Padre Fábio de Melo lança livro em BH

Foto: TVE/Reprodução
Padre Fábio de Melo apresenta novo livro e disco em Belo Horizonte em evento gratuito no TCE-MG nesta terça-feira
Padre, escritor, cantor, professor universitário e palestrante, Padre Fábio de Melo tornou-se um nome tão presente no imaginário coletivo brasileiro que virou personagem da cultura pop nacional. Natural de Formiga, no Centro-Oeste de Minas Gerais, sua formação religiosa teve início na segunda metade dos anos 1990. Na música, ele se aproxima de três décadas de trajetória marcada pelo sucesso comercial, enquanto na literatura acumula 20 anos de produção igualmente expressiva, com mais de 3,5 milhões de livros vendidos.
Nesta terça-feira (15/9), Padre Fábio de Melo encontra o público em Belo Horizonte em mais uma edição do projeto Sempre um Papo TCE Cultural. O evento, realizado no auditório do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE-MG), marca o lançamento do novo livro do sacerdote, "A Terra Que Ninguém Nos Prometeu" (Editora Record). Na mesma ocasião, ele também fará a divulgação do disco "O Beijo Que Vós Me Nordestes", lançado em maio pela gravadora Biscoito Fino. O novo livro de Padre Fábio de Melo é uma versão atualizada de "Orfandades – O Destino das Ausências" (2012), acrescida de oito contos inéditos, totalizando 26 histórias que giram em torno da experiência da perda, das despedidas, dos abandonos, dos desencontros e da busca permanente de sentido diante daquilo que falta na experiência humana. "Eu abordo o desamparo humano em muitas dimensões. Falo das ausências com as quais nós nos adaptamos e os contos novos também giram em torno das expectativas que ilusoriamente nós criamos em relação ao que nós não podemos esperar dos outros, tampouco da vida. Acredito que o livro seja um contraponto a essa filosofia da felicidade a todo custo, ainda que para sermos felizes nós tenhamos que abrir mão da verdade, da crueza da realidade", pondera o autor.
O processo de escrita de Padre Fábio de Melo nasce sempre da observação. Ao longo de 25 anos na Igreja Católica, o ofício religioso lhe permitiu acompanhar de perto experiências e histórias que muitas vezes permanecem escondidas — aquelas faces da vida que as pessoas nem sempre estão dispostas a revelar. É desse lugar de escuta que surgem personagens e histórias literárias capazes de incorporar dores, desencantos e os caminhos que cada um encontra para sobreviver. Segundo Padre Fábio de Melo, esse olhar construído entre experiências próprias, alheias e coletivas inevitavelmente influencia sua escrita: "Acredito que a experiência literária gira em torno da maneira como nós sentimos o mundo, mas também nós pegamos emprestado da maneira como outras pessoas veem o mundo. O (novo) livro é o resultado daquilo que eu vi, mas que também vi pelos olhos de outros".
A estreia de Padre Fábio de Melo na literatura ocorreu há 20 anos, com "Tempo: Saudades e Esquecimentos". Desde então, ele se tornou um dos autores mais expressivos da história do mercado editorial brasileiro. O escritor afirma que o leitor que se identifica com sua escrita também aprecia "os avessos da humanidade". Padre Fábio de Melo diz gostar de descer aos subterrâneos da condição humana e acredita que o escuro também ilumina. É nesse território que ele se coloca para observar o mundo e investigar questões existenciais, fontes permanentes de inspiração para seus livros. "Mas sempre trago aquilo que vi no escuro com a clareza da esperança", sublinha. "Acredito que o leitor queira justamente chegar ao subterrâneo da própria dor, mas sair de lá com alguma esperança, com algum humor, mesmo que a gente não consiga resolver o problema, mas que pelo menos a gente consiga rir dele. Há muitos personagens no novo livro que despertam isso. Tem um humor na maneira como lido com a fragilidade. Acho que isso seja um fator de identificação que faz com que o leitor queira estar comigo", completa Padre Fábio de Melo.
Em Belo Horizonte, Padre Fábio de Melo também fará a divulgação de "O Beijo Que Vós Me Nordestes". O disco-tributo reúne canções de cantores e compositores nordestinos, como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Luiz Gonzaga, com participações de Maria Rita, Milton Nascimento, Mônica Salmaso, Roberta Sá, Paula Fernandes e o próprio Gil, entre outros. O título vem de um verso de "Béradêro", de Chico César, que também integra o álbum. O disco foi lançado em maio deste ano, mas sua origem remonta a 2017, quando Padre Fábio de Melo precisou enfrentar uma severa crise de depressão ao mesmo tempo em que lidava com a síndrome do pânico. A canção "Quem Me Levará Sou Eu", de Dominguinhos e Manduka, foi decisiva nesse processo. Depois de quase 15 dias trancado no quarto sem conseguir sair, mesmo com amigos presentes em sua casa querendo ajudá-lo, ouvir a canção por acaso representou uma epifania.
"Há momentos da nossa vida que, por mais que o outro queira nos acompanhar, não é possível. Quando digo "quem me levará sou eu", estou fazendo a partir da antropologia cristã de acreditar que Deus mora em mim. Ele faz o movimento inicial, eu apenas respondo. Quando digo "quem me levará sou eu", estou, de alguma forma, dizendo, nos avessos dessa afirmação, que Deus me leva comigo, mas quem precisa dar o passo sou eu", reflete o mineiro. Estar há tanto tempo sob os holofotes da mídia e no alvo do julgamento da sociedade traz consequências emocionais ao sacerdote. Em entrevistas, Padre Fábio de Melo já revelou que a vida pública o fez adoecer. Por ser uma personalidade pública, ele experimenta sentimentos contraditórios vindos do público — ódio, amor, críticas e defesas apaixonadas dos fãs. "Nós temos bilhões de pessoas no mundo, ninguém é obrigado a gostar de ninguém. Levo isso para a minha vida", diz, firme. Padre Fábio de Melo quer evoluir, amadurecer, perder as ilusões e se "desencantar até o fim". E explica: "O livro "A Terra que Ninguém Nos Prometeu" é uma sessão de desencantamento e é bom, porque só os desencantados se encantam verdadeiramente. Somente depois do desencanto é que a gente pode amar alguém. Estou neste momento da minha vida bastante desencantado e pronto para me encantar com aquilo que realmente interessa".