Medo e apreensão marcam volta às aulas na França após onda de escândalos sexuais

Professora conversa com alunos do College Royal Henry-Le-Grand durante a volta às aulas na França. — Foto: Jean-François Monier/AFP
Escândalos de violência e agressões sexuais em atividades extracurriculares geram medo entre famílias francesas no retorno escolar
Cerca de 850 mil professores e mais de 11,6 milhões de alunos retornam às escolas na França a partir desta terça-feira (1º). A volta às aulas no país é marcada por um clima de medo e apreensão coletiva, impulsionado por escândalos de violência e agressões sexuais em atividades extracurriculares descobertos em diversos estabelecimentos durante o verão europeu.
O tema se transformou em uma "verdadeira psicose coletiva", conforme escreve o jornal Le Parisien em sua chamada de capa. A publicação destaca que os pais demonstram preocupação crescente neste início do ano letivo, e muitas famílias afirmam que não vão mais inscrever os filhos em cantinas, centros de lazer e atividades extracurriculares, apesar do grande impacto que isso causa na organização familiar.
O Le Figaro aponta que a apreensão com a violência nas atividades extracurriculares se intensificou após novos casos de agressões sexuais em colônias de férias e centros recreativos durante o verão, registrados em Biarritz e Tarnos, no sudoeste do país.
O reflexo direto dessa crise pode ser medido em números: em Paris, as inscrições em centros recreativos caíram 13% durante as férias de verão, o que representa cerca de 2 mil crianças a menos.
Números alarmantes e investigações em curso
As preocupações das famílias se baseiam em dados concretos. Na capital francesa, 132 monitores foram suspensos desde o início do ano, dos quais 52 por suspeita de violência sexual ou sexista, de acordo com informações anunciadas pelo prefeito Emmanuel Grégoire em junho.
As investigações e os julgamentos se multiplicam, e os pais, organizados em coletivos, mantêm a esperança de justiça. O cenário, no entanto, foi agravado pelo choque provocado por duas absolvições pronunciadas em junho e julho em favor de dois monitores acusados de agressões sexuais contra nove crianças nas escolas parisienses Titon e Alphonse-Baudin.
O jornal conservador informa ainda que, por coincidência, um monitor envolvido em um dos escândalos está sendo julgado nesta segunda-feira em Paris, ampliando a ansiedade das famílias.
Outro tema de preocupação nesta volta às aulas na França é o impacto de um ciberataque ocorrido durante o verão europeu, que comprometeu dados pessoais de dezenas de milhares de professores e alunos. Embora o Ministério da Educação tenha restabelecido a maior parte dos serviços digitais, algumas regiões, como Nantes e Toulouse, ainda enfrentam restrições.
Queda da natalidade e o futuro da educação
O jornal La Croix analisa a volta às aulas sob outro prisma: as consequências da queda da natalidade na França para o sistema educacional do país.
Em 2026, a França terá 161 mil alunos a menos do que em 2025. Segundo o jornal católico, essa forte redução no número de estudantes pode representar uma oportunidade histórica para a escola francesa.
Com menos alunos, os recursos que serão liberados poderiam ser utilizados para aumentar os salários dos professores, reduzir o tamanho das turmas, reforçar as equipes de apoio — como psicólogos, enfermeiros e orientadores —, melhorar a inclusão de alunos com deficiência e repensar a organização das escolas, especialmente nas áreas rurais.
A questão central permanece: saber se o governo aproveitará essa redução para gerar economia ou para reinvestir os recursos na melhoria da qualidade da educação.