Master tratava contrato com escritório ligado a Moraes como "o mais importante"

Julgamento da Ação Penal 2696 – Núcleo 3 – 18/11/2025
Mensagens apreendidas pela PF mostram que Vorcaro tratava repasses ao escritório de Viviane Moraes como "o mais importante" do banco
Mensagens apreendidas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, revelam que o empresário tratava como prioridade os pagamentos ao escritório Barci de Moraes, ligado à advogada Viviane Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, do STF.
Em uma das conversas, cujo sigilo foi levantado na terça-feira (1º), o ex-deputado e ex-ministro Fábio Faria diz a Vorcaro que "o careca não pode atrasar", em referência ao repasse de R$ 3,42 milhões feito ao escritório.
O relatório da PF reproduz a sequência das conversas e dos pagamentos. Em 15 de março de 2024, Faria cobra Vorcaro sobre o repasse. Logo em seguida, o empresário encaminha uma mensagem ao funcionário Angelo Silva, responsável pela operação financeira.
O documento registra, na sequência, o comprovante de uma transferência de R$ 3.422.268,14 para a conta do escritório de Viviane Moraes no Itaú.
A referência a "careca" aparece em outros diálogos entre Faria e Vorcaro. Em janeiro de 2024, por exemplo, Faria informa que havia confirmado um jantar com "o Careca" para 2 de fevereiro.
Na legenda da imagem reproduzida no relatório, a própria PF identifica a conversa como relacionada a Alexandre de Moraes.
O pagamento integrava um contrato firmado entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes. O acordo previa R$ 3 milhões líquidos por mês durante 36 meses, o equivalente a R$ 108 milhões líquidos ao longo de todo o período.
Metadados do contrato chamam atenção
A investigação encontrou ainda registros que chamaram a atenção dos policiais sobre a elaboração do contrato. Segundo o relatório, a versão final da minuta teve como última modificação um usuário identificado nos metadados como "Ministro Alexandre de Moraes", em 15 de janeiro de 2024, às 23h04.
O relatório, contudo, registra os metadados como elemento encontrado na análise e não apresenta, nesse trecho, uma conclusão sobre quem efetivamente realizou a alteração ou sobre eventual irregularidade relacionada ao fato.
A cobrança de Faria ocorre em um contexto mais amplo de prioridade dada aos pagamentos. Segundo a PF, em conversas relacionadas ao contrato, Vorcaro orientava funcionários a não atrasar o repasse ao escritório.
O empresário chegou a classificar aquele pagamento como "o mais importante" para o banco.
A sequência analisada pelos investigadores mostra a cobrança, a orientação interna e, posteriormente, a efetivação da transferência de R$ 3,42 milhões.
A expressão "careca" também aparece em conversas sobre encontros presenciais. Em outro trecho do relatório, Faria encaminha a Vorcaro uma mensagem de um interlocutor identificado como "Alexandre", propondo um encontro para o dia seguinte, às 19h30.
Depois, Faria confirma o horário do encontro com "Careca". No dia seguinte, em conversa com a filha, Vorcaro afirma que estava "com alexandre moraes".
Há ainda registros anteriores, de janeiro de 2024, em que Faria utiliza o emoji de um homem careca para se referir a uma pessoa não identificada nominalmente.
Poucos dias depois, o mesmo interlocutor aparece nas conversas como "o Careca", em referência a um jantar que a PF associa a Moraes.
O material integra o relatório apresentado pela Polícia Federal ao STF no âmbito da investigação sobre a atuação de Daniel Vorcaro e sua rede de contatos.
Os documentos mostram a existência do contrato, os pagamentos, as conversas sobre a prioridade dos repasses e referências a Moraes pelo apelido "Careca".
Eles, por si só, não estabelecem que Moraes tenha cometido crime ou que tenha participado de qualquer irregularidade.
O relatório reúne elementos obtidos pela PF e os apresenta ao Supremo para avaliação no curso da investigação.
O ministro e o STF foram procurados para comentar as provas, mas ainda não houve manifestação. O ex-ministro Fábio Faria também foi procurado, mas ainda não respondeu.