Bolsa Família gera 95% da redução de trabalho infantil registrada no IBGE

Foto: Agência Brasil
Brasil atinge menor nível histórico de trabalho infantil em 2025, com Bolsa Família respondendo por mais de 95% da redução registrada pelo IBGE
O trabalho infantil no Brasil atingiu em 2025 os menores níveis desde o início da série histórica, iniciada em 2016, segundo dados divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) com base na Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua). Apesar da queda, o país descumpriu a meta de erradicação prevista nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, que estabelecia o fim do trabalho infantil em todas as suas formas até 2025. A proporção de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos em situação de trabalho infantil recuou de 4,3% em 2024 para 4% em 2025, uma redução de 0,3 ponto percentual. Em números absolutos, o grupo passou de 1,65 milhão para quase 1,5 milhão de pessoas, uma queda de 9,2%, equivalente a 151 mil crianças e adolescentes a menos. Tanto o percentual de 4% quanto o total de 1,5 milhão representam os menores valores já registrados na série, superando as mínimas anteriores de 2023, quando os indicadores eram de 4,2% e 1,62 milhão.
A queda foi mais expressiva nos lares beneficiários do Bolsa Família. Nesses domicílios, o número de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos em condição de trabalho infantil recuou 20,1%, passando de 717 mil em 2024 para 573 mil em 2025, uma redução de 144 mil pessoas. Segundo o IBGE, os beneficiários do programa responderam por mais de 95% da redução total do trabalho infantil no período — 144 mil de um total de 151 mil. Nos endereços atendidos pelo Bolsa Família, a proporção de crianças e adolescentes nessa condição encolheu 0,8 ponto percentual, saindo de 5,2% em 2024 para 4,4% em 2025. Embora essa taxa ainda esteja 0,4 ponto percentual acima da média nacional (4%), a diferença vem diminuindo ao longo dos anos: era de 2,1 pontos percentuais no início da pesquisa, em 2016.
O analista do IBGE Gustavo Geaquinto Fontes afirmou que a queda dos números pode estar associada a uma combinação de fatores, incluindo os impactos do Bolsa Família. Ele também citou a implementação de políticas de combate ao trabalho infantil e os possíveis reflexos da recuperação do emprego e da renda dos responsáveis pelas crianças. Em relação ao Bolsa Família, o técnico destacou que o auxílio exige das famílias beneficiárias compromissos com a frequência escolar dos menores. Dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social indicam que o programa atendia 18,7 milhões de famílias em dezembro de 2025, número 10,1% menor do que o registrado no mesmo mês de 2024 (20,8 milhões). O site do ministério associa essa redução a aumentos de renda de outras fontes, à modernização do Cadastro Único e à atualização de regras de transição. Um estudo recente da FGV (Fundação Getulio Vargas) aponta que o Brasil gerou saldo de quase 4,6 milhões de empregos formais para beneficiários do Bolsa Família entre janeiro de 2023 e julho de 2026.
O IBGE utiliza o conceito da OIT (Organização Internacional do Trabalho) para definir trabalho infantil: atividades perigosas e prejudiciais à saúde e ao desenvolvimento mental, físico, social ou moral das crianças, além de atividades que interferem na escolarização. Na Pnad, são considerados trabalhadores infantis aqueles que desempenham atividades econômicas ou de autoconsumo — como criação de animais, caça e cultivos para o próprio domicílio. A legislação brasileira proíbe o trabalho até os 13 anos. Na faixa de 14 a 15 anos, o trabalho só é permitido na condição de aprendiz. Entre 16 e 17 anos, pode ocorrer apenas com carteira assinada, sendo vedadas atividades insalubres e em horário noturno. O trabalho doméstico não remunerado e o cuidado de pessoas não entram na definição de trabalho infantil. Em 2025, 42,1% da população de 5 a 17 anos — cerca de 15,9 milhões — realizava tarefas domésticas não pagas ou de cuidado, como lavar louça, roupa ou limpar a casa.
Uma das questões investigadas pela Pnad é a chamada Lista TIP, que classifica as piores formas de trabalho infantil, com maior risco para as crianças. Entre os exemplos estão a operação de máquinas agrícolas, aplicação de agrotóxicos, escavações, construção civil pesada e manuseio de produtos químicos. Em 2025, 525 mil crianças e adolescentes de 5 a 17 anos estavam submetidos a tarefas da Lista TIP, a menor estimativa da série, com queda de 6,3% em relação a 2024, quando o número era de 560 mil.
Entre a população em trabalho infantil, 86,9% frequentava a escola em 2025, taxa 10,6 pontos percentuais menor do que a registrada entre a população total de 5 a 17 anos (97,5%). Na faixa de 16 a 17 anos, a proporção de estudantes entre os trabalhadores infantis foi de 79,6%, inferior aos 89,6% observados na população total da mesma faixa etária. Há predomínio masculino no trabalho infantil: em 2025, os meninos representavam 65,4% das pessoas de 5 a 17 anos nessa condição. No recorte de cor ou raça, pretos e pardos correspondiam a 67% do total, proporção superior à participação desses grupos na população total de 5 a 17 anos (59,7%). A região Norte registrou o maior percentual de crianças e adolescentes em trabalho infantil (6,3%), enquanto o Sudeste apresentou o menor índice (3,3%). Quanto à jornada, 38,2% dos trabalhadores infantis tinham cargas de até 14 horas semanais, enquanto 21,4% trabalhavam 40 horas ou mais por semana.
A renda média dessas crianças e adolescentes foi de R$ 936 por mês, valor inferior ao salário mínimo de 2025 (R$ 1.518). A série histórica mostra que o número de trabalhadores infantis caiu de 2,1 milhões em 2016 para 1,8 milhão em 2019, antes da pandemia. Não houve coleta de dados em 2020 e 2021 devido às restrições impostas pela Covid-19. O contingente cresceu para 1,9 milhão em 2022, último ano do governo Jair Bolsonaro (PL), quando a pesquisa foi retomada. O indicador voltou a cair em 2023, oscilou para cima em 2024 e recuou novamente em 2025. Em nota, a Fundação Abrinq alertou que a redução dos indicadores não deve ser confundida com a superação do problema. A entidade defende a continuidade de políticas públicas de proteção, o fortalecimento da fiscalização e a garantia de acesso e permanência na escola. "A sociedade também tem um papel importante ao não naturalizar práticas que violam os direitos", afirma a fundação. "Combater o trabalho infantil não significa impedir o acesso dos adolescentes ao mundo do trabalho. A aprendizagem profissional e outras formas de inserção permitidas por lei devem ocorrer de maneira protegida, segura e compatível com a idade e os direitos dos jovens."