Dados de IR revelam concentração recorde entre os mais ricos

© Marcello Casal Jr/Agência Brasil/Arquivo
Dados de IR mostram que os 0,1% mais ricos elevaram sua fatia da renda nacional para 13,1% em 2024, impulsionados pelos juros altos
Os brasileiros mais ricos passaram a concentrar uma fatia recorde da renda nacional durante o governo de Lula, segundo dados extraídos de declarações de Imposto de Renda. O cenário oferece um contraponto ao discurso do presidente de que os ganhos econômicos foram amplamente distribuídos em sua administração, enquanto ele busca a reeleição em outubro. Lula tem apontado a queda da desigualdade — medida por um coeficiente de Gini que atingiu o menor nível da série histórica em 2024 — e a alta do emprego como evidências de que sua gestão prioriza os mais pobres.
Os dados tributários, porém, revelam um quadro mais complexo: juros elevados, em parte consequência do aumento dos gastos públicos, alimentaram um boom da renda financeira que beneficiou de forma desproporcional os mais ricos, mesmo enquanto um mercado de trabalho mais forte e programas sociais ampliados melhoraram as condições na base da distribuição de renda. "Se os benefícios concedidos pelo governo, por um lado, forem de fato bem direcionados, eles podem ter um efeito social positivo", disse Otaviano Canuto, ex-vice-presidente do Banco Mundial. "Mas, por outro lado, a aritmética do endividamento não tem como ser contornada: ela joga na outra direção." Segundo Canuto, a política monetária no Brasil teve de lidar com uma política fiscal "ultraexpansionista", e as preocupações com o aumento da dívida pública elevaram o prêmio exigido pelos investidores para deter títulos brasileiros.
Como resultado, custos mais altos de financiamento do governo geram pagamentos maiores de juros, beneficiando de forma desproporcional famílias de renda elevada, que detêm mais ativos financeiros. Estimativas do pesquisador de desigualdade Sergio Gobetti, com base na abertura de dados de IR pela Receita Federal, mostram que o 0,1% dos brasileiros mais ricos elevou sua participação na renda nacional para um recorde de 13,1% em 2024, ante 10,2% em 2020.
Nesse período, o Banco Central elevou a taxa Selic de uma mínima histórica de 2% para 12,25% para conter a inflação pós-pandemia e desacelerar a atividade econômica em meio aos estímulos fiscais do governo. Como metade da dívida pública brasileira está atrelada à taxa Selic por meio das chamadas LFTs (Letras Financeiras do Tesouro Nacional), custos mais altos de financiamento rapidamente se traduzem em maiores retornos para investidores, criando um paradoxo no qual os esforços para reduzir a inflação também ajudam os brasileiros mais ricos a ampliar sua fatia da renda nacional. "Quanto mais eu subo os juros, mais renda o detentor da LFT tem", disse o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, ao Senado em maio.
O fenômeno antecede Lula, tendo ocorrido também durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro. Mas ele ganhou força à medida que a dívida pública acelerou e o Brasil passou a depender mais de títulos pós-fixados para se financiar, diante de persistentes preocupações fiscais e um ambiente global mais desafiador. Desde que Lula assumiu o cargo, a dívida bruta do governo geral aumentou mais de 10 pontos percentuais do PIB, para 82,5%, enquanto o Tesouro projeta que a participação das LFTs na dívida poderá avançar quase 15 pontos percentuais, para um recorde de até 53% neste ano. O Palácio do Planalto não respondeu a um pedido de comentário.
A análise dos dados tributários oferece mais nuances sobre a distribuição de renda do que o coeficiente de Gini, ao mostrar como uma parcela crescente dos ganhos econômicos do país está sendo direcionada para um pequeno grupo de super-ricos. Isso, dizem economistas, limita a capacidade do crescimento econômico de ampliar oportunidades para toda a sociedade. Marcelo Medeiros, professor de economia da Universidade de Illinois Urbana-Champaign, afirmou que as pesquisas domiciliares usadas para calcular o Gini costumam captar bem a renda do trabalho, mas frequentemente subestimam os ganhos financeiros, mais comuns entre indivíduos de alta renda. "O Gini reflete apenas uma parte da sociedade, a parte que não é muito rica", disse Medeiros. "A desigualdade brasileira é determinada principalmente pela desigualdade que existe entre os ricos e entre os ricos e todo o restante da população."
Estimativas baseadas nas declarações de IR compiladas por Gobetti mostram que a renda financeira, advinda principalmente de retornos de investimentos em renda fixa, respondeu por quase um terço do aumento da participação dos 0,1% mais ricos na renda nacional entre 2020 e 2024. Uma análise da Reuters acerca de dados da Receita Federal constatou que a arrecadação sobre rendimentos de fundos de investimento e outros ativos de renda fixa disparou 325% entre 2020 e 2024, alcançando R$ 92,1 bilhões — salto que superou com folga o avanço da arrecadação sobre rendimentos do trabalho e outras categorias relevantes. A Receita Federal reconheceu que a explosão na arrecadação com renda fixa ocorreu "principalmente em razão da elevação da taxa Selic". O Ministério da Fazenda afirmou que juros mais elevados provavelmente contribuíram para esse aumento, mas ponderou que os dados tributários, por si, não estabelecem uma relação causal definitiva. A pasta acrescentou que vem adotando desde 2023 medidas voltadas à redução da desigualdade por meio de maior justiça tributária.
Embora ainda não estejam disponíveis dados detalhados das declarações de IR de 2025, o boom da renda fixa não mostra sinais de arrefecimento. A arrecadação sobre rendimentos de fundos de investimento e outras aplicações de renda fixa avançou mais 25% em relação a 2024, novamente superando o crescimento da arrecadação sobre rendimentos do trabalho. Embora o Banco Central tenha iniciado um ciclo de afrouxamento monetário em março, a autarquia destaca que a taxa básica de juros precisa permanecer em nível restritivo para levar a inflação anual, atualmente em 4,2%, de volta à meta de 3%. Analistas veem menos espaço para cortes do que no início do ano, citando um ambiente externo mais adverso e medidas do governo de estímulo ao consumo que podem dificultar o processo de desinflação. Pesquisa semanal do Banco Central mostra que economistas esperam que a Selic, hoje em 14%, recue apenas para 12% ao fim do próximo ano, indicando que o impulso dado pelos juros aos rendimentos financeiros dos mais ricos não deve desaparecer tão cedo.