram.