Casal de harpias é flagrado em armadilha fotográfica em MT

Casal de harpias foi registrado por armadilhas fotográficas em Sinop (MT) e surpreendeu até o observador responsável pelas câmeras
Um vídeo capturado por armadilhas fotográficas registrou duas harpias próximas a uma poça d"água em meio à mata de Sinop (MT). A harpia é uma das maiores aves de rapina do mundo, e o flagrante de um casal chamou a atenção tanto do observador responsável pelas câmeras quanto de especialistas em conservação da espécie. O responsável pelo registro é Luigi Seronni, observador de aves há cerca de 11 anos que há três ou quatro anos passou a instalar armadilhas fotográficas em pontos estratégicos de mata na região.
A poça d"água onde as harpias foram flagradas é monitorada por ele durante todo esse período, especialmente durante a seca, quando a concentração de animais silvestres no local aumenta consideravelmente. "Nesse lugar, quando as águas vão secando, eu costumo registrar uma grande variedade de bichos: onça-parda, jaguatirica, tamanduá... muitos bichos passam por ali", explicou Seronni. Entre os registros já feitos no local estão irara, quati e até um macaco flagrado bebendo água. "Como na seca concentra muito bicho ali, por isso que eu coloco a câmera", disse.
A presença das harpias, no entanto, foi uma surpresa para o observador. "Harpia eu não imaginava, foi uma surpresa muito grata ter achado", contou. Ele reforçou que o objetivo do monitoramento é justamente acompanhar a diversidade do local: "O objetivo é esse: é um lugar com alta concentração de bichos, que a gente gostaria de monitorar para ver o que está acontecendo, se tem algum bicho novo."
As imagens chamaram a atenção de Helena Aguiar, especialista ligada a um projeto de conservação de harpias. Ela avaliou o vídeo e destacou a dinâmica entre as duas aves, que pode indicar diferentes estágios de relacionamento entre o casal. "A fêmea está investindo na direção do macho. Ele "foge", mas o contexto não está claro. Se eles são um casal estabelecido com um ninho próximo de onde estão... se são um casal que está se conhecendo... ou se é um macho que apareceu em busca de uma parceira...", ponderou a especialista. Ela também destacou um detalhe do vídeo que ajuda a explicar a movimentação das aves: "Dá para ver no canto esquerdo do vídeo que tem uma fonte de água. Há muitos registros, na internet inclusive, de harpia se "refrescando" dentro da água", afirmou.
Luigi Seronni não é biólogo de formação. Sua ligação com a natureza vem da infância, quando acompanhava o avô em pescarias. "Eu não sou biólogo, eu sou um observador de aves como hobby. Eu observo aves, eu acho que tem mais de 10 anos, vai fazer uns 11 anos aí, e eu sempre fui meio ligado a mato, mais com pescaria. Eu gostava muito de pescar desde a infância com meu avô", contou. Foi justamente em um dia sem pesca que o interesse pelas aves surgiu. Com uma câmera fotográfica na mão e sem sequer uma lente teleobjetiva, ele avistou um uirapuru-laranja e um saí-azul. O encontro transformou sua relação com a natureza. "Aquilo me encantou, e eu comecei a prestar atenção nas aves. E aí eu fui descobrindo que eu não conhecia nada da natureza e fui observando cada vez mais as aves", relembrou.
A partir daí, o interesse só cresceu. Seronni encontrou um grupo de observadores de aves em Goiás, onde trocou experiências e teve o primeiro contato com técnicas como o playback, que consiste na reprodução de cantos para atrair aves. Há cerca de seis ou sete anos, mudou-se para Sinop (MT), onde hoje integra outro grupo dedicado à observação e fotografia de aves na região. O registro do casal de harpias reforça a importância do monitoramento contínuo de áreas com alta biodiversidade, revelando a presença de espécies que, muitas vezes, passam despercebidas mesmo por observadores experientes.