PM julga expulsão de tenente-coronel acusado de matar soldado Gisele

Tenente-coronel e soldado Gisele | Reprodução
Conselho de Justificação da PM julga processo que pode expulsar o tenente-coronel acusado de matar a soldado Gisele Alves
O Conselho de Justificação da Polícia Militar está julgando o processo administrativo que pode resultar na expulsão do tenente-coronel acusado de matar a soldado Gisele Alves, sua companheira.
O julgamento, realizado em formato remoto desde a manhã desta quarta-feira, teve início por volta das 11h e deve se estender por todo o dia, com a arguição de testemunhas e pessoas envolvidas no caso, sem previsão de encerramento.
O processo administrativo contra o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto foi aberto em abril, após a decretação de sua prisão.
Rosa Neto está preso no presídio militar Romão Gomes, acusado de ter matado Gisele no apartamento onde o casal morava no Brás, região central de São Paulo, em 18 de fevereiro.
O UOL revelou que ele segue recebendo integralmente seus salários desde a época dos fatos — rendimentos que ultrapassam os R$ 20 mil.
O Conselho de Justificação é o órgão responsável por avaliar se um oficial da Polícia Militar tem condições de continuar na ativa.
Também chamado de "processo de expulsão", o conselho julga o oficial com base nos fatos apresentados, garantindo também o direito à defesa.
O procedimento é destinado a oficiais: tenentes, capitães, majores, tenentes-coronéis e coronéis.
Os coronéis responsáveis pelo julgamento
O futuro de Rosa Neto na Polícia Militar será definido por três coronéis no Conselho de Justificação, que vão decidir se ele perderá ou não a patente.
Os oficiais foram escolhidos pelo secretário de Segurança Pública de São Paulo, Osvaldo Nico Gonçalves, e seus nomes constam em resolução publicada no Diário Oficial de São Paulo em 31 de março:
O coronel Adalberto Gil Lima Mendonça, que atua no Comando de Policiamento de Área Metropolitana 7 (CPA/M-7), responsável pelo policiamento em Guarulhos e região;
O coronel Carlos Alexandre Marques, que trabalha no Copom (Centro de Operações da Polícia Militar);
A coronel Marisa de Oliveira, também do CPA/M-7, com atuação na região leste da capital paulista.
Um oficial suplente também foi escolhido para assumir a função em caso de afastamento de um dos titulares: o coronel Leandro Garcia Souza, do CPA/M-3, que cobre a área norte da capital.
A decisão dos coronéis será levada ao TJMSP (Tribunal de Justiça Militar do Estado de São Paulo), onde as penas descritas pelo colegiado poderão ou não ser acatadas, podendo culminar na expulsão de Rosa Neto.
Acesso às provas e troca de informações entre instâncias
A Justiça de São Paulo autorizou que o Conselho de Justificação da Polícia Militar tivesse acesso às provas do processo criminal relacionado à morte de Gisele.
A juíza do caso, Michelle Porto de Medeiros Cunha Carreiro, determinou, em decisão na segunda-feira (21), o envio da senha de acesso aos autos à Polícia Militar de São Paulo.
A magistrada também exigiu que a Justiça Militar encaminhe ao processo criminal as provas colhidas em IPM (Inquérito Policial Militar) aberto contra o tenente-coronel.
Ela ainda determinou que as provas obtidas em procedimento administrativo disciplinar na corporação sejam encaminhadas ao TJSP, além de mandar o encaminhamento de folhas do processo para possível apuração de condutas de Rosa Neto, conforme pedido do Ministério Público, para investigação de eventuais crimes militares.
A morte de Gisele e a versão do acusado
Gisele foi atingida por um tiro na cabeça no apartamento onde morava com o marido no Brás, em 18 de fevereiro.
Ela foi socorrida em estado grave e levada ao Hospital das Clínicas, na região central da capital, onde a morte foi constatada às 12h04 do mesmo dia.
Em depoimento, Geraldo afirmou que, no dia dos fatos, se dirigiu ao quarto de Gisele por volta das 7h para dizer que queria se separar.
Segundo ele, após a declaração, a esposa se levantou de forma "exaltada", mandou ele sair do quarto e bateu a porta.
Ele alega ter pegado a toalha para tomar banho em seguida.
Um minuto após entrar no banho, o tenente-coronel declarou ter ouvido um barulho, que pensava ser uma porta batendo, mas ao abrir a porta se deparou com Gisele no chão, ferida na cabeça e segurando a arma de fogo.
Ele disse ter acionado o resgate, a Polícia Militar e ter ligado para um amigo que é desembargador.
O caso foi registrado inicialmente como suicídio consumado, mas o registro foi alterado pela Polícia Civil para "morte suspeita" após o depoimento da mãe da vítima.
A mãe de Gisele disse à polícia que o relacionamento da filha com Geraldo era "extremamente conturbado", afirmando que o tenente-coronel era uma pessoa abusiva e muito violenta, que proibia a vítima de usar batom, salto alto e perfume, além de cobrá-la rigorosamente para realizar várias tarefas domésticas.
O corpo de Gisele foi exumado no dia 6 de março e passou por nova perícia e exames complementares.
A perícia apontou que o corpo da soldado tinha "lesões contundentes" na face e na região cervical provocadas por pontas de dedos e escoriação compatível com a pressão de unhas.
Além disso, mensagens extraídas do celular do tenente-coronel revelaram episódios de ofensas, humilhações e violência física praticados por ele contra a esposa.
Em um dos textos, Rosa Neto disse para Gisele o que considerava um relacionamento ideal, se autoelogiou e afirmou tratar a companheira como "todo macho alfa trata a sua esposa".
Além da morte de Gisele, o tenente-coronel também é investigado por, supostamente, ter tentado intimidar outros policiais militares que atenderam à ocorrência.
Duas PMs foram chamadas para limpar a residência após a morte, de acordo com registros da Polícia Civil.
Rosa Neto sempre negou o crime.
Denúncias de violência contra a mulher podem ser feitas pelo telefone 180, da Central de Atendimento à Mulher, que funciona 24 horas por dia, inclusive no exterior, de forma gratuita.
O serviço recebe denúncias, oferece orientação especializada e encaminha vítimas para serviços de proteção e atendimento psicológico.
Também é possível entrar em contato pelo WhatsApp (61) 99656-5008 ou pelo Disque 100, canal voltado a violações de direitos humanos.