Americanas teve governança sequestrada, diz ex-diretor

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Ex-CEO Leonardo Coelho afirma que dados falsos foram inseridos no sistema da Americanas para enganar conselheiros, auditores e bancos
A governança das Lojas Americanas "foi sequestrada" e alimentada com dados falsos dentro do próprio sistema da empresa. A afirmação é do ex-CEO Leonardo Coelho, feita no programa Conselho dos Conselhos, do Canal UOL. Segundo ele, a estrutura de governança era bem avaliada externamente, mas falhou porque conselheiros, auditorias e bancos receberam informações adulteradas. Coelho explicou que, na sua visão, a fraude só pôde ser compreendida com clareza meses após o primeiro comunicado ao mercado. Para ele, os dados eram manipulados diretamente no sistema interno da companhia, o que permitiu que a irregularidade passasse despercebida por diversos agentes responsáveis pela fiscalização. "A gente tinha uma estrutura de governança muito boa, certificada, aprovada por todo mundo, mas ao mesmo tempo reconhecer que essa estrutura de governança foi sequestrada e colocada, alimentada com dados falsos. Dados que eram fraudados no sistema mesmo, no ERP mesmo, para passar informações para diversos outros stakeholders que fazem parte do desenho de governança, como auditorias internas, externas, como bancos, como conselho, informações que não eram corretas", afirmou Leonardo Coelho.
O ex-CEO sustentou que a própria lógica do esquema dificultou a identificação da fraude "na época, com a incerteza e com a falta de informação". Ele também esclareceu que o "risco sacado", citado no comunicado de 11 de janeiro de 2023, não era a fraude em si, mas funcionava como um elemento que mascarava o problema real. "O risco sacado não é a fraude da Americanas. O risco sacado, eu costumo dizer que é quase um antídoto para a fraude da Americanas, que foi uma fraude de rentabilidade, de VPC, do rebate, que é tão comum no varejo", disse Coelho.
Na leitura do ex-CEO, o "ineditismo" do caso estava na forma como o modelo não "bateu no caixa" para quem acompanhava os números, já que o risco sacado "alimentava esse modelo" sem aparecer como endividamento. "Para quem estava olhando, (...) está tudo normal", afirmou. Coelho também relatou que houve questionamentos dentro do Conselho sobre a existência de risco sacado nas operações da Americanas. Segundo ele, a conselheira Vanessa Lopes perguntou diretamente ao management, inclusive usando sinônimos do termo, e recebeu respostas negativas. "A companhia tem risco sacado? A companhia faz risco sacado? E a resposta dos fraudadores foi que não", relatou Coelho. O ex-CEO acrescentou que a pergunta ficou registrada. "Está documentado", disse, ao contar que a conselheira repetiu o questionamento em mais de uma reunião e voltou a ouvir que a empresa não realizava esse tipo de operação.
Ao abordar as medidas adotadas após o fato relevante, Coelho afirmou que a decisão de criar um Comitê Independente de Investigação partiu do Conselho e avaliou a escolha como correta. No entanto, apontou duas falhas no processo: a ausência de um teto de gastos e a falta de um prazo definido para a entrega do relatório. O ex-CEO também contestou rumores de que o Comitê de Auditoria não teria atas. "Tinha atas sim", declarou, afirmando que a empresa contava com mecanismos formais de registro, embora as atas não fossem públicas. A Justiça acolheu a denúncia do Ministério Público Federal e tornou réus envolvidos na fraude que levou a Americanas a pedir recuperação judicial.