SUS oferecerá cirurgia dupla para catarata e glaucoma

© Fernando Frazão/Agência Brasil
A partir de março de 2027, o SUS disponibilizará procedimento que trata catarata e glaucoma ao mesmo tempo, com menos riscos e maior economia
Uma cirurgia capaz de tratar simultaneamente catarata e glaucoma estará disponível no Sistema Único de Saúde (SUS) a partir de março de 2027. O Ministério da Saúde oficializou a incorporação do procedimento em portaria publicada no "Diário Oficial da União" no dia 17 de setembro, com prazo de até 180 dias para efetivar a oferta na rede pública. O novo procedimento será destinado a pacientes com catarata e glaucoma primário de ângulo aberto em estágio inicial ou moderado, desde que controlado por colírios. As duas doenças afetam a visão de formas distintas: a catarata ocorre quando o cristalino, a lente natural do olho, perde transparência e fica opaco, dificultando a passagem da luz.
O tratamento é cirúrgico, com a retirada da estrutura comprometida e sua substituição por uma lente artificial. Já o glaucoma é um conjunto de doenças que danificam progressivamente o nervo óptico, responsável por transmitir ao cérebro as imagens captadas pela retina. Um dos principais fatores de risco é o aumento da pressão intraocular, causado quando o líquido do interior do olho não é drenado de forma adequada. Sem tratamento, o quadro pode resultar em perda permanente da visão. O glaucoma primário de ângulo aberto responde por cerca de 60% dos diagnósticos no país, segundo a Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS). Nesse tipo, a via de drenagem permanece aberta, mas o escoamento fica prejudicado. Na rede pública, o tratamento costuma começar com colírios para reduzir a pressão ocular. Quando os medicamentos não são suficientes ou causam intolerância, recorre-se a procedimentos a laser ou cirurgias. Para casos leves a moderados, uma das opções já disponíveis no SUS é o implante de drenagem oftalmológico, conhecido como iStent.
O novo procedimento permite tratar o glaucoma durante a própria cirurgia de catarata, por meio de duas técnicas incorporadas. Na goniotomia excisional, o cirurgião faz uma pequena incisão na córnea e remove parte do tecido que dificulta a drenagem. Na trabeculotomia transluminal, um microcateter ou fio cirúrgico é introduzido no canal natural de drenagem do olho para ampliar a passagem. "A escolha (das técnicas) depende da anatomia do olho, do perfil do glaucoma, da pressão que se pretende alcançar e da avaliação do cirurgião. Não existe uma técnica universalmente superior para todos os pacientes", afirma Álvaro Dantas, cirurgião ocular e diretor médico do Hospital Ícone da Visão.
Ambas as técnicas serão realizadas em conjunto com a facoemulsificação, o método padrão para catarata, no qual o cristalino opaco é fragmentado, retirado por uma microabertura e substituído por uma lente intraocular. Segundo o Ministério da Saúde, a abordagem combinada é menos invasiva, oferece recuperação mais rápida, reduz riscos de complicações e garante melhor controle da pressão intraocular. Outro benefício potencial é "reduzir a dependência de colírios", segundo Dantas. "Entretanto, isso não significa que todos os pacientes deixarão de usar medicação. O acompanhamento médico continua sendo indispensável". A medida também foi avaliada sob o aspecto financeiro. De acordo com a Conitec, a goniotomia excisional representa uma economia de aproximadamente R$ 18 mil por ano de vida saudável ganho em relação ao iStent, com uma redução de custos estimada em R$ 22,4 milhões já no primeiro ano de adoção. Com a incorporação, o SUS amplia o acesso a um tratamento mais eficiente e menos oneroso para pacientes que convivem com as duas condições simultaneamente.