Netanyahu se apresenta como protetor de Israel

Netanyahu. Fonte: World Economic Forum via Flickr.
Premier israelense tenta recuperar credibilidade em segurança após ataque do Hamas em 2023, às vésperas das eleições de outubro
O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu tenta se manter no poder nas eleições de 27 de outubro utilizando a mesma estratégia que o sustentou por décadas: apresentar-se como o único líder capaz de garantir a segurança de Israel em uma região hostil. No entanto, quatro semanas antes do pleito, ele enfrenta dificuldades para recuperar sua credibilidade em matéria de segurança, abalada pelo ataque surpresa do Hamas ao sul do país em 7 de outubro de 2023 — uma das piores falhas de segurança da história israelense. A eleição marca o primeiro teste nas urnas desde aquele dia, o mais sangrento da história de Israel e o pior ataque contra judeus desde o Holocausto, perpetrado por um grupo militante palestino que pegou de surpresa as Forças Armadas mais poderosas do Oriente Médio. Segundo a maioria das pesquisas de opinião, o partido Likud, de Netanyahu, deve perder cerca de um terço de suas cadeiras no Parlamento.
O slogan oficial do Likud para esta eleição é "Netanyahu não se rende". Em discursos e vídeos curtos de campanha, o premier retrata seus rivais políticos como esquerdistas fracos, que carecem de determinação para travar guerra contra os inimigos de Israel e de coragem para enfrentar críticos no exterior. Nas últimas semanas, porém, Netanyahu foi forçado a negar reportagens da mídia de que parceiros israelenses no Oriente Médio o teriam alertado sobre um possível ataque do Hamas — alegações prontamente aproveitadas por seus adversários políticos. Yohanan Plesner, presidente do Instituto de Democracia de Israel (IDI), entidade apartidária, avalia que a capacidade de Netanyahu de se apresentar como o mais bem preparado para conduzir o país em questões de segurança nacional e diplomacia é uma grande dúvida. "Isso é algo novo. O Sr. Netanyahu já concorreu a eleições, mas nunca depois de ter supervisionado uma falha de segurança tão dramática", disse Plesner. "É, em muitos aspectos, um referendo sobre o atual governante, sua responsabilidade pelo fracasso, a responsabilidade do governo e a forma como conduziram a resposta israelense."
O ataque do Hamas desencadeou uma guerra em várias frentes, na qual as Forças Armadas de Israel obtiveram algum sucesso contra o grupo palestino e seus aliados, o Hezbollah e o Irã, mas alcançaram poucos ganhos estratégicos. Netanyahu afirma que o conflito transformou e continuará a transformar a região. No entanto, a conduta de Israel na guerra em Gaza, com dezenas de milhares de palestinos mortos e grande parte do enclave em ruínas, aprofundou o isolamento diplomático do país. Dezenas de delegados nas Nações Unidas deixaram a sala quando Netanyahu iniciou seu discurso na Assembleia Geral na semana passada. O apoio a Israel recuou até mesmo entre seu aliado mais importante, os Estados Unidos. Na última campanha de Netanyahu, em 2019, o então presidente Donald Trump aparecia apertando a mão do premier em outdoors eleitorais. Desta vez, a imagem do presidente norte-americano está ausente dos vídeos do Likud.
Ainda assim, Netanyahu não abandonou as táticas que o mantiveram no poder quase ininterruptamente desde 2009. Uma fonte próxima ao premier disse que ele encara todas as eleições como se fosse perder — e que essa postura foi uma das razões pelas quais frequentemente venceu, mesmo quando as probabilidades estavam contra ele. Outra fonte a par de sua campanha afirmou que a equipe parece concentrada, sem sinais de pânico ou desorganização, apesar das pesquisas desfavoráveis. O discurso de Netanyahu na ONU, no qual fez uma defesa veemente das ações de Israel na região e repreendeu os críticos, teve grande destaque em seu canal no Telegram. Ele postou seis teasers antes da fala, com um vídeo dizendo que estava "orgulhoso de representá-los perante o mundo, prestes a subir ao pódio para lutar por Israel contra a ONU", além de cinco trechos do discurso. O link para a íntegra veio acompanhado da legenda em hebraico: "Netanyahu enfrenta o mundo".