Irã confirma resposta dos EUA sobre cessar-fogo

Bandeiras de mesa dos EUA e do Irã
Teerã recebe resposta norte-americana à proposta de cessar-fogo enquanto EUA concluem retirada militar do Iraque
O Irã confirmou nesta quarta-feira ter recebido uma resposta formal dos Estados Unidos à sua mais recente proposta para restabelecer o cessar-fogo no Golfo Pérsico. A confirmação veio dias após o presidente Donald Trump ter declarado publicamente que havia rejeitado a iniciativa iraniana. Um porta-voz do governo do Irã afirmou, em postagem no X, que o ministro das Relações Exteriores Abbas Araqchi havia transmitido a resposta norte-americana ao governo iraniano. O anúncio ocorreu no mesmo dia em que Washington retirou suas últimas forças militares do Iraque, encerrando uma presença que custou a vida de 4.500 soldados norte-americanos e deixou mais de 200 mil civis iraquianos mortos desde a invasão que derrubou o ditador Saddam Hussein, em 2003. A retirada foi celebrada pelo Irã e seus aliados como uma vitória estratégica.
Com a guerra entre os EUA e Israel contra o Irã entrando em seu oitavo mês, Teerã apresentou, na semana passada, uma proposta segundo a qual Washington suspenderia o bloqueio aos portos iranianos e o Irã reabriria o Estreito de Ormuz em um prazo de sete dias. O Irã afirma que o plano visa restaurar um acordo provisório que fracassou semanas após ter sido assinado por Trump e pelo presidente iraniano Masoud Pezeshkian, em junho. Embora Trump tenha declarado no domingo que rejeitou a proposta, Araqchi havia dito que Teerã não havia recebido uma rejeição formal até então. Uma autoridade a par das negociações, que não é iraniana e falou à Reuters sob condição de anonimato, revelou que o Catar havia informado Araqchi sobre a resposta dos EUA na terça-feira, quando ele fez uma escala em Doha a caminho de casa, vindo de Nova York. Segundo a mesma fonte, as partes concordam amplamente sobre as medidas necessárias, mas ainda discordam sobre a ordem em que devem ser tomadas. Na semana passada, mediadores do Catar transitaram entre os enviados dos EUA e do Irã em Nova York, à margem de uma reunião das Nações Unidas, nas primeiras negociações indiretas entre as partes em conflito desde que o cessar-fogo foi rompido.
O Irã quer que um eventual acordo lhe conceda o controle sobre o Estreito de Ormuz, a rota de transporte de petróleo mais importante do mundo, que passa ao largo de sua costa. O tráfego marítimo pelo estreito aumentou nas últimas semanas, com as transportadoras cobrando taxas elevadas para enfrentar o risco de ataques. No entanto, os fluxos de petróleo bruto, produtos refinados e gás natural continuam substancialmente interrompidos. Nos incidentes mais recentes, o órgão britânico de segurança marítima UKMTO informou nesta quarta-feira que dois navios haviam sido atingidos por projéteis no dia anterior.
Autoridades norte-americanas e iraquianas anunciaram nesta quarta-feira a retirada das últimas tropas dos EUA das bases no Iraque, cumprindo um plano acordado em 2024 sob o presidente Joe Biden e executado pelo governo Trump. A retirada marcou uma "vitória histórica para os grupos de resistência islâmica iraquianos e para os honrados iraquianos, e uma derrota esmagadora para o projeto americano", disse Abu Mojtaba al-Yasiri, comandante da Resistência Islâmica no Iraque, um grupo que reúne facções armadas apoiadas pelo Irã. O Iraque, invadido pelos EUA em 2003, tem maioria xiita assim como o Irã, e Teerã estabeleceu ampla influência política e militar no país ao longo dos anos. O país tem se tornado frequentemente um campo de batalha por procuração entre os EUA e o Irã. Dos 18 militares norte-americanos listados como mortos desde que Trump lançou a "Operação Fúria Épica", em fevereiro, sete morreram no Iraque.
Washington culpa grupos apoiados pelo Irã no Iraque por atacar países vizinhos, tendo, mais recentemente, destruído um grande oleoduto saudita. A retirada dos EUA levanta "a possibilidade de que os aliados do Irã se sintam cada vez mais fortalecidos na ausência de uma presença militar ocidental", disse o analista político Ahmed Younis, baseado em Bagdá. "Esses grupos podem tentar ampliar seu papel na definição das políticas estatais e na consolidação de sua presença dentro de instituições-chave." Nos EUA, pesquisas mostram que a guerra contra o Irã foi impopular desde o início. A interrupção no abastecimento global de energia e o consequente aumento nos preços dos combustíveis prejudicaram os republicanos de Trump, que tentam manter o controle das duas casas do Congresso nas eleições legislativas previstas para ocorrer em cinco semanas.