Lula defenderá soberania na ONU, mas sem citar Trump nominalmente

Abertura da Conferência da ONU na COP30
Presidente fará seu décimo discurso na Assembleia Geral sem citar Trump nominalmente, mas com recados sobre soberania e comércio
O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva subirá ao púlpito da Assembleia Geral da ONU na próxima terça-feira (22) para fazer seu décimo discurso naquele palco, o que o coloca entre o seleto grupo de uma dúzia de chefes de Estado que chegaram aos dois dígitos de participações na plenária. Para o Brasil, o espaço é ainda mais simbólico: por tradição, o líder brasileiro é o primeiro a discursar, à frente inclusive do presidente do país anfitrião, os Estados Unidos, que este ano serão representados por Donald Trump. Aos 80 anos e em meio a uma conturbada campanha de reeleição, Lula embarcará em uma viagem de mais de 12 horas de avião para passar menos de dois dias completos em Nova York, a apenas duas semanas do pleito presidencial.
Embora seus assessores afirmem que o presidente não converterá o espaço em propaganda eleitoral doméstica, a participação representa, ao mesmo tempo, uma peça política de peso. O conteúdo do discurso ainda não está totalmente definido. "Não excluo que tenhamos que reescrever tudo chegando lá", afirmou um auxiliar de Lula, sob reserva, que deve viajar com o presidente. Temas clássicos como a reforma do Conselho de Segurança, a defesa do multilateralismo, a conservação ambiental e a necessidade de soluções de governança global para conflitos como os de Gaza, do Sudão e da Ucrânia devem estar presentes.
O que muda, desta vez, é a intensidade do apelo, em um momento em que a ONU enfrenta uma crise política e financeira sem precedentes e se mostra incapaz de eleger um novo secretário-geral, já que o português António Guterres encerra dez anos no posto nos próximos meses.
Nas partes menos previsíveis do discurso, Lula deverá fazer uma enfática defesa da soberania nacional e, de maneira polida, convidará todos os estrangeiros — sem citar Trump nem ninguém nominalmente — a ficarem de fora das decisões políticas internas do Brasil. Lula deve citar a eleição brasileira como exemplo da necessidade de defender a democracia e suas instituições globalmente, em claro declínio no mundo ocidental. Ao contrário do discurso do ano passado, Lula não deve fazer menção nominal ao Judiciário brasileiro. Na ocasião, o presidente discursava apenas um dia após a imposição de sanções da Lei Global Magnitsky à esposa e ao escritório privado do ministro Alexandre de Moraes, que havia relatado o processo que culminou na condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, entre outros crimes.
Agora, sob a ameaça da retomada de tais sanções, os auxiliares de Lula enxergam um cenário diferente. A crise no STF, alimentada pelo pedido de André Mendonça para que o plenário da Corte abrisse investigação contra Moraes por sua suposta relação com o banqueiro preso Daniel Vorcaro, gerou desgaste eleitoral para Lula. Nas palavras de um assessor do presidente, trata-se de uma crise doméstica em que a comunidade internacional "não deve ser chamada a opinar". Em uma variação do tema da soberania, Lula deve defender a cooperação internacional no combate ao tráfico e ao crime organizado transnacional, desde que respeitados os princípios do direito internacional e a integridade territorial.
O recado é direcionado a Trump, cujo governo recém-lançou um documento afirmando que o Brasil falhou em combater as facções CV (Comando Vermelho) e PCC (Primeiro Comando da Capital), ao mesmo tempo em que elogiava governos de direita na América Latina alinhados ao trumpismo. O teor do texto irritou o governo Lula, que viu na peça uma tentativa de impulsionar a candidatura do oposicionista Flávio Bolsonaro, que já afirmou que o Brasil se juntará à iniciativa geopolítico-militar de Trump para a região, batizada de Escudo das Américas, caso ele assuma o Palácio do Planalto no ano que vem. Lula também deve criticar medidas e sanções unilaterais no comércio, apelando para que os países voltem a resolver suas disputas em instâncias como a Organização Mundial do Comércio, sem recorrer a tarifaços como os que Trump impôs ao Brasil — atualmente sob taxa de 37,5% — e a outras dezenas de países.
Embora seus assessores afirmem que Lula recebeu mais de 30 pedidos de reuniões bilaterais, nada estava agendado até o momento. O mais provável é que ele se encontre com os principais expoentes políticos do Partido Republicano e do Partido Democrata. Com Trump, a equipe de Lula vê possibilidade de repetir o encontro coreografado nos bastidores, como ocorreu no ano passado. Esta semana, porém, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro e o comentarista político Paulo Figueiredo pediram explicitamente a interlocutores do Departamento de Estado e da Casa Branca que tal encontro não ocorresse. Do outro lado do espectro político, Lula recebeu um pedido de visita do prefeito socialista de Nova York, Zohran Mamdani, que deve ocorrer na residência do Representante Permanente do Brasil na ONU, o embaixador Sérgio Danese, onde o presidente se hospedará durante a passagem pela cidade.