IBGE: quase 2 milhões trabalham em plataformas digitais no Brasil

Foto: IBGE/Reprodução
Levantamento do IBGE mostra que quase 2 milhões trabalham por plataformas digitais no Brasil, com jornada maior e rendimento por hora 12% inferior
Quase 2 milhões de pessoas trabalhavam por meio de plataformas digitais de serviços no Brasil em 2025, segundo dados da PNAD Contínua divulgados nesta sexta-feira (4) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O levantamento revela que esses trabalhadores cumprem jornadas mais longas do que os demais, mas recebem rendimento por hora inferior ao dos trabalhadores não plataformizados.
A maior parte desse contingente tinha os aplicativos como principal fonte de trabalho: 1,805 milhão de pessoas, ou 92,1% do total. Outras 182 mil utilizavam plataformas no trabalho secundário, enquanto 28 mil trabalhavam por aplicativos tanto na atividade principal quanto na secundária. O número representa 1,9% da população ocupada, estimada em 102,4 milhões de pessoas.
Entre os diferentes tipos de aplicativos considerados pela pesquisa do IBGE, os de transporte particular de passageiros — como Uber e 99 — reuniam a maior parcela dos trabalhadores: - Os aplicativos de transporte particular de passageiros concentravam 58,9% dos trabalhadores plataformizados, o equivalente a cerca de 1,2 milhão de pessoas. - Os aplicativos de entrega eram utilizados por 29,9% dos trabalhadores, grupo que inclui tanto entregadores quanto pessoas que exploram o próprio negócio e usam essas plataformas para captar clientes e realizar vendas. - Os aplicativos de serviços gerais ou profissionais intermediavam desde faxinas, cuidados de pessoas e pequenos reparos até trabalhos de tradução, redação, programação, design, serviços jurídicos e consultas on-line, além de determinados tipos de microtarefas realizadas pela internet. A pesquisa do IBGE não considera qualquer ferramenta digital como plataforma de trabalho. No comércio eletrônico, por exemplo, Instagram, WhatsApp, Facebook e o Marketplace do Facebook não entram nessa classificação.
Considerando apenas o trabalho principal, o número de pessoas que trabalhavam por meio de plataformas digitais passou de 1,319 milhão em 2022 para 1,805 milhão em 2025, um crescimento de 36,8%. Entre 2024 e 2025, a alta foi de 9,1%. Mesmo com o avanço, os trabalhadores plataformizados ainda representavam 2% dos ocupados no mercado de trabalho privado. O crescimento foi particularmente forte entre os trabalhadores de aplicativos de serviços gerais ou profissionais, cujo número aumentou 55,4% desde 2022, passando de 193 mil para cerca de 300 mil pessoas. Entre os trabalhadores de aplicativos de transporte de passageiros, o crescimento desde 2022 foi de 37,8%, enquanto os aplicativos de entrega tiveram expansão de 19,3% no período.
O trabalhador plataformizado é majoritariamente homem, segundo o IBGE: - 84,4% eram homens e apenas 15,6% eram mulheres, enquanto entre os demais trabalhadores do setor privado as mulheres representavam 41,8%. - A faixa etária de 25 a 39 anos concentrava 47% dos trabalhadores de plataformas. - 86,8% trabalhavam por conta própria, enquanto apenas 4,5% eram empregados com carteira assinada. - Em relação à escolaridade, apenas 8,3% não tinham instrução ou tinham o ensino fundamental incompleto, ante 20,3% entre os não plataformizados.
O rendimento médio mensal dos trabalhadores que utilizavam plataformas digitais de serviços foi de R$ 3.147 em 2025, praticamente igual ao dos trabalhadores não plataformizados, de R$ 3.148. A diferença, no entanto, aparece na quantidade de horas trabalhadas: quem atuava por aplicativos cumpria, em média, 44,7 horas por semana, contra 39,3 horas dos demais trabalhadores do setor privado. Quando o rendimento é calculado por hora trabalhada, a situação piora para os plataformizados: eles recebiam, em média, R$ 16,20 por hora, contra R$ 18,40 entre os não plataformizados — uma diferença de 12%. A evolução dos últimos anos também é desfavorável: entre 2022 e 2025, o rendimento dos trabalhadores por aplicativo variou apenas 1%, enquanto o dos demais trabalhadores cresceu 10,6%.
Em 2025, o IBGE investigou pela primeira vez não apenas se o trabalhador utilizava aplicativos, mas também com que frequência e quantas plataformas usava. Entre os 1,8 milhão de trabalhadores que utilizavam plataformas no trabalho principal, 62,7%, ou 1,1 milhão de pessoas, trabalhavam exclusivamente por meio delas. Outros 21,6% trabalhavam majoritariamente por plataformas, enquanto 15,7% realizavam seus serviços principalmente por outros meios.
