Retomada de diálogo sobre tarifaço anima governo Lula em busca de acordo

Foto: Ricardo Stuckert/PR
Após reunião entre autoridades dos dois países, Brasil e EUA concordam em retomar tratativas sobre o tarifaço e avançar em reuniões técnicas
A retomada das negociações sobre o tarifaço imposto pelos Estados Unidos a produtos brasileiros pode dar novo fôlego ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas tratativas para alcançar um acordo com os norte-americanos.
O diálogo foi reaberto após uma reunião entre autoridades dos dois países realizada na segunda-feira (31/8), encerrando um período de mais de um mês sem conversas sobre o tema.
A videoconferência de 40 minutos reuniu o Representante do Escritório do Comércio dos Estados Unidos (USTR), Jamieson Greer, responsável pela política tarifária de Donald Trump, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Márcio Elias Rosa, e o chanceler brasileiro, Mauro Vieira.
O encontro marcou a retomada formal das conversas sobre o tarifaço, após os dois países não discutirem o tema desde 15 de julho, quando os EUA aplicaram 25% de taxas a produtos brasileiros.
Após o primeiro contato, os dois países concordaram em manter as conversas.
"As partes concordaram em voltar a reunir-se em nível ministerial, em data oportuna, a fim de revisar o progresso alcançado nas tratativas bilaterais e nas reuniões técnicas que serão realizadas nas próximas semanas", informou o Itamaraty após a ligação.
Embora uma nova reunião ainda não tenha sido marcada e os avanços concretos sejam limitados até este ponto, membros do governo brasileiro demonstraram otimismo com o resultado deste primeiro contato.
Em nota, o governo brasileiro afirmou "estar aberto ao diálogo com as autoridades norte-americanas".
"O governo brasileiro reitera que seguirá perseguindo um acordo equilibrado e mutuamente benéfico com os EUA, pautando-se sempre pelo respeito ao diálogo e à soberania nacional", diz a nota.
A ausência de avanços concretos foi minimizada por interlocutores do governo brasileiro, que defenderam que o telefonema tinha caráter exploratório, com o objetivo de avaliar as possibilidades de diálogo sobre as relações comerciais bilaterais.
Em entrevista coletiva, Márcio Elias Rosa afirmou ter havido um "sinal verde" do governo norte-americano para retomar as negociações sobre o tarifaço.
O ministro declarou ainda que, durante a conversa, Greer informou que partiu do próprio presidente Donald Trump o pedido para que as tratativas fossem retomadas.
Márcio Elias Rosa adiantou também que, a partir dos próximos dias, os dois países devem aprofundar negociações sobre temas mais específicos.
"Eu continuo mais otimista do que estava na semana passada, sobretudo agora, depois de telefonemas do presidente Lula com Trump. Parece haver, de fato, uma orientação clara do governo americano para que haja um acordo com o Brasil. Um acordo que reequilibre a relação, que equilibre a política tarifária", destacou o ministro.
A estratégia do Palácio do Planalto
A conversa de segunda-feira aconteceu após uma ligação entre Lula e Donald Trump, realizada no dia 21 de agosto.
O presidente brasileiro fez o telefonema para tratar temas da agenda bilateral e da política internacional, incluindo a política tarifária do republicano e as alíquotas aplicadas contra o Brasil.
Durante a conversa, Trump concordou com a retomada do diálogo entre os dois países sobre as taxas.
Horas após o telefonema, Greer ligou para Márcio Elias Rosa e os dois combinaram a videoconferência para discutir as alíquotas.
O contato direto com Donald Trump foi uma estratégia adotada pelo Palácio do Planalto para contornar uma eventual interferência do Departamento de Estado nas tratativas com o Brasil.
Comandada por Marco Rubio, a pasta é vista como uma ala mais ideológica da Casa Branca e com especial proximidade com a família Bolsonaro no Brasil.
A avaliação de interlocutores do presidente Lula é que Trump nutre afinidade pelo petista, enquanto Rubio já fez críticas ao mandatário brasileiro e chegou a responsabilizá-lo pela imposição do tarifaço contra o Brasil.
O governo brasileiro, por outro lado, nega as acusações e aponta vieses políticos na decisão.
Ao longo do último ano, o governo brasileiro vinha se queixando da falta de disposição dos Estados Unidos para buscar uma solução negociada.
Membros do Palácio do Planalto consultados sob reserva afirmam que as negociações para evitar o tarifaço foram marcadas por sucessivas cobranças para que o Brasil fizesse concessões, sem que houvesse, em contrapartida, perspectivas concretas de ganhos para o país.
As taxas e suas justificativas
Os Estados Unidos implementaram duas taxas contra o Brasil nos últimos meses: uma de 25%, baseada em uma investigação realizada pelo USTR direcionada a uma série de produtos brasileiros, e outra de 12,5%, que alcança mais de 60 países e a União Europeia.
Somadas, as taxas podem afetar setores da indústria brasileira em até 37,5%.
Para justificar a aplicação da maior taxa do tarifaço, o USTR alegou que o Brasil adota práticas comerciais desleais que oneram importadores norte-americanos.
Entre as práticas citadas, a pasta mencionou o aumento do desmatamento ilegal no Brasil, acordos internacionais preferenciais e fez críticas ao Pix.
O Brasil entrou no radar do USTR em julho de 2025, quando o órgão abriu uma investigação para apurar supostas práticas comerciais desleais.
Desde o anúncio, o Brasil iniciou uma intensa negociação com os Estados Unidos com o objetivo de reverter as tarifas.
As conversas, contudo, não avançaram para um consenso.
Embora a investigação dos EUA seja baseada em critérios técnicos da Seção 301 da Lei de Comércio norte-americana, o governo brasileiro acredita que houve viés político na decisão, sobretudo pelo engajamento da Casa Branca com políticos da oposição no Brasil.
Na avaliação de interlocutores do governo, as tarifas de 25% possuem margem para serem negociadas ou até mesmo revertidas, e é com foco nessa alíquota que o governo Lula aposta no novo diálogo com a Casa Branca.
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