Funcionárias são afastadas para receber monges e caso fecha Torre Eiffel

Torre Eiffel - Foto: Dimitar Dilkoff
Visita de grupo hindu BAPS gerou greve e investigação após trabalhadoras serem retiradas de seus postos no monumento parisiense
No último sábado, trabalhadoras da Torre Eiffel receberam uma ordem incomum: deixar seus postos durante uma visita privada de cerca de 100 membros de uma organização hindu. O motivo foi a presença de monges do grupo BAPS (Bochasanwasi Akshar Purushottam Swaminarayan Sanstha), que seguem votos de celibato incluindo a proibição de contato com mulheres.
O episódio desencadeou uma greve que fechou o monumento na segunda-feira e abriu uma investigação pelas autoridades francesas. O caso expõe tensões entre a expansão global de grupos religiosos e as normas trabalhistas de igualdade de gênero em países ocidentais.
A Société d"Exploitation de la tour Eiffel, empresa responsável pela administração do monumento, admitiu que a delegação solicitou interações limitadas com mulheres e reconheceu que tais condições não deveriam ter sido aceitas, pedindo desculpas repetidas vezes pelo ocorrido.
A representante sindical Diane Davoine descreveu a reação das trabalhadoras como de humilhação pelo tratamento recebido. As funcionárias fizeram greve na segunda-feira para abrir diálogo com a administração e garantir que mulheres nunca sejam tratadas dessa forma novamente na empresa.
Os monges do BAPS e suas restrições religiosas
Os sadhus do BAPS fazem votos que incluem celibato e proibição de contato com mulheres. Essas restrições aplicam-se exclusivamente aos monges, não a todos os seguidores da denominação.
A regra religiosa específica dos sadhus entrou em conflito direto com as normas trabalhistas francesas durante a visita ao monumento parisiense. O grupo possui templos em diversos países e está associado a práticas conservadoras dentro do hinduísmo.
O BAPS também carrega um histórico controverso. Em 2021, uma ação judicial nos Estados Unidos acusou o grupo de tráfico de trabalhadores de baixa casta da Índia, que teriam trabalhado em condições precárias e com remuneração irrisória na construção de templos em estados como Nova Jersey, Califórnia, Texas, Geórgia e Illinois.
Trabalhadores acreditam que dois colegas morreram de doença pulmonar evitável causada por inalação de poeira de sílica durante as obras no templo de Nova Jersey, considerado a maior construção do tipo fora da Índia.
Conexão política com o governo indiano
O grupo BAPS mantém relação próxima com o primeiro-ministro indiano Narendra Modi e seu partido governista BJP. Um dia após a polêmica na Torre Eiffel, Modi participou por videoconferência da inauguração de um novo templo BAPS em Paris, saudando a construção como um marco nas relações culturais entre Índia e França.
Essa proximidade entre organizações religiosas indianas e o governo Modi facilita a expansão global desses grupos, que frequentemente levam consigo práticas culturais que colidem com legislações ocidentais de igualdade.
As autoridades francesas reagiram com firmeza ao episódio. O prefeito de Paris, Emmanuel Gregoire, declarou que a insatisfação das funcionárias é legítima e anunciou uma investigação rápida do caso, afirmando ser inaceitável tolerar tais condições.
Gregoire enfatizou que a igualdade entre mulheres e homens jamais pode parar ao pé dos monumentos históricos, devendo ser aplicada em todos os lugares e para todas as pessoas da cidade.
O primeiro-ministro francês Gabriel Attal reforçou o posicionamento institucional ao declarar: "Na França, nenhuma cultura, nenhuma crença, nenhum culto, nada nem ninguém pode ditar às mulheres qual é o seu lugar."
O templo BAPS de Paris divulgou um comunicado oferecendo desculpas sinceras a qualquer pessoa que tenha sido ferida ou prejudicada pela situação. A declaração, no entanto, não abordou se o grupo efetivamente solicitou a remoção das funcionárias.
O BAPS não respondeu imediatamente à solicitação de esclarecimento sobre as circunstâncias que levaram à retirada das trabalhadoras de seus postos durante a visita privada à Torre Eiffel.