A maioria também utilizava apenas um aplicativo: 62,5% trabalhavam com uma única plataforma, 30% usavam duas e 7,5% utilizavam três ou mais. Quando os dois fatores são combinados — frequência de uso e quantidade de aplicativos — aparece um grupo especialmente dependente: 38,8%, ou 701 mil trabalhadores, atuavam exclusivamente por plataformas e utilizavam apenas um aplicativo. No outro extremo, apenas 13,6%, ou 247 mil pessoas, trabalhavam por plataformas e também por outros meios, utilizando dois ou mais aplicativos. O próprio IBGE aponta que essa combinação de alta frequência de uso e pouca diversificação deixa uma parcela dos trabalhadores mais sujeita às decisões das empresas que controlam essas plataformas, já que depender de uma única ferramenta significa ter menos alternativas diante de mudanças nas regras de funcionamento ou até um bloqueio de conta.
Apesar de a maioria dos trabalhadores plataformizados atuar por conta própria, a pesquisa do IBGE identificou diferentes formas de controle exercidas pelas plataformas. Entre os motoristas de aplicativos de transporte particular de passageiros, 80,2% disseram que a plataforma determinava totalmente o valor que receberiam por cada tarefa. Entre os entregadores, a proporção era de 78,3%, e entre os taxistas que utilizavam aplicativos chegava a 73,5%. A plataforma também podia determinar quem seria atendido, o que ocorria totalmente para 70,8% dos entregadores e para 60,8% dos motoristas de transporte particular. A forma de recebimento do pagamento era determinada totalmente pela plataforma para 71,3% dos entregadores e 60,6% dos motoristas. Os aplicativos de serviços gerais ou profissionais apresentavam níveis de dependência menores, mas os dados mostram que, para uma parcela importante dos trabalhadores, a plataforma não funciona apenas como um espaço para encontrar clientes — ela também interfere em diferentes aspectos da execução do trabalho.
A flexibilidade foi o principal motivo apontado pelos trabalhadores para atuar por meio de plataformas. No trabalho principal, 26,8% deram essa resposta. Mas quase a mesma proporção, 24,6%, afirmou que não conseguiu encontrar outro trabalho. Outros 20,8% disseram que o rendimento era maior do que em outras opções disponíveis, enquanto 16,6% afirmaram que utilizavam as plataformas para complementar a renda. No trabalho secundário, a situação é diferente: 87,7% disseram que utilizavam as plataformas para complementar a renda.
Em 2025, havia 1,974 milhão de condutores de automóveis no trabalho principal. Desses, 905 mil, ou 45,9%, trabalhavam por meio de aplicativos. O rendimento médio mensal dos motoristas plataformizados era de R$ 2.873, contra R$ 2.805 entre os demais motoristas — diferença de apenas 2,4%. A jornada, porém, era maior: 45,9 horas semanais, contra 40,4 horas entre os não plataformizados, o que resultava em rendimento por hora menor: R$ 14,40, contra R$ 16 entre os demais. A proteção previdenciária também era inferior. Apenas 25,5% dos motoristas de aplicativo contribuíam para um instituto de Previdência, contra 59,2% entre os que não trabalhavam por plataformas.
Entre os 1,179 milhão de condutores de motocicletas no trabalho principal em 2025, 405 mil, ou 34,4%, trabalhavam por meio de aplicativos. Esse grupo cresceu 91,9% desde 2022, enquanto o total de motociclistas aumentou 22,6%. Nesse caso, o rendimento mensal dos plataformizados era maior: R$ 2.221, contra R$ 1.802 entre os não plataformizados. O rendimento por hora também era superior: R$ 11,40, contra R$ 10,10. Ainda assim, apenas 19,4% dos motociclistas que trabalhavam por aplicativos contribuíam para a Previdência, contra 37,1% dos não plataformizados.
A PNAD também investigou, separadamente, o uso de plataformas de comércio eletrônico por pessoas que exploravam o próprio negócio em atividades de comércio. Em 2025, havia aproximadamente 5 milhões de pessoas nessa situação, das quais 210 mil utilizavam plataformas de comércio eletrônico para obter clientes e vender produtos, o equivalente a 4,2%. O perfil desse grupo difere do observado entre os trabalhadores de aplicativos de serviços: 58,1% eram mulheres, com maior concentração de pessoas mais jovens e com maior escolaridade. A formalização também era mais expressiva: 64,6% dos comerciantes que utilizavam plataformas eram formais, enquanto entre os que não utilizavam essas ferramentas a informalidade alcançava 56,1%. O rendimento era 44,4% maior do que o dos que não utilizavam plataformas, e o rendimento por hora era 38,4% superior. Quase um terço desses comerciantes vendia exclusivamente por meio de plataformas de comércio eletrônico. Os dados do IBGE mostram que o trabalho mediado por plataformas digitais segue em expansão no Brasil, mas ainda impõe condições desfavoráveis a uma parcela significativa dos trabalhadores, especialmente no que diz respeito à jornada, ao rendimento por hora e à proteção previdenciária.