Lula e Trump divergem na tribuna da ONU

Foto: Ricardo Stuckert/PR
Com eleições à vista, Lula e Trump usaram a Assembleia Geral da ONU para expor agendas opostas e discursos de campanha
Com eleições se aproximando no Brasil e nos Estados Unidos, Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump utilizaram seus discursos na Assembleia Geral da ONU para expor agendas claramente divergentes. Enquanto Lula enviou recados indiretos ao presidente americano, o Brasil foi completamente ignorado no discurso de Trump. Lula abriu seu discurso criticando a falta de credibilidade da ONU e o imobilismo do Conselho de Segurança diante dos conflitos em curso no mundo. Em seguida, traçou um panorama geopolítico que incluiu temas como soberania, multilateralismo, regulação de big techs e inteligência artificial, além da necessidade de ações concretas contra as mudanças climáticas.
O presidente brasileiro também criticou o embargo a Cuba e o que classificou como ingerência externa em países da América Latina. Em tom assertivo, declarou: "O Brasil não cabe no quintal de ninguém" e "As nossas riquezas pertencem aos brasileiros", frases direcionadas ao contexto geopolítico sem citar Trump nominalmente. Ao final, Lula voltou o olhar para o público interno, afirmando que não cederá a pressões sobre o Pix e enquadrando as eleições brasileiras como uma escolha entre democracia e negacionismo. Trump, por sua vez, iniciou seu discurso exaltando os resultados de seu governo com superlativos. "Nossa economia é a inveja do mundo. Nossas forças armadas são as mais poderosas da Terra. Nossa tecnologia não fica atrás de nenhuma, e estamos liderando em praticamente tudo", afirmou. A fixação do presidente americano por renomear conceitos também marcou presença: Trump propôs substituir o termo "Inteligência Artificial" por "Super Inteligência", passando a referir-se à tecnologia apenas pelas iniciais SI — para, em seguida, criticar sua desaceleração, como defendido por líderes do setor de tecnologia. No campo externo, Trump descreveu Cuba como um "Estado falido" e antecipou a queda do regime, enquanto diplomatas cubanos deixavam o plenário. Sobre a Venezuela, defendeu a operação militar que derrubou Nicolás Maduro e declarou, sem rodeios, que parte da receita do petróleo venezuelano seria destinada aos Estados Unidos: "Aos vencedores, os despojos." O momento mais tenso do discurso de Trump veio ao abordar o Irã.
Diante do plenário da maior organização internacional do mundo, o presidente americano ameaçou abertamente o país: "Tenho uma grande decisão a tomar": fazer um acordo com o Irã ou "aniquilar a República Islâmica e fazê-lo rapidamente, sem nunca mais lhes dar a oportunidade de matar e destruir pessoas e países". Logo após, sinalizou um recuo ao convidar líderes mundiais a se unirem pelo isolamento econômico iraniano. Apesar das diferenças de conteúdo e abordagem, Lula e Trump recorreram ao linguajar de campanha eleitoral em seus discursos, seguindo roteiros elaborados para o momento político que cada um enfrenta em seus países. As trajetórias, no entanto, seguiram caminhos opostos: enquanto Lula priorizou o cenário geopolítico antes de mirar o público interno, Trump fez o caminho inverso, começando pela autopromoção doméstica antes de se voltar para os temas internacionais